Três histórias de João Ribas

Três histórias de João Ribas

Tânia Ferreira

Multiplicam-se as histórias com o mesmo protagonista. Way back in the day aquela que é hoje a “owner” da Arte Sonora conheceu o ícone e descobriu um “porreiraço”. Tó Pica ficou a dever um Mon Chéri ao “Ribas Digest”. Paulo Pereira partilhou o palco com um ídolo.

Em miúda era seguidora de Censurados. Identificava-me com o grito revolucionário de querer mudar o mundo. Mas vi sempre recusadas as minhas investidas para ir ver a banda tocar. Porque antes não tinha idade, porque depois vivia numa aldeia a 30 km de Lisboa (o que há 20 anos atrás representava uma distância acentuada), porque eles depois acabaram…

Entretanto apanhei uma vez o Ribas no saudoso Johnny Guitar e esta memória ficou-me até hoje. Enchi-me de coragem e fui dizer-lhe olá e que gostava da música dele, etc., etc. E ele não me ligou nenhuma. Que ofensa! Imaginem a mistura explosiva de uma miúda adolescente com o ego ferido pela banda que curtia ter visto e que sempre lhe escapou. Levei a mal, claro! Mas não me fiquei e voltei a investir, qualquer coisa como: «Olha lá, ó poser. Venho aqui falar contigo sobre a tua música. Que sempre gostei e tu não falas comigo? Custa muito retribuir um minuto de atenção? Desculpa lá se não venho aqui com ares de groupie»!

E ele deve ter achado piada à miúda insurgente e passou um bom bocado a falar comigo. Sem tretas. Sem ares de poser, como o acusei injustamente. Provavelmente interrompi uma conversa de velhos amigos. Provavelmente apetecia-lhe apenas ouvir música. Provavelmente estava cansado e sem disposição para conversas com estranhos. Tantos provavelmente que me assolam hoje em dia, já mais madura. Mas a verdade é que largou o que quer que estava a fazer para dar conversa a uma miúda com a mania que era intelectual, revolucionária e expert em música. Estes minutos ficaram-me até hoje como aquilo que deve ser um músico quando alcança o sucesso. Sem “snobismos”. Sem ares de diva. E o que podem dar a um simples miúdo que os segue pode ser mais do que à partida imaginam. Lembro-me de ter saído daquele Johnny Guitar capaz de conquistar o mundo. Com o maior ego que existe. Afinal, se estive a trocar galhardetes musicais com um rocker daqueles, o que é que eu não era capaz?

Hoje, a trabalhar numa revista de música, já me cruzei com muitas bandas e é no fundo o meu dia-a-dia. Hoje, já é “banal”. Mas há uns anos, fez toda a diferença ter falado com um dos grandes do panorama nacional. Eu saí daquele bar grande (apesar do meu metro e meio!). E isso pode acontecer um bocadinho por todo o mundo, a todo o momento… E isso é ser punk!

Estes minutos ficaram-me até hoje como aquilo que deve ser um músico quando alcança o sucesso. Sem “snobismos”. Sem ares de diva.

Tânia Ferreira [CEO, Gato Escaldado]

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A Arte Sonora pediu-me para dizer umas palavras sobre o João Ribas – “Ribas Digest”  como, carinhosamente, o chamava – e, olhando para trás, nem sei como o conheci. Tenho a sensação que foi desde sempre!

Não vou falar da obra dele, que é sobejamente conhecida e sabida por todos e nem sempre reconhecida infelizmente, nem das centenas de concertos onde o encontrava. Aliás, concerto underground onde o Ribas não estivesse quase que não era considerado concerto, fosse onde fosse. Não vou falar do mítico apito que ele fazia com a boca, nem da gargalhada contagiante que tinha, nem o humor “non-sense” em que tanto me revejo!

Tenho algumas  histórias passadas na estrada com o Ribas.  Umas podem contar-se, outras não (por incluirem mais pessoas e não me apetece ter nenhum mal-humorado à perna), mas todas foram sempre divertidas e sem maldade, apenas pura diversão e gozo! Lembro-me bem de, pelos idos de 1999, estar a tocar na banda  “Sérgio e os Animais”. De vez em quando convidávamos o Ribas para vir com a malta e subir ao palco para tocar o “Srs Políticos”, de Censurados, e o “I Wanna Be Your Dog”, dos Stooges. Ensaiávamos no Fogueteiro e, por norma, ficávamos a dormir em casa do Sérgio. O Ribas, quando o convidávamos, ia aos ensaios e muitas vezes também lá ficava e, no dia seguinte, lá íamos ao pequeno-almoço de um croquete e uma mini… Ora, uma dessas ocasiões foi para um concerto megalómano de Passagem de Ano, na marina de Faro, em que levámos uma comitiva de 19 pessoas (uma boa parte convidados por nós, para tocar). Visto que era a passagem do ano de 1999 para 2000 e ia ser o fim do mundo em cuecas e mais não sei o quê, então decidimos que queríamos os amigos todos por perto, onde também estava o João Ribas. Assim sendo, fomos buscá-lo aos barcos do Seixal  para o ensaio.

Quando lá chegámos, o Ribas, com o seu sorriso, abraçou-me, deu-me um beijo na cara e disse «Pikaxu, meu metaleiro, já tinha saudades tuas». Meteu a mão no bolso e deu-me um Mon Chéri. Na altura, comecei a rir e disse: «F***-se, já não és punk, estás a ficar com o coração mole»… Mas não, o Ribas era mesmo assim, genuíno, simples, e uma grande pessoa. Quando gostava, gostava, mas quando não gramava também não papava grupos… A partir daí vinha sempre à baila o “Pikaxu”, o “Ribas Digest” e os Mon Chéri.

Ribas, ainda te estou a dever um Mon Chéri, mas um dia entrego-te. E onde quer que estejas manda-lhes  com um apito nas orelhas e ri-te como sempre…

O Ribas era mesmo assim, genuíno, simples, e uma grande pessoa.

Tó Pica [R.A.M.P.]

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O João foi uma das minhas grandes referências como músico. Acompanhei a carreira dele com muita admiração. Ele tinha um grande carisma e simbolizava revolta, não ter papas na língua… ser punk. Formei os Zé Manel Suicida porque queria ter uma banda como os Censurados. Guardo religiosamente as cassetes com gravações de concertos no Rock Rendez Vous dos Ku de Judas e Censurados.

Em 1998, trabalhava no jornal Inside e o meu amigo João Rolo pediu-me para entrevistar os Tara Perdida. Estive presente no lançamento do disco ”Só Não Vê Quem Não Quer” (o segundo álbum de Tara Perdida), na Virgin. No final do concerto fui entrevistar a banda. Durante a entrevista o João disse-me com a toda humildade: «Os Tara são isto, uma banda honesta’». Ele respeitava muito o público e levava a música muito a sério.

Em 2012, quando estávamos a preparar o artwork do álbum ”Conceito”, dos Booster, foi decidido que uma das capas que íamos recriar seria a do primeiro disco dos Censurados. O João adorou a ideia da foto e fartou-se de rir quando viu que o gajo que estava na foto a fazer dele era careca. Foi uma honra ele ter aceite participar no nosso concerto de aniversário no Cinema São Jorge. Ele era bastante divertido e contador de histórias. Os ensaios foram uma curte, com muito boa onda e cervejinhas sem álcool. Na altura, ele estava a acabar o disco dos Tara Perdida e mostrou-me os mp3 dos temas. Estava muito orgulhoso com o trabalho que ia sair.

No S. Jorge, o João tocou um tema nosso e o ”É Difícil”, dos Censurados. Foi um momento mágico com toda a energia e boa onda do João. Um orgulho para nós podermos partilhar o palco com ele. Ainda bem que ficou registado em disco, pois isso ninguém nos pode tirar. Obrigado João e até sempre.

O João fartou-se de rir quando viu que o gajo que estava na foto a fazer dele era careca.

Paulo Pereira [Booster]