Mac DeMarco trouxe a Lisboa a nova fase de “Guitar”, mas foram os clássicos que fizeram a Sala 3 do LAV cantar num coro afinado.
Mac DeMarco nunca precisou de ser o melhor guitarrista da sala, nem de provar que é um cantor virtuoso. Com “2” e “Salad Days”, fez algo bastante mais difícil: criou uma linguagem própria, reconhecível, e transformou um cânone lo-fi de rock numa espécie de território pessoal.
Depois de conquistar esse lugar, DeMarco afastou-se progressivamente do centro das atenções. Entre álbuns, colecções de demos, trabalhos instrumentais e outras derivações, foi construindo uma carreira cada vez mais à sua maneira. Quando já levava quase seis anos sem lançar um álbum de estúdio propriamente dito, pegou no seu instrumento favorito e gravou “Guitar” em apenas treze dias.
Foi esse novo disco que trouxe DeMarco de volta a Lisboa, para duas datas esgotadas no LAV, a 20 e 21 de setembro. A Arte Sonora esteve presente na segunda data.
No alinhamento “Guitar” esteve naturalmente presente no alinhamento (e no boné usado), com “Sweeter”, “Phantom”, “Rock and Roll”, “Home”, “Rooster” e “Holy” a cruzarem-se com uma mão cheia de canções que já ganharam vida própria.
E foi sobretudo nessas canções que a sala se transformou num coro. “For the First Time”, “Salad Days”, “Passing Out Pieces”, “Freaking Out the Neighbourhood”, “Chamber of Reflection” e “My Kind of Woman” foram cantadas em uníssono por um público surpreendentemente jovem nas primeiras filas. Uma nova geração que talvez tenha descoberto DeMarco muito depois de “2” e “Salad Days”, mas que conhece aquelas canções como se sempre lhe tivessem pertencido.
Em palco, DeMarco continua a alimentar a personagem sem deixar que ela engula a música. Entre guitarras, movimentos improváveis e fluidos e aquela energia de quem parece estar sempre a dois segundos de fazer alguma coisa completamente absurda, há também um controlo maior.
Havia ainda um detalhe que nos ficou debaixo de olho: um cravo vermelho, colocado em palco. Numa breve passagem pelas fotografias de outras digressões, não encontrámos o mesmo elemento, por isso custa acreditar que tenha sido escolhido ao acaso.

Mac DeMarco pode ter controlado um pouco a loucura, mas não perdeu o espírito traquinas que o acompanha desde o início. Quando damos por nós, está a rasgar uma camisola da Selecção de Cristiano Ronaldo. A música continua no centro, o caos continua por perto e, sobretudo, continua a ser divertido. A voz está lá, a banda acompanha-o e todos parecem deixar claro que aquilo que os faz felizes é estar em cima de um palco.
Duas noites esgotadas depois, fica a sensação de que o LAV começa a ser pequeno para esta fase de DeMarco. Nas primeiras filas, a resposta estava lá. E se esta geração já canta estas canções em uníssono, talvez a próxima visita peça um palco maior. Coliseus? Sagres Campo Pequeno? Fica a provocação.