Os Glockenwise regressam com “Vale tudo para chegar a algum lado”, sexto álbum da banda de Barcelos, editado pela Vida Vã. Partindo da coincidência entre os seus nascimentos e a Guerra do Caulino, o disco olha para um presente marcado por futuros adiados, expectativas hipotecadas e a suspeita de que, apesar de corrermos tanto, podemos nunca chegar a lado nenhum.
Em “Vale tudo para chegar a algum lado”, sexto álbum dos Glockenwise, a banda recupera a Guerra do Caulino para falar de uma geração que corre, produz, planeia e espera, mas começa a desconfiar que movimento e progresso nunca foram propriamente sinónimos.
Os membros dos Glockenwise nasceram praticamente ao mesmo tempo que a Guerra do Caulino. Façamos entrar o genérico do programa do Prof. José Hermano Saraiva, “A Alma e a Gente”, e recuemos à década de 80. Entre 1986 e 1989, a população de Barqueiros, em Barcelos, enfrentou a exploração de caulino na freguesia, num conflito que envolveu protestos, confrontos com a GNR e a morte de Carlos Simões.
Quase quarenta anos depois, quatro barcelenses recuperam essa história. O objetivo não foi gravar um improvável álbum conceptual sobre mineração de argila, mas porque nela encontraram uma forma eficaz de abordar o presente que, apesar de toda a conversa sobre progresso, continua a ter a irritante tendência de repetir o passado.
Antes de dissecar este álbum que nos chegou aos ouvidos no dia 23 de setembro de 2026, é importante deixar um aviso: o que irão ler a seguir parte da interpretação poética do autor do texto. Cada indivíduo singular terá uma sensação única, aliada às suas vivências. Por isso, se esta leitura vos parecer demasiado pessimista, talvez seja porque o disco também não parece particularmente interessado em vender-nos o futuro como uma coisa bonita.
“Vale tudo para chegar a algum lado” abre com uma geração pouco confortável com aquilo em que se tornou. «A culpa é dos povos / a culpa é dos novos», atira-se, num pequeno coro de Velhos do Restelo onde o mundo parece ter piorado, os outros são sempre parcialmente responsáveis e a consciência precisa de ser lavada ou até mesmo afogada. Só que a canção vai minando essa nostalgia por dentro: «nada novo acontece / é só o corpo que envelhece». Talvez o problema não seja apenas aquilo que mudou à volta, mas quem ficou parado a vê-lo mudar. Até a luta parece poder ser fabricada à posteriori: um soco chegaria para fingir que se esteve nela.
É nesse cenário que «Vale tudo para chegar a algum lado» perde qualquer sentido heroico. Há uma geração a justificar o caminho percorrido enquanto suspeita que chegou a lado nenhum. A pergunta «Será que algum dia vamos estar à vontade com tudo o que fizemos?» transforma-se num ajuste de contas com o passado. Depois vêm pessoas, manhãs, caminhos, amores e perdões: quase um recenseamento de uma vida, só que desta vez o INE teve uma crise existencial.
Fernando Pessoa entra sem ter sido formalmente convidado, embora os Glockenwise já desconfiassem da modernidade muito antes deste álbum: em “Moderno”, do álbum “Plástico”, levavam a modernidade ao extremo, com alguém tão moderno que deixava de dançar, comer, sofrer e até respirar.
Em “Ode Triunfal”, Álvaro de Campos deixa-se esmagar e entusiasmar pela modernidade industrial, pela velocidade, pelas máquinas e por um mundo que parece ter descoberto a possibilidade de andar cada vez mais depressa. Um século depois, os Glockenwise parecem olhar para essa promessa e perguntar: então, já chegámos?
Após o Anti-Dantas, poderá ter surgido acidentalmente o Anti-Campos. Não porque Nuno Rodrigues tenha decidido arranjar um conflito armado com versos até aos dentes com um heterónimo de Pessoa, mas porque o álbum pode ser interpretado como uma espécie de ressaca da vertigem modernista. Enquanto Campos encontrava uma paixão ardente no movimento, os Glockenwise encontram movimento sem garantia de deslocação. Enquanto a velocidade apregoava um novo futuro, aqui passamos o dia a correr numa vida que se perde.
“Guerra do Caulino” molda a ideia através de um movimento circular. A maré vai e volta, mudam as caras, mas a festa permanece, e até Lavoisier é levemente corrigido: nada se perde, nada se ganha e, aparentemente, também nada se transforma. «Alguém deixou a nossa porta aberta / e não entrou uma pessoa honesta» sugere uma comunidade que continua vulnerável ao mesmo tipo de intrusão. O tempo, descrito como «um felino / perfeito e assassino», é talvez a imagem mais precisa da canção: bonito, silencioso e letal porque nos deixa continuar a «sonhar, sonhar» sem nunca resolver nada.
O álbum regressa ao conflito em “Colina Alta”, um interlúdio de guitarra com gravações de arquivo.
“Lua” vende-nos possibilidades e uma «casa perfeita» sem ninguém para a habitar, uma imagem eficaz para uma época obcecada em construir o cenário ideal, sem sequer perceber se há vida para lá pôr. A lua funciona aqui como bode expiatório. «Sei que a culpa é tua» repete-se como refrão, mas é óbvio que a culpa não pertence ao astro. É mais fácil culpar algo distante e indiferente do que assumir a responsabilidade.
“Janela” retrata o «regular Joe» ou, em português, o «João normal»: racional, moderado, funcional, com sentido de pertença e tudo dentro da norma. O problema é que já nem se admira com o nascer do sol. É um ser quase inerte numa sociedade sem rumo.
“Azar” é a canção do autoengano. Entre otimismo, fantasia e a teimosia de ver «claridade nas sombras», há uma personagem que prefere acreditar que tudo se explicará. Caso contrário, «deve ser azar». A verdadeira fratura chega quando deixa de ser possível esperar que alguém faça o resto e é preciso «decidir por mim».
Depois surge “Vai dar”, talvez a expressão mais rudimentar de esperança existente no léxico. Aqui, porém, já não há grande ilusão a preservar: a realidade atropelou-nos. Trouxe consigo futuros hipotecados, fracasso e culpa. O que resta é um eufemismo que nada resolve nem promete um final feliz. É apenas mais uma tentativa inglória de enganar o cérebro.
Em “Tudo o que eu posso”, a escala reduz-se ao que ainda está ao alcance de uma pessoa: gostar de alguém, cuidar do que é nosso e do outro, sabendo também que podemos magoar. «Vidas como as nossas foram versos, foram rosas», canta-se, numa formulação que dificilmente não faz ecoar “Foram Cardos, Foram Prosas”, de Manuela Moura Guedes. Se a aproximação é deliberada? Não sabemos. Contudo, a inversão é curiosa. Onde a canção de 1981 troca poemas e rosas por cardos e prosas, os Glockenwise parecem olhar para trás e encontrar precisamente nos versos e nas rosas a memória de uma vida que já teve outras ambições.
No entanto, ainda falta “Intenção” e a banda tem o cuidado de estragar qualquer possibilidade de um final edificante. «Queremos mudar de direção, pensamos no futuro, organizamos a nossa vida…» e prometemos que um dia as coisas serão diferentes, mas nunca é propriamente agora. Não há garantias de que o movimento signifique progresso.
A “Ode Triunfal” apanhou a modernidade a acelerar. Os Glockenwise aparecem 112 anos depois, observam o resultado de décadas do tal «progresso» e questionam se, após tudo o que fizemos, finalmente nos sentimos à vontade.
Talvez o “Anti-Campos” seja isso: não uma negação da máquina, da velocidade ou do futuro, mas a suspeita de que passamos demasiado tempo a confundir «andar para a frente» com «avançar». Enquanto esperamos que chamem o nosso nome, talvez convenha confirmar se esta sala de espera tem sequer uma porta de saída.
PIM!
“Vale tudo para chegar a algum lado”, editado pela Vida Vã, está disponível em plataformas digitais e numa edição física que inclui vinil. A apresentação ao vivo está agendada para 10 de outubro no Theatro Circo, em Braga, e para 16 de dezembro na Culturgest, em Lisboa.Bilhetes já se encontram à venda na BOL.pt e Ticketline, respectivamente.
Para esta primeira fase de apresentações ao vivo, o coletivo ruma ainda à Galiza, a 30 de outubro, atua na Fábrica do Chocolate em Vigo, e a 31, no Riquela Club em Santiago de Compostela.