Três Dias de Música e Paz, os 50 Anos de Woodstock

Três Dias de Música e Paz, os 50 Anos de Woodstock

Nero

A história de Woodstock, um dos singulares momentos em que uma utopia se manifestou no plano de existência. Os números, os concertos, o som de quando o rock foi o epicentro do mundo.

No dia 15 de Agosto de 1969, pelas 17h, Richie Havens começou um set de cerca de duas horas nos campos de pasto de uma quinta em Bethel, no estado de Nova Iorque, uns 70 quilómetros ao sul de Woodstock. Os Sweetwater (a banda pioneira do psicadelismo e a sua vocalista Nansi Nevins têm uma história que não cabe aqui e vale a pena pesquisar) marcados para abrir o festival, foram retidos pela polícia e muitos outros artistas estavam, literalmente, presos na massiva confusão de trânsito que se gerou ao longo de quilómetros nos acessos à localização do festival.

Muitos outros problemas menores surgiriam ao longo do festival. Por exemplo, a chuva obrigou a alguns adiamentos e assim os 32 concertos que ali tiveram lugar fizeram os três dias passarem a quatro. Mas o sonho de Michael Lang, Artie Kornfeld, Joel Roseman e John P. Roberts acabou, mesmo assim, por tornar-se um dos momentos mais significativos na história da música popular, do rock e do mundo. Um momento axiomático, quiçá o clímax da geração da contracultura por excelência, no qual 400 mil pessoas se uniram sob a esperança no advento da Era de Aquário. Essa geração, nesse concerto, foram um dos singulares momentos onde, de facto, uma utopia esteve no plano de existência. Afinal, as parcas condições logísticas, de segurança e conforto, não promoveram nenhuma desordem social significativa. Prevalecendo a sã convivência entre quase meio milhão de pessoas. Bastaria pensar no desastre de motins, pilhagens e violência sexual que marcaram a fracassada reedição de 1999…

Aliás, já na edição de celebração dos 25 anos do festival, em 1994, surgiram problemas (embora sem despoletar quaisquer conflitos) logísticos e a pretendida celebração dos 50 anos, marcada para estes dias, acabou mesmo por ser cancelada. Por este ou por aquele motivo, aqueles dias de 1969 tornaram-se irrepetíveis. Richard Nixon tomara posse como Presidente dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que o país protestava contra o Conflito no Vietname e contra o racismo, que havia vitimado no ano anterior o reverendo Martin Luther King Jr.; a infame Família Manson cometera os seus macabros massacres, colocando um final espiritual aos ideais do Verão do Amor, poucos dias antes; em Nova Iorque, a Rebelião de Stonewall tinha iniciado de forma mais notória os movimentos sociais em defesa dos Direitos LGBT.

Poucos meses antes, em Altamont, num concerto dos Rolling Stones, os Hells Angels (contratados para fazer a segurança do evento) assassinaram uma pessoa. Apesar do receio dos organizadores, autoridades e forças de segurança quando a área de Woodstock foi totalmente ocupada pela multidão, o festival teve uma atmosfera extraordinariamente pacífica. Houve três mortes registadas – duas por overdose de drogas e outra quando um espectador que dormia foi atropelado por um trator num campo de feno vizinho. Ou seja, mesmo com toda a agitação social que existia nos Estados Unidos da América, a união, a paz e a música triunfaram.

SOM

O engenheiro Bill Hanley foi o responsável máximo pelo som do festival. Hanley construiu mesmo algumas estruturas de colunas para servirem de reforço nas colinas e para actuarem como torres de delay. Naturalmente, o som foi desenhado para a audiência esperada de 150 a 200 mil pessoas. Acabou por aparecer o dobro. Se nos lembrarmos do filme de Ang Lee, a maioria não tinha acesso a um som discernível e capaz de traduzir o que se passava no palco. Aí estavam colunas desenhadas pela ALTEC, monstros que pesavam meia tonelada, carregadas com altifalantes (4x 15”) JBL D140, tweeters (4x 2”) Cell e (2x 10”) Cell Altec Horns. No backstage, três transformadores ofereciam 2,000 amperes de corrente eléctrica, parta alimentar o palco.

A microfonia esteve maiorotariamente a cargo da Shure. Hanley recorda que foram usados cerca de 20 microfones Shure Unidyne SM545, 4 micros Shure M67 com input pads e 2 Shure Audio Masters para EQ. Para fazer a transição entre as consolas e os power amps foram usados um mixer valvulado ALTEC 1567A e 4 Teletronix LA2A (limitadores valvulados). A equipa de som, composto por 12 pessoas trabalhou por baixo da estrutura do palco, recorrendo a 20 amplificadores a válvulas McIntosh MC3500, de 350 watts RMS para trabalhar o reforço de som e potência.

CONCERTOS

Sejamos honestos. O cartaz não foi o mais entusiasmante. Naturalmente, estas coisas são subjectivas, mas se, hoje e mesmo considerando a época, olhássemos o cartaz e não soubéssemos a dimensão que o festival teria e a relevância como fenómeno histórico que atingiria, talvez não metêssemos numa “pão de forma” a caminho de Woodstock. Bom, talvez dependesse das provisões que a carrinha transportasse…

Devido às desconfianças relativamente a este tipo de eventos, muitos artistas optaram por ficar de fora, desde logo os Rolling Stones, marcados pelos eventos de Altamont. Outros recusaram por convulsões internas, como os Doors, os Beatles ou o Jeff Beck Group. Muitos recusaram por estratégia, como os, na altura, emergentes Led Zeppelin, os Jethro Tull, Bob Dylan, Simon & Garfunkel ou Frank Zappa. Entre muitos outros. No final, entre muitos artistas folk, The Who, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Janis Joplin, Sly And The Family Stone, Jefferson Airplane e Canned Heat foram os nomes mais consagrados. Vieram ainda a tornar-se ícones nomes como Joe Cocker, Ravi Shankar, Santana, Mountain ou Crosby, Stills, Nash & Young (Neil Young apenas tocou em metade do set), mas quando tocaram no festival estavam no início dos seus périplos e ainda não eram os pesos pesados que se tornaram com o decorrer dos anos.

Os concertos em maior destaque, por razões distintas, terão sido aqueles dos The Who, Grateful Dead e Santana. Os britânicos andavam em digressão de promoção a “Tommy”, o álbum da sua excepcional ópera rock. A setlist representa bem essa época da banda, ainda que tenha sido encurtada em comparação com os restantes concertos da digressão. Por exemplo, o medley de “My Generation” esteve longe de atingir os 15 minutos como tantas vezes sucedia. Apesar de mais curto, ou talvez por isso mesmo, a habitual agressividade dos The Who ficou mais concentrada e poderosa, num crescendo de intensidade paralelo ao referido álbum, que culminou com a libertação final em “See Me, Feel Me”, acompanhada pela chegada da luz do amanhecer ao palco. Um momento mágico. A banda tocaria ainda “Naked Eye”, antes do Pete Townshend se dedicar a escavacar a sua guitarra, no caso uma Gibson SG que foi depois arremessada para o público.

No pólo oposto, o concerto dos Grateful Dead foi uma desilusão. A sua enorme reputação de jam band, de tremendas viagens lisérgicas promovidas pelos seus concertos e improvisos, fazia antever a muitos que seriam a grande banda do festival. Mas tudo correu mal desde o início. O concerto atrasou-se imenso por causa da chuva que não só inundara o palco como destroçara a ligação à terra. Tudo foi tentado para estabilizar o máximo possível o equipamento, mas durante toda a actuação, a banda sofreu vários choques eléctricos. O risco de electrocussão era bastante elevado e houve alongados intervalos entre as canções, procurando corrigir o problema. Por exemplo, a meio do set, em “High Time” deu-se um falso arranque, que foi seguido por uma pausa de cerca de 10 minutos (facilmente verificáveis nos registos áudio). Isto quebrou a concentração dos músicos e o dinamismo do concerto. Ainda assim, quando tudo parecia minimamente estabilizado, os Grateful Dead fizeram aquela que é uma das mais longas interpretações de “Turn On Your Lovelight”, improvisando sobre o tema durante quase 40 minutos, quando uma sobrecarga eléctrica nos amps de palco forçou o fim do concerto.

A surpresa maior terá sido Santana e o seu excelente concerto. Afinal, na época, praticamente ninguém ali presente conhecia a banda. Com o álbum de estreia editado nesse mesmo mês de Agosto de 1969, Santana apenas tinha na bagagem alguns pequenos concertos na zona de São Francisco. Mas, ainda antes da obra-prima que foi “Abraxas”, o seu álbum de estreia e, principalmente, o concerto no Woodstock já evocaram todo aquele voodoo e vibração xamânica. A banda fez-se acompanhar de uma enorme secção de percussão que cativou o público. Além do tremendo solo de bateria em “Soul Sacrifice”, promovido por Michael Shrieve, na altura um puto de 20 anos de idade. Para aumentar os mitos em torno da actuação, Carlos Santana alega que estava com a cabeça cheia de LSD e que, durante a maioria do tempo do concerto, alucinou que a sua guitarra era uma cobra… Se isso foi verdade, avaliando pelos registos do concerto, o guitarrista não teve medo nenhum!

HENDRIX

No fim, claro, houve Hendrix e valeu por tudo! No dia 17 de Agosto, o último dia previsto para o festival, Joe Cocker abriu o palco pelas duas da tarde. O músico juntara a The Grease Band em 1966 e o seu sucesso foi modesto até que em 1968, a versão de “With A Little Help From My Friends”, original dos Beatles, escancarou as portas do sucesso e permitiu o convite para o Woodstock. O tema foi dos mais ovacionados nesse dia. No final do concerto de Joe Cocker, pelas 15h30, uma enorme e violente trovoada interrompeu o festival durante várias horas. Os concertos só foram retomados pelas 18h30. Quando Jimi Hendrix subiu ao palco, eram as 09 da manhã da Segunda-feira 18 de Agosto de 1969. Apenas 200 mil pessoas, segundo algumas fontes, ou 40 mil, de acordo com outros relatos, persistiam no festival e assistiram a um dos mais icónicos concertos na história da música.

Perto do final da sua setlist, Hendrix criou um dos momentos mais lendários na história da guitarra eléctrica, do rock, da música e mesmo da política. O guitarrista interpretou o hino nacional norte-americano, o “Star Spangled Banner”, numa versão carregada de feedback, com abuso da alavanca de vibrato, distorção e sustain, para procurar evocar ataques aéreos e as explosões dos bombardeamentos de napalm,numa alusão ao conflito no Vietname. Diz-se que Hendrix estava há mais de três dias sem dormir… No final da sua actuação, que muitos consideraram como um protesto político e se tornou iconográfica e inigualável, possivelmente, o momento mais alto na história da guitarra, o guitarrista teve um colapso e caiu exausto.