(c) Rita Costa

Festa do Avante! 2026: Os concertos que marcaram a edição que assinalou os 50 anos do festival

“E se a vida fosse como a Festa do Avante!?” foi uma das frases que se viu pelos murais pintados da Festa do Avante!, que regressou à Quinta da Atalaia, no Seixal, nos dias 4, 5 e 6 de setembro, para uma edição particularmente simbólica, com a celebração dos seus 50 anos.

A Festa do Avante! é todos os anos marcada pelo seu alargado e diverso programa político e cultural, em que a música comporta um papel especialmente relevante, trazendo milhares de visitantes ao recinto. A edição de 2026 reuniu propostas muito diversas, do punk ao pop-rock, do hip-hop ao shamstep, da música portuguesa à música brasileira, e artistas de diferentes gerações e origens. Mais do que uma sucessão de concertos, o programa musical deu-nos um mapa de memórias, identidades e resistências.

No rock, a Festa trouxe diferentes formas de transformar a inquietação que sentimos em música. Os Baleia Baleia Baleia levaram a energia do pop-rock e do pop-punk, com a intensidade que caracteriza as suas atuações, em que o público teve direito a um momento de crowd surfing inesquecível. No universo do mais recente álbum “Outra Vez Arroz”, a música “Sobrestimulados” foi um dos momentos em que essa combinação de energia, ironia e poesia ganhou forma.

Por sua vez, a banda lisboeta Anarchicks trouxe uma atitude marcada pelo punk rock, rock alternativo e pop-punk, mantendo a ligação ao universo feminista riot grrrl. A sua música é construída a partir de uma vontade de romper com aquilo que consideram formas de conformismo e opressão. A canção “Dare to Think” resume bem essa atitude: pensar, questionar e recusar o silêncio como resposta.


Se o rock trouxe a irreverência e a contestação, o rap e o hip-hop acrescentaram à Festa linguagens e experiências denunciadoras das desigualdades sociais, fazendo da música, mais uma vez, uma forma de afirmação e reação. Aqui entra King Bigs, cujo percurso cruza geografias e experiências a partir das realidades sociais das ruas. Na Quinta da Atalaia, temas como “Respeita o Crime” e “O Meu Portugal” mostraram como o rap pode funcionar como uma narrativa pessoal e um retrato social, num tom de intervenção social e política.

A Festa do Avante! também nos trouxe o concerto de Ivandro, um dos talentos que representa uma música portuguesa atravessada por trajetórias migratórias e transnacionais. Nascido em Angola e residente em Portugal desde os três anos, o cantor e produtor tornou-se uma das figuras mais populares da música portuguesa contemporânea. Musicalmente, Ivandro construiu um percurso que atravessa o R&B, o pop e o hip-hop. Na Festa, as músicas dos álbuns “Trovador” e “Amanheceu”, com temas românticos e narradores de experiências pessoais caracterizadas por desigualdades sociais, integraram o concerto, marcado pela relação próxima com o público que a própria música e a personalidade do artista provocam.

Se há algo que caracteriza uma celebração de 50 anos, é a capacidade de olhar em simultâneo para o passado e para o futuro. E um dos momentos da programação que melhor traduziu essa relação foi o espetáculo de Tim. Voz e baixo dos Xutos & Pontapés, Tim celebrou 50 anos de carreira acompanhado por Mário Laginha, Pedro Jóia e pelo Coro Feminino TuttiEncantus. O resultado foi um concerto construído a partir da memória afetiva de várias gerações. Músicas como “Aqui ao Luar”, dos Resistência, “Postal dos Correios”, dos Rio Grande, “Por Quem Não Esqueci”, originalmente dos Sétima Legião, e “O Homem do Leme” e “Voar”, dos Xutos & Pontapés, fizeram parte de um alinhamento que recuperou memórias e emoções de um recinto completamente cheio.

Mas a diversidade da programação não se ficou pelas fronteiras portuguesas. A presença dos 47 Soul introduziu uma das propostas musicalmente mais distintas da edição. O coletivo palestino-jordano apresentou o shamstep, género que combina o dabke, dança e música popular do Médio Oriente, com hip-hop, reggae e música eletrónica. Temas musicais como “Daloona”, “Don’t Care Where You From” e “Dabke System” demonstraram como ritmos tradicionais podem ser reinventados através de linguagens musicais contemporâneas. Mas, no caso dos 47 Soul, a música nunca estará desligada da identidade. Cantando em árabe e inglês e ligados artisticamente entre a Palestina, a Jordânia e Londres, os músicos transformam a própria mistura de referências numa afirmação identitária. O shamstep torna-se, assim, mais do que uma fusão de géneros, sendo também uma forma de transportar uma história, uma cultura e uma reivindicação política para os vários lugares do mundo. A presença desta banda adquire uma dimensão especialmente significativa perante a realidade que se vive na Palestina. O concerto funcionou como um espaço de afirmação da identidade e da resistência do povo palestiniano.

 

Durante três dias, a Quinta da Atalaia foi um espaço onde a música serviu para recordar, celebrar, dançar, questionar e resistir.

Mais tarde, outro cruzamento de geografias ocupou o palco. Pedro Jóia e Ney Matogrosso protagonizaram um dos concertos mais esperados da Festa, com um encontro artístico entre Portugal e Brasil: de um lado, a guitarra de Pedro Jóia, e do outro, uma das vozes mais singulares da música brasileira. Sendo um dos temas mais aguardados e aplaudidos da noite, “Homem com H” levou o público ao rubro e mostrou a extraordinária longevidade de uma canção que continua a atravessar gerações. Ney Matogrosso trouxe consigo não apenas uma história da música brasileira, mas também uma carreira construída em torno da liberdade artística, da experimentação e da recusa em aceitar fronteiras sobre aquilo que um artista pode e deve ser. Entre os convidados de Jóia estiveram também a cantora Luanda Cozetti e Manuel João Vieira que relembrou a resistência cubana com “Hasta Siempre, Comandante”.


A diversidade de música que nos faz dançar, cantar, mas também pensar, esteve igualmente presente na atuação de Carolina Deslandes, responsável por encerrar da melhor forma a programação da Festa perante um recinto cheio. A artista tem vindo a utilizar a sua visibilidade para abordar questões sociais, nomeadamente relacionadas com a igualdade de género, a violência doméstica e as condições da maternidade no setor cultural. O projeto “Mulher”, lançado em 2020, já tinha colocado essas questões no centro do seu trabalho. Mais recentemente, “Chorar no Club” aprofundou essa dimensão através de temas como “Tento na Língua” e “Sexo Fraco”, este último produzido integralmente por mulheres e construído como uma afirmação da dignidade e liberdade femininas.

No Seixal, para além desses temas, ouviu-se desde o tema clássico “Vida Toda”, que celebra o amor, até canções mais recentes que misturam género, desigualdades e resistência, como “Saia da Carolina” e “Feia”. Carolina contou ainda com a participação especial de Carlão.

Portanto, “E se a vida fosse como a Festa do Avante!?”. Durante três dias, a Quinta da Atalaia foi um espaço onde a música serviu para recordar, celebrar, dançar, questionar e resistir. A celebração dos 50 anos da Festa do Avante! fez-se através da capacidade de continuar a juntar linguagens diferentes no mesmo espaço, com um sentimento de que a amizade, o amor e a luta estão presentes, principalmente no momento de incertezas e ódio que vivemos. E talvez seja essa a verdadeira força de um concerto. Por um momento, milhares de pessoas diferentes cantam a mesma coisa. E, por um momento, parece mesmo possível imaginar que a vida pode ser como a Festa do Avante!