Tool, As Parábolas de “Lateralus”

Tool, As Parábolas de “Lateralus”

Nero

O álbum dos Tool, das ilustrações de Alex Grey e das suas visões enteogénicas, visões dos mundos subtis, da sequência de Fibonacci e das suas espirais e da voz de Deus na angélica linguagem de Enoch, foi editado há duas décadas.

Foi neste terceiro álbum que Danny Carey [bateria], Adam Jones [guitarra], Maynard James Keenan e Justin Chacellor [que substituíra o baixista do line-up original, Paul D’Amour] congregaram as potencialidades que álbuns como “Undertow”, mais agressivo e directo, e “Ænima”, eventualmente mais aprofundado num universo visual e experimental, já mostravam e que fazem dos Californianos uma banda única no universo musical.

“Lateralus” foi camuflado por um álbum fantasma, “Systema Encéphale”, exposto com uma tracklist fictícia que imediatamente “surgiu” em sistemas de partilha de ficheiros piratas. Obviamente, os temas eram falsificações com os nomes da tracklist anunciada, pois a banda nunca escreveu títulos como “Riverchrist” ou “Encephatalis”. Foi neste manifesto contra o download ilegal de música que surgiu, em Maio de 2001, este fenomenal trabalho.

A banda produziu o álbum em conjunto com David Bottrill, que já havia trabalhado com os Tool no disco anterior e cujo currículo integrava, por exemplo, trabalhos com King Crimson e Dream Theater, no álbum “Metropolis Pt.2: Scenes From A Memory”. Não será de estranhar toda esta conjugação de adeptos da conceptualidade e observar a duração de “Lateralus”, com quase 80 minutos, e dos temas que o compõem, um dos singles – “Parabola” – ultrapassa inclusive os 10 minutos.

Os Tool obrigaram os amantes de música e concentrarem-se novamente no álbum como todo, através da densidade criativa de “Lateralus”, em que, por exemplo, “Disposition”, “Reflection” e “Triad” formam uma sequência musical; o tema que partilha o título com o álbum é escrito numa sequência Fibonacci, que se reflecte na letra e na bateria do próprio tema “Lateralus” e cujos resultados podem depois ser aplicados à totalidade do disco, reordenando a audição – é algo absolutamente espantoso.

Enigmas à parte, o disco é construído através da criatividade conjunta – com grandes atmosferas e progressão emocional e mística – e da soma das partes de músicos singulares.

Além da voz de Maynard, surgem as guitarras com um pé no passado do heavy metal e outro no futuro da guitarra, através do processamento de efeitos, tudo solidificado pelas linhas rítmicas, cujas variações de tempo serão a característica mais visível na sonoridade dos Tool, afinal quem não conhece o primeiro single do álbum, “Schism”, com a incomparável abertura do baixo e progressiva integração com a bateria num ritmo que parte dum desenho «6,5/8 até todo o tipo de configurações», como refere Justin Chancellor.

A SEQUÊNCIA FIBONACCI

O algoritmo recursivo que define a série aplica-se, na prática, conforme a regra sugere: começa-se a série com 0 e 1; a seguir, obtém-se o próximo número de Fibonacci somando-se os dois anteriores e, assim, sucessiva e infinitamente. Os primeiros números de Fibonacci para n = 0, 1,… são: 0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377, 610, 987, 1597, 2584, 4181, 6765, 10946…

Desenhando a sequência iremos conseguir uma espiral cujo vértice é definido pelo número que inicia a sequência. “Lateralus” serve portanto como puzzle ao disco, onde o baterista Danny Carey – obcecado por geometria sacra – enceta uma sequência Fibonacci, no padrão de bateria, até 13 [o número de faixas no álbum] e voltando depois ao 1, que, resolvida, revela uma nova ordem de execução dos temas numa espiral infinita.

Coincidência? Se pensarmos que o último tema do disco se chama “Faaiap de Oiad”, “A Voz de Deus” segundo as siglas de Enoch – a linguagem angélica – e que um dos axiomas divinos é a eternidade, há muitas possibilidades… Sugerimos colocar o 13 no meio, com 6 temas para cada um dos seus lados, sendo que no tema “Lateralus” o baterista passa do 13 para 1, assim as somas serão: 6-7-5-8-4-9-[13]-11-12-2-11-3-10

Um dos grandes álbuns do milénio, da história do rock e da música. “Lateralus” é um gigante que, junto com os outros discos da banda, fundou uma escola musical.

“Lateralus” é o álbum onde duas vias xamânicas, a musical e a visual, se vão encontrar. Um álbum onde, musicalmente, se disseca de forma concreta e simbólica o que é isto de ser um ser humano a caminhar sobre a terra, experimentando o milagre de estar vivo. Sobre estas sinestesias podem (e devem) ler mais no artigo do Carlos Garcia.

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