Ver a música é possível no MUVI Lisboa

Ver a música é possível no MUVI Lisboa

Ana Cristina Pereira

“Ver a música” é a premissa do MUVI, que promete vir para ficar. Esta primeira edição foi organizada sem fundos, em tempo reduzido e com grande esforço por parte dos organizadores. O MUVI Lisboa decorre de 3 a 7 de setembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Traz secções em competição e não-competição onde estão incluídas sessões de cinema inéditas em Portugal, vídeos musicais, showcases, Dj sets e muito mais.

Estivemos à conversa com a organização do festival MUVI Lisboa e fizemos algumas perguntas acerca das perspectivas para este festival inédito. Para além das dificuldades inerentes à criação de um festival de raíz, para apresentar uma programação completa e actualizada como esta é necessário ter olhos e ouvidos apurados. Tentámos perceber, junto da organizadora e programadora desta edição, Filipa Marta, o que podemos esperar deste festival.

CONSULTA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DA EDIÇÃO DE ESTREIA DO MUVI.

AS: Desenvolveram este festival sem apoios e, mesmo assim, o MUVI chega ao Cinema São Jorge em tempo recorde e com uma programação que, até agora, não tinha um espaço com uma verdadeira tela de cinema. Como se aperceberam deste espaço vazio nas fileiras de eventos de cinema e música no país?
É verdade, o único apoio financeiro que tivemos veio apenas do crowdfunding. Mas mesmo assim não desmoralizámos e avançámos com o MUVI Lisboa. Acho que já muita gente já teve esta ideia a diferença é que nós arriscámos na sua concretização e o resultado está à vista.

AS: Desde a geração MTV, em que os vídeos apenas tinham a função de acompanhar a música e adaptá-la aos media televisivos, a industria cinematográfica desenvolveu-se bastante. Agora, existe quase um culto ao vídeo musical, à imagem que acompanha a música. Criam-se verdadeiras histórias, narrativas, por vezes quase longas-metragens de música para música. É por isso que um festival como o MUVI é tão importante?
Sem dúvida que sim e tocas num ponto que já foi discutido entre a equipa do MUVI Lisboa relativamente ao facto de haver uma competição no festival para vídeos musicais. Nós chamamos a essa competição “Canções Com Gente Dentro” e foi muito difícil fazer a seleção entre as centenas que recebemos. Cada vez mais, o vídeo musical deixou de ser o suporte publicitário da música para a TV e são autênticas obras de arte que nos conseguem intrigar emocionalmente numa questão de minutos. Recebemos tantos que houve a necessidade de separá-los por três sessões, uma de ‘ficção’ nacional, outra de ‘ficção’ internacional e a novidade do festival, uma sessão de animação nacional e internacional. Estas três sessões da competição de vídeos musicais estão com uma fasquia de qualidade muito elevada e deixo o desafio ao público de se sentar nesta sala do Cinema São Jorge e ver para além do que ouve, deixar-se ser surpreendido.

CONSULTA O PROGRAMA “CANÇÕES COM GENTE DENTRO”.

AS: Para além da busca por curtas e longas-metragens recentes (entre 2013 e 2014) e tendo em conta a junção entre a imagem e o som – ou não seria o MUVI um festival de cinema – quais são os vossos principais critérios para a selecção documental musical?
A seleção teve como base o nosso conceito: “e se a música pudesse ser vista?”. Os filmes que apresentamos no festival estão dentro deste conceito e falam-nos de música. Recebemos alguns filmes que apesar de serem bons, não falavam sobre música ou por exemplo, terem um artista no elenco mas o ‘sumo’  ser um tema completamente diferente.

Que o facto de existir a ‘montra’ MUVI Lisboa possa ser de algum modo o fio condutor para que os próprios artistas, realizadores, produtores e mesmo as faculdades da área sejam ‘picadas’ para criarem produtos de qualidade.

AS: Esta iniciativa pode, de facto, impulsionar a cultura do vídeo musical em Portugal? Quais são as vossas perspectivas de futuro para o MUVI?
Eu penso que sim, que o facto de existir a ‘montra’ MUVI Lisboa possa ser de algum modo o fio condutor para que os próprios artistas, realizadores, produtores e mesmo as faculdades da área sejam ‘picadas’ para criarem produtos de qualidade e sejam mais exigentes nesse trabalho. Porque para nós, MUVI Lisboa, o vídeo musical, neste caso, é a chave-na-mão. Se for bom, é selecionado. Se não for, é excluído, independentemente se o artista em questão é ou não conhecido, se passa ou não na rádio.

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Os Mão Morta fazem parte do alinhamento com o vídeo de “No Meu Relógio são Horas de Matar”

AS: Apesar da falta de apoios financeiros, a vossa campanha de crowdfunding terminou da melhor forma possível, com o vosso objectivo final ultrapassado. Até que ponto é que o crowdfunding pode ser uma aposta para a organização de eventos culturais em Portugal?
O crowdfunding é uma forma interessante de eu e tu apoiarmos, de um modo seguro, projectos nos quais acreditamos, de nos envolvermos e incentivarmos para que essa ideia seja real. É muito comum a sua utilização no estrangeiro desde a realização de  filmes, eventosculturais, edições de discos, etc. Por cá, começa a ganhar mais adeptos. Mas precisa sempre de divulgação para que a mensagem chegue ao público, uma vez que, estas plataformas têm limite de tempo e se o objectivo não for cumprido nesse período, o dinheiro volta para as pessoas. No nosso caso, a divulgação não foi totalmente sincronizada com a imprensa e entretanto o crowdfunding fechou. Temos recebido muitos emails de pessoas que só agora souberam da existência do MUVI Lisboa e queriam de certa forma apoiar. Nós ficamos super lisonjeados e só podemos agradecer este apoio que tem vindo de todos os lados. Sendo que o nosso único apoio financeiro foi de facto o crowdfunding, agora o que gostávamos que acontecesse é que as pessoas durante os dias do festival sejam curiosas o suficiente para saírem do conforto das suas casas e virem beber connosco esta cultura sobre música.

Os bilhetes por sessão têm um custo de 3€ para bilhete normal e de 2,5€ com desconto. Os showcases, com PZ, NBC, Noiserv e First Breath After Coma, são 5€ por sessão. Os Dj set’s têm entrada livre.

Vê, aqui, o trailer do filme da sessão de abertura, “Our Vinyl Weights a Ton”, de Jeff Broadway:

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