Folk ou folclore: o lugar da música de raiz portuguesa
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Folk ou folclore: o lugar da música de raiz portuguesa

22/08/2026

A propósito do Dia Mundial do Folclore, que se assinala a 22 de agosto, faz sentido olhar para o modo contraditório como continuamos a relacionar-nos, em Portugal, com a palavra «folclore» e com a música que lhe associamos.

Falamos com orgulho das tradições portuguesas, reconhecemos a importância de preservar este património e recorremos frequentemente à cultura popular como elemento da nossa identidade. Contudo, «folclórico» é também utilizado para classificar alguma coisa como excessiva, superficial ou pouco séria. O próprio dicionário regista, entre os sentidos pejorativos da palavra, as expressões «colorido, berrante» e «sem grande conteúdo».

Esta evolução é particularmente curiosa quando recordamos a origem do termo. Folk-lore foi utilizado pela primeira vez em 1846 pelo britânico William John Thoms, que juntou as palavras inglesas folk, povo, e lore, conhecimento ou saber. O conceito destinava-se a descrever o conjunto de tradições, costumes, histórias e práticas transmitidos por uma comunidade. Quase 180 anos depois, a palavra que designava o saber de um povo também serve para lhe retirar importância.

A forma como usamos as palavras não explica, por si só, o lugar ocupado pela música de raiz tradicional portuguesa. Mas ajuda a perceber por que razão esta continua tantas vezes afastada da conversa sobre a criação musical contemporânea. O folclore é geralmente respeitado enquanto património e memória, mas tem mais dificuldade em ser reconhecido como parte ativa do presente.

O folclore é geralmente respeitado enquanto património e memória, mas tem mais dificuldade em ser reconhecido como parte ativa do presente.

No contexto internacional, as designações folk e roots music têm uma utilização bastante diferente. Correspondem a um campo musical reconhecido, com festivais, editoras, meios especializados, prémios, agentes, tabelas de vendas e encontros profissionais. São também conceitos suficientemente abrangentes para incluir reportórios tradicionais, música de autor, instrumentos regionais, cruzamentos com eletrónica e projetos experimentais.

Isto não significa que os artistas ligados à folk e à roots music não enfrentem problemas de financiamento, programação ou visibilidade noutros países. Significa que existe uma estrutura profissional capaz de reconhecer este universo como parte da indústria musical contemporânea, sem exigir que deixe para trás as suas referências culturais.

Portugal tem beneficiado desse interesse internacional. Em 2025, foi escolhido como país em destaque na conferência da Folk Alliance International, em Montreal. A organização justificou a escolha com a riqueza e diversidade da música portuguesa, sublinhando que esta se estende muito para além do fado e inclui tradições regionais únicas. Dez projetos portugueses participaram entre showcases oficiais e atuações paralelas, apresentando diferentes formas de trabalhar reportórios, instrumentos e referências tradicionais.

Aquilo que em Portugal continua frequentemente remetido para um espaço periférico encontra, no exterior, circuitos que o reconhecem como uma proposta artística contemporânea. Esta diferença de perceção não resulta apenas da utilização de uma palavra inglesa. Resulta da existência de estruturas de programação, comunicação, crítica e internacionalização que conhecem o género e sabem trabalhar com os seus artistas.

Ao mesmo tempo, a própria cena portuguesa tem vindo a mudar. Um número crescente de músicos trabalha a tradição com liberdade, integrando instrumentos, ritmos, formas de cantar e reportórios de diferentes regiões em novas composições.

As Sopa de Pedra têm realizado um trabalho centrado na voz, na oralidade e no reportório tradicional. RAIA e O Gajo contribuíram para devolver protagonismo à viola campaniça, enquanto João Diogo Leitão tem explorado novas possibilidades de composição a partir da viola braguesa. Ana Lua Caiano cruza formas de canto coletivo e tradições orais portuguesas com sintetizadores, ritmos eletrónicos, loops e sons do quotidiano.

Estes artistas seguem percursos muito diferentes, mas ajudam a contrariar a ideia de que a música de raiz pertence a um espaço cultural fechado. As referências tradicionais surgem como matéria de criação e convivem com linguagens musicais atuais, aproximando-se de públicos que provavelmente não chegariam a estes reportórios através dos seus contextos habituais.

Contudo, seria redutor valorizar a música tradicional apenas quando é recriada ou cruzada com outras estéticas. A continuidade deste património depende também de intérpretes, grupos locais, investigadores, colecionadores, construtores de instrumentos e comunidades que preservam e transmitem reportórios nas suas formas mais próximas da origem. A criação contemporânea só é possível porque esse conhecimento chegou até ao presente.

Celebrar o Dia Mundial do Folclore também deve servir para olhar para esse movimento. A música de raiz tradicional portuguesa tem artistas, obras, instrumentos e públicos. Tem capacidade para se renovar e para circular internacionalmente, ao mesmo tempo que preserva práticas profundamente ligadas às comunidades e aos territórios onde tiveram origem.

É precisamente esta diversidade que os PLAY Tradicional – Prémios da Música Portuguesa de Raiz Tradicional procuram reconhecer. A existência de categorias dedicadas a artistas e grupos, álbuns de música tradicional, trabalhos instrumentais e projetos de recriação permite representar diferentes formas de trabalhar este património, sem as submeter aos mesmos critérios de géneros com maior presença mediática ou comercial.

A introdução do Prémio Guardião da Tradição, na segunda edição, veio alargar esse reconhecimento às personalidades que têm dedicado uma parte substancial da sua vida à preservação, investigação e transmissão da música tradicional portuguesa. Esta categoria é particularmente importante porque deixa claro que a vitalidade deste campo depende tanto da criação de novas obras como da continuidade do conhecimento que as torna possíveis.

Mais do que distinguir vencedores, os PLAY Tradicional contribuem para dar um enquadramento profissional a uma área que tem vivido entre o reconhecimento cultural e uma presença reduzida na indústria musical. Criam critérios, referências e um espaço de comunicação próprio. Permitem também que artistas com propostas muito diferentes sejam apresentados como parte de um mesmo campo, suficientemente amplo para incluir preservação, interpretação, composição, investigação e experimentação.

A segunda edição dos PLAY Tradicional tornou visível essa amplitude através dos seus cinco vencedores. Os Retimbrar, distinguidos como Melhor Artista ou Grupo, cruzam ritmos, poesia popular e tradição oral portuguesa num projeto coletivo ligado à criação musical contemporânea. Cristina Branco venceu o prémio de Melhor Álbum de Música Tradicional com Mulheres de Abril, trabalho que revisita oito composições de José Afonso a partir das mulheres presentes nas suas canções.

Amadeu Magalhães recebeu o prémio de Melhor Álbum Instrumental por Terraviva, um trabalho de composição construído a partir de instrumentos tradicionais portugueses e da experiência do músico enquanto multi-instrumentista. OMIRI venceu o prémio de Melhor Recriação da Música Tradicional com Modas novas e algumas velhas, projeto que articula recolhas de vozes, instrumentos e histórias com composição e eletrónica. Octávio Augusto Fonseca da Silva recebeu o primeiro Prémio Guardião da Tradição pelo seu percurso de investigação e divulgação da música portuguesa, no qual se inclui a obra Carlos Paredes – A Guitarra de um Povo.

Colocados lado a lado, estes vencedores mostram a amplitude da música de raiz portuguesa: um campo onde cabem a criação coletiva, a interpretação de reportório, a composição instrumental, a recriação tecnológica, a investigação e a transmissão. Talvez seja esta pluralidade que o uso corrente da palavra «folclore» deixou de conseguir representar.

Não temos ilusões: um prémio não resolve, por si só, a falta de programação, a reduzida atenção dos meios de comunicação ou as dificuldades de circulação destes artistas. O reconhecimento precisa de ter continuidade e de se traduzir em mais concertos, mais edições, maior presença nos media e novas oportunidades de internacionalização.

Celebrar o Dia Mundial do Folclore também deve servir para olhar para esse movimento. A música de raiz tradicional portuguesa tem artistas, obras, instrumentos e públicos. Tem capacidade para se renovar e para circular internacionalmente, ao mesmo tempo que preserva práticas profundamente ligadas às comunidades e aos territórios onde tiveram origem.

Se esta música encontra reconhecimento quando chega ao exterior sob as designações folk ou roots music, faz pouco sentido que continue a ser olhada em Portugal como uma expressão menor. Os artistas já demonstraram a vitalidade e a diversidade deste campo. Cabe agora às instituições, aos programadores, aos meios de comunicação e à indústria musical dar-lhe o espaço correspondente.

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