Depois de Portugal ter ficado de fora do último pontificado, os Ghost regressaram agora a Lisboa para consumar o ritual de aclamação de Papa V Perpetua. Na bagagem trouxeram a novidade “Skeletá” e um espetáculo que os consagra, definitivamente, como uma das melhores bandas de arena rock.
Numa altura em que o Vaticano se prepara para o Conclave que irá determinar o sucessor do Papa Francisco, no The Clergy, dos Ghost, há muito que a decisão de eleger Papa V Perpetua como sucessor de Papa Emeritus IV está tomada. Com os fiéis habituados a seguir a dinastia Emeritus, esta apresenta-se como a segunda quebra na sucessão – relembrem-se que em 2018 foi um Cardeal, mais concretamente o Cardeal Copia, que liderou os Ghost na era de “Prequelle”. Porém, a quebra na sucessão não implicou uma quebra familiar, isto porque segundo a mitologia dos Ghost, V apresenta relações de consanguinidade com os outros Papas.
O período de sucessão durou cerca de um ano e meio e foi já com V como líder dos Ghost que a banda entrou em estúdio para gravar “Skeletá”, o novo longa duração que é descrito como “um dos registos mais introspetivos” da banda. Seguindo a receita de “Impera”, “Skeletá” reúne uma coletânea de malhas AOR e hard rock que articulam a herança sonora dos 80s com a produção contemporânea. De Def Leppard a Alice Cooper, passando pelos Scorpions, são várias as referências ao passado que conseguimos identificar. Já a produção, ficou a cargo de um tal de Gene Walker. Uma breve pesquisa mostra-nos que este não passa de mais um alter ego de Tobias Forge, líder e estratega dos Ghost. Este é o terceiro trabalho da banda que Forge produz, contando com o álbum de estreia “Opus Eponymous” e o EP “Seven Inches of Satanic Panic”, demonstrando assim que Tobias sente-se cada vez mais confortável em supervisionar não só todo o processo de composição, mas também de produção do álbum.
Chegados a Portugal, já com um par de semanas de estrada, a previsão apontava para um concerto com uma banda já oleada e um espetáculo dinâmico e sem percalços. Porém, o que não estávamos à espera era ter que andar a “rezar a todos os santinhos“, um dia antes do concerto, para que o apagão sentido não estragasse a festa aos fãs portugueses dos Ghost. Já bem bastou o cancelamento da data em Madrid devido a questões de logística relacionadas com a dimensão da produção. Mas, tudo não passou de um susto e assim que a Everything Is New confirmou que o espetáculo se mantinha de pé todos suspirámos de alívio.
Se a ausência prolongada de seis anos do nosso país e um álbum novo já não fossem suficientes para criar expectativa, os Ghost ainda desafiaram as leis convencionais de um típico concerto do séc. XXI ao proibirem a utilização de telemóveis na sua Skeletour, uma estratégia já adotada por artistas como Bob Dylan, e que tem como objetivo prender a atenção das pessoas na sua totalidade para que estas estejam a experienciar cada momento sem qualquer tipo de distrações.
Temos a dizer que a espera, já dentro da MEO Arena, de sensivelmente 1h15m (para quem chegou cedo) foi algo penosa, mas, assim que soaram as primeiras notas do canto litúrgico “Miserere mei, Deus” de Gregorio Allegri, tudo se dissipou dando lugar à excitação. Ainda com um pano com vários rasgões a cobrir o palco soaram os primeiros acordes e versos da novidade “Peacefield”. Assim que Tobias finalizou o primeiro refrão, eis que o pano caiu com a primeira explosão sonora da noite, revelando assim o frontman, os sete Nameless Ghouls e um cenário que só foi ganhando atributos com o desenrolar da setlist. “Lachryma”, “Spirit” e “From the Pinnacle to the Pit” soaram ainda algo embrulhadas e espessas entre as nuvens de fumo que tingiam o palco num tom monocromático.
Aliás, foi já com “Call Me Little Sunshine” que o espetáculo começou a ganhar os contornos que definem o modelo de atuação dos Ghost. Na primeira aparição de Papa V Perpetua em todo o seu esplendor, isto é com a sua estola e mitra vestidos, o som já se encontrava equalizado e o jogo de luzes brilhou com um primeiro vislumbre da imponência visual da estrutura central de luzes com o formato de um Grucifix gigante, o logo dos Ghost, algo claramente inspirado no tridente de luzes que os Judas Priest apresentam em palco.
Mas, falar de Ghost é também falar dos Nameless Ghouls, esses mascarados anónimos que acompanham Tobias em palco e que executam de forma exímia todas as composições de Forge.
«É um milagre termos acabado aqui esta noite.», expressou Tobias na sua primeira intervenção para com o público e já com as suas vestes “casuais” novamente vestidas. Como referimos acima, o concerto esteve por um fio e Tobias sabendo disso aconchegou os fãs num momento de já alguma descontração para com o sucedido. Ciente de que já não visitavam Portugal há vários anos utilizou “The Future Is a Foreign Land” para expressar todo o seu alento para com os fãs nacionais.
Mas, falar de Ghost é também falar dos Nameless Ghouls, esses mascarados anónimos que acompanham Tobias em palco e que executam de forma exímia todas as composições de Forge. Ao todo, nesta tour, são sete, três masculinos, nas guitarras e bateria, e quatro femininos (Ghoulettes), no baixo, keyboards, percussão e backing vocals, uma representação interessante da paridade de género que Tobias defende e procura apresentar na sua banda. Em termos de equipamento, estranhamente, foi tudo muito minimalista. Num concerto desta envergadura esperamos sempre ver inúmeras trocas de guitarras, mas não foi isso que aconteceu. Tanto “Dewdrop”, o guitarrista solo, como “Phantom”, o guitarrista ritmo, e “Rain”, a baixista, mantiveram, praticamente, o mesmo equipamento ao longo do concerto: uma Fender American Performer Stratocaster com Floyd Rose e dois Seymour Duncan Hot Rails na posição do braço e da ponte, uma Fender Jazzmaster (à distância pareceu-nos uma Made in Japan Limited Hybrid II) e um Fender Jazz Bass respetivamente. Apenas “Phantom” puxou de uma guitarra acústica para tocar “The Future Is a Foreign Land”, mas foi mesmo apenas essa troca que registámos.
Já “Darkness at the Heart of My Love” teve as honras da power ballad da noite. Romântica, melancólica ou catártica, venha o diabo e escolha, o tema foi entoado em coro por todos, ficando apenas a faltar as tradicionais luzinhas dos telemóveis para iluminar um momento mágico.
Em “Devil Church” e o clássico “Cirice” já foi possivel apreciar os característicos vitrais projetados na tela de fundo com o intuito de dar uma aura ainda mais dantesca à performance. Já “Darkness at the Heart of My Love” teve as honras da power ballad da noite. Romântica, melancólica ou catártica, venha o diabo e escolha, o tema foi entoado em coro por todos, ficando apenas a faltar as tradicionais luzinhas dos telemóveis para iluminar um momento mágico. É caso para dizer que só os fumadores que ainda andam de isqueiro no bolso é que se safaram neste momento.
Em mais uma passagem pelo novo álbum “Skeletá” ouviu-se “Satanized”, o primeiro single, que já roda na ponta da língua de todos os fãs. Seguiu-se a canção que dá nome aos concertos dos Ghost, “Ritual”, e que é sempre uma das favoritas em todos os espetáculos da banda, particularmente para aqueles que experienciam o seu primeiro ritual. Já “Umbra” apresentou-se como uma boa surpresa. Na sua versão de estúdio não parece ter pergaminhos para figurar numa setlist recheada de clássicos, mas após a sua apresentação mudámos de ideias e podemos confirmar que ao vivo soa de forma monstruosa, com destaque para o icónico cowbell que Forge foi entregar a uma Ghoulette para que esta o pudesse tocar.
A segunda aparição de Papa V Perpetua em todo o seu esplendor foi um dos destaques do concerto. Surgido de um elevador debaixo do palco para interpretar “Year Zero”, talvez a malha mais negra/blasfema dos Ghost, o momento foi pautado pelo maior aparato pirotécnico de toda a atuação com várias labaredas a surgirem no palco e a levar-nos por momentos até ao Pandemonium. Já de volta ao plano terreno e com o Papa sem a mitra na cabeça surgiu “He Is”, esse hino dedicado à entidade suprema que inspira todo o catálogo dos Ghost.
Numa curta pausa para mais uma troca de roupa, eis que Tobias surge no seu outfit mais festivo com um blazer cinzento repleto de lantejoulas. De seguida foram tocadas de rajada “Rats”, “Kiss the Go-Goat” e “Mummy Dust”. Já no discurso de despedida e numa compaixão irónica para com o cansaço dos fãs, Tobias discursou uma última vez, fazendo referência às várias passagens dos Ghost por Portugal ao falar dos concertos no Paradise Garage em 2015 e na Sala Tejo em 2017 e 2019. Após os agradecimentos soltou “Monstrance Clock”, esse deep cut de “Infestissumam” (2013).
O “monstro” que Tobias Forge criou não pára de crescer, e este concerto foi mais uma prova de que o músico só vai descansar quando levar os Ghost até ao patamar das bandas de estádio.
Chegados ao encore foi altura de iniciar o sprint dos maiores clássicos. Primeiro com “Mary On A Cross”, esse êxito que tornou-se viral graças ao TikTok e que apresentou os Ghost a toda uma nova geração de fãs, depois com a eurovisiva “Dance Macabre” e por fim, e já com Tobias a ostentar um blazer roxo, “Square Hammer”, essa malha intemporal que paradoxalmente Forge escreveu com o intuito de criar uma música explosiva para abrir os concertos e que agora tem lugar cativo na última posição da setlist.
Nas reflexões finais constatámos que o “monstro” que Tobias Forge criou não pára de crescer, e este concerto foi mais uma prova de que o músico só vai descansar quando levar os Ghost até ao patamar das bandas de estádio. Apesar da ambição, Tobias nunca demonstrou falta de humildade e de consideração para com o seu público. Entre vénias e agradecimentos do fundo do coração, Forge sabe que deve todo o seu sucesso aos seus devotos e a sua graciosidade a sair de palco demonstrou todo esse apreço. Afinal de contas estamos perante uma estrela de rock singular dos tempos modernos.


































