A Deslumbrante Discografia de Wovehand

A Deslumbrante Discografia de Wovehand

Nero

Uma tremenda colecção de canções, com um carisma verdadeiramente singular na música contemporânea, desde o álbum de estreia ao recente “Strat Treatment”.

Em Portugal, pela Amplificasom, os Wovenhand tocaram no Hard Club e RCA Club em 2017. Depois de deslumbrarem o Paredes de Coura e o Amplifest, estrearam-se em datas em nome próprio. Contudo, o nome da banda confunde-se com o do seu líder – David Eugene Edwards – que ao longo dos vários álbuns da banda, metodicamente lançados a cada dois anos, e já antes em 16 Horsepower, nunca perdeu a capacidade de escrever canções lindas de morrer.

Excluimos os discos de bandas-sonoras que a banda editou: “Blush” (2003) e “Puur” (2006).

Wovenhand (2002)

O álbum de estreia contém, ainda hoje, todo o seu encanto. Originalmente, a banda possuía um som muito mais acústico. E se a presença de elementos da música ameríndia continua presente nos novos álbuns, a suavidade e a beleza simples do neofolk, as letras que evocam passagens veterotestamentárias e uma atmosfera de old-time music, com que a banda iniciou a sua carreira estão aqui encapsulados sem a maior presença eléctrica mais recente. Aliás, neste primeiro álbum, as diferenças para os 16 Horsepower eram, basicamente, nulas. Só o nome tinha mudado. “Wovenhand” é a prova da força que tem o bom songwriting, um álbum deslumbrante.

Consider The Birds (2004)

Quiçá, o álbum mais marcado pela fé cristã de Eugene Edwards, nas letras e, desde logo, no próprio título – extraído do Sermão da Montanha. O carácter mais narrativo da vocalização, além do piano, acrescenta aos Wovenhand uma dimensão Bad Seeds. “Consider The Birds” tem um maior charme de produção sonora em relação ao primeiro álbum. Com uma mistura mais equilibrada, suavizando a relação entre elementos percussivos, instrumentos de cordas, piano, sanfona e ainda as guitarras eléctricas e acústicas. Nas canções, isto reflectia-se numa maior articulação melódica, com maior densidade e menos ingenuidade.

Mosaic (2006)

O primeiro álbum depois da dissolução de 16 Horsepower. Um álbum de transição, em que o folk e os arquetípicos de americana se juntam a uma maior sintetização e a estéticas da música folk e religiosa europeia – basta ouvir uma canção como a medievalesca “Swedish Purse” ou “Dirty Blue” para o perceber. Com menor coerência ao longo da tracklist, em comparação aos dois primeiros álbuns, tem ainda assim algumas das melhores canções da banda, como o caso de “Whistling Girl” ou “Bible And Bird”, esta sim, bem yankee.

Ten Stones (2008)

O primeiro álbum em que é mais notória a tendência pela electricidade. Desde a abertura com “The Beautiful Axe” e “Horse Tail”, Eugene Edwards arquitecta uma fusão majestosa entre elementos folk acústicos e peso de amplificação. Lírica e musicalmente pomposo, como exemplificam temas como “Kingdom Of Ice”, carregado de drones de sanfona, ou o blues de guitarras musculadas e alimentado por foles que é “Kicking Bird”. Com maior amplitude atmosférica, a pregação de Edwards parece também mais reverberada, mais exaltada. Algo apenas atenuado, a meio do disco, com a estranha bossa-nova “Quiet Nights Of Quiet Stars”.

The Threshingfloor (2010)

O regresso a uma ambiência mais acústica e mais inspirada nas raízes musicais europeias. Curiosamente, a matriz ameríndia é também exposta mais directamente neste álbum, em temas como “Raise Her Hands”. Essa fusão, bem sonicamente desenvolta, parece permitir visualizar mais claramente as próprias raízes espirituais de Eugene Edwards – um ecumenismo assente na herança dos peregrinos do Novo Continente da velha teologia europeia, mas com um coração xamânico tribal, mais próximo do núcleo primitivo da mensagem cristã. “His Rest” é uma das mais bonitas canções de amor na última década, “Singing Grass” é, simplesmente, bonita.

The Laughing Stalk (2012)

O álbum da “maioridade”. Onde, mesmo com as canções lideradas pelo carisma vocal de Eugene Edwards, a banda soa com maior coesão, na plenitude potencial. De volta a uma sonoridade mais electrificada, o equilíbrio do álbum, as dinâmicas instrumentais, os pressupostos espirituais e até o carisma do compositor surgem mais depurados de influências externas. Assim, as canções são mais longas e mais estruturadas numa estética roqueira, quer nos momentos de maior cadência rítmica, quer nos mais expansivos, sem abdicar de nenhum dos fragmentos discográficos anteriores. “Long Horn” abre de forma épica, “King O King” é o poder, “As Wool” é um dos hinos mais imediatos da banda e a colossal “Glistening Back” encerra o álbum, fazendo ponte para o seguinte.

Refractory Obdurate (2014)

Pode especular-se se a edição através da Deathwish será o motivo para este ser o disco mais eléctrico de Wovenhand, afinal o fundador da editora é Jacob Bannon e a gravação esteve a cargo de Sanford Parker. As baterias ritualistas e as guitarras carregadas, em temas como “Masonic Youth”, “Good Shepherd”, “Field Of Hedon” ou “Hiss”, promovem uma sensação pós punk ou pós rock de Swans. Mas este álbum nunca é extremo, Edwards mantém sempre uma acessibilidade “quadrada” e melódica ao longo do disco. Um balanço… pop. Sempre cerimonial, grandioso nos momentos mais cinematográficos como “Salome”, “King David”, “Obdurate Obscura” ou “El-bow”.

Star Treament (2016)

No álbum mais recente há uma continuidade estética e sonora, inclusivamente com a repetição de Sanford Parker na produção. Em relação ao disco imediatamente anterior, há talvez mais recurso a sintetização e, no fundo, um sentido ainda mais épico nas canções. Talvez o disco que menos surpreende (traçando o percurso histórico da banda) e talvez o melhor disco da banda,  aquele em que tudo surge cristalizado.