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(c) Guns N' Roses

Guns N’ Roses: Todos envelhecemos, até os deuses do rock… Deixem o Axl envelhecer em paz!

07/06/2025

Os Guns N’ Roses são uma das maiores bandas de sempre. Regressaram a Portugal, com um concerto no Estádio Cidade de Coimbra. Mas este artigo não é sobre esse espetáculo. É sobre bullying, o ódio gratuito e as frustrações projetadas naqueles que, de alguma forma, fazem parte da nossa memória coletiva. Axl Rose já não canta como antes, e isso devia ser só ok.

[Nota de redacção: tendo em conta os comentários nas redes sociais, este artigo não é uma resposta a nenhum artigo escrito por jornalistas de outros meios de comunicação, é apenas e exclusivamente uma crítica à sociedade onde vivemos]

Os Guns N’ Roses continuam a ser, até hoje, uma das bandas de rock americanas mais dinâmicas e influentes da história. Com raízes fundas na cultura popular, o icónico “Appetite For Destruction” (1987) continua a ser o álbum de estreia mais vendido de sempre nos Estados Unidos e o 11.º mais vendido de todos os tempos no país. A digressão “Not In This Lifetime…” (2016-2019) foi a quarta mais lucrativa da história da música ao vivo. Em 1991, a banda fez história ao lançar “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II” no mesmo dia, ambos certificados 7x platina e a ocupar, em simultâneo, os dois primeiros lugares da Billboard 200. E poderíamos continuar, à boa maneira da Wikipedia, a listar as proezas desta banda que já não tem absolutamente nada a provar, muito menos nomes como Axl Rose, Slash ou Duff McKagan.

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Curiosamente, foi no dia 6 de Junho, mas de 1985, que os Guns N’ Roses deram o seu primeiro concerto, no mítico Troubadour, na Califórnia. O alinhamento incluía temas como “Anything Goes”, “Think About You”, “Move to the City” e “Don’t Cry”, além de versões de Rose Tattoo e Rolling Stones. Quarenta anos depois, no dia 6 de Junho, mas de 2025, os Deuses do Rock voltaram a subir a um palco, desta vez de um Estádio, praticamente esgotado, e em Portugal. Quantas bandas e quantos músicos conseguiram ou vão conseguir esta proeza?! Ainda assim, há quem insista em reduzir tudo isto a uma nota desafinada e a uma voz envelhecida e esganiçada…

SIM, todos sabemos que Axl Rose já não tem aquela cara laroca de outrora. A voz inconfundível, poderosa e selvagem, cedeu inevitavelmente ao tempo, aos excessos e às marcas de uma vida vivida no limite. Hoje, está longe do que já foi, e isso devia ser suficiente. Estar em digressão durante anos não é fácil, ainda menos quando se carrega nas costas o peso de uma era em que o rock and roll andava de mãos dadas com o álcool, as drogas e o descontrolo. Muitos não aguentaram. Muitos já cá não estão para subir a um palco. Alguns, infelizmente, foram empurrados até ao limite, até ao último recurso: o suicídio. Todos os anos choramos a morte de músicos como Kurt Cobain… se fosse vivo, provavelmente iria sofrer do mesmo mal que Axl. Recentemente, Shirley Manson, vocalista dos Garbage, viu-se obrigada a responder publicamente ao Daily Mail após o jornal britânico publicar um artigo a dizer que está «irreconhecível» nas novas fotos promocionais. A cantora não hesitou: «Tenho quase 60 anos. Claro que não estou igual a quando tinha 20 e poucos. Sinceramente, seria um pouco sinistro se estivesse.». A resposta certeira expõe, mais uma vez, o absurdo da crítica física.

Muitos não aguentaram. Muitos já cá não estão para subir a um palco. Alguns, infelizmente, foram empurrados até ao limite, até ao último recurso: o suicídio.

Mesmo assim, os críticos de sofá, armados de teclados e avatars, saem em peso. Em vez de memória ou gratidão, debitam desprezo, julgamentos, ódio gratuito, como se fosse aceitável humilhar um artista que deu tanto de si ao mundo e ao Rock. Dizer que Axl envelheceu, que a voz já não é a mesma, é um facto. É uma opinião válida. E qualquer um tem o direito de a dar. Mas há uma linha, e ultrapassá-la para cuspir veneno gratuito é mais do que desnecessário. É ridículo. E é, sobretudo, um espelho dos tempos que vivemos.

Vivemos atrás de ecrãs onde o bullying se banalizou, onde a crítica deixou de ser construtiva para se tornar destrutiva. Como se todos fôssemos perfeitos. Como se alguém aqui tivesse a mesma voz, a mesma cara ou o mesmo fogo de há 40 anos.

Vivemos atrás de ecrãs onde o bullying se banalizou, onde a crítica deixou de ser construtiva para se tornar destruitiva. Como se todos fôssemos perfeitos. Como se alguém aqui tivesse a mesma voz, a mesma cara ou o mesmo fogo de há 40 anos.

Quem continua a ir a concertos dos Guns N’ Roses, quem ainda faz o esforço de pagar um bilhete, que, convenhamos, não é barato, sabe ao que vai. Não vai ao engano. Por isso, afirmar que um concerto dos Guns é mau, apenas e só porque o Axl Rose já não tem a mesma voz de há 30 ou 40 anos faz pouco sentido. É incoerente. Por um lado passamos a vida a criticar artistas que fazem playback, que se escondem atrás de máquinas e truques de estúdio, mas depois atacamos aqueles que, mesmo com limitações físicas, continuam a subir ao palco de cabeça erguida e dar o máximo, noite a após noite.

Há quem defenda que os Guns já deviam ter “arrumado as botas”. Tudo bem. E mais uma vez, quem tem essa opinião, tem o direito de não comprar bilhete, de não ir ao concerto. Querem guardar na memória o Axl vigoroso, atlético e incandescente dos anos 90? É legítimo. Mas daí a apontar o dedo e dizer que uma banda devia reformar-se porque já não é “como antes”, vai uma longa distância.

Além disso, os Guns N’ Roses nunca foram só o Axl. E se continuam a encher estádios, a mover multidões, a deixar fãs em êxtase em cada cidade por onde passam… então quem somos nós para decidir quando um artista deve parar? O público e os fãs falam mais alto que os haters da internet.

No fundo, isto não é só sobre música, é um reflexo da sociedade. É sobre uma sociedade onde os mais velhos são descartados, ignorados, empurrados para a margem. Onde alguém com 50/60 anos pode ser despedido só por já não ser jovem. Como se envelhecer fosse um defeito, e não um privilégio. Esquecemo-nos de que todos, com sorte, lá chegaremos. E quando lá chegarmos, talvez também queiramos continuar a fazer o que amamos. Mesmo que já não o façamos como dantes.

Vivemos tempos em que a crítica fácil, muitas vezes cruel, se tornou um desporto de bancada. Atrás de ecrãs, com perfis anónimos ou nomes próprios, há quem reduza décadas de carreira a um vídeo mal filmado ou a umas notas falhadas. A crítica física e vocal tornou-se uma arma. Quantos músicos não conseguiram lidar com o peso da fama, com a solidão da estrada, com o julgamento constante e impiedoso? Quantos não sucumbiram ao cansaço, à depressão, aos vícios? Quantos acabaram por pôr fim à vida porque o mundo exigia deles uma perfeição impossível de manter?

Quantos músicos não conseguiram lidar com o peso da fama, com a solidão da estrada, com o julgamento constante e impiedoso? Quantos não sucumbiram ao cansaço, à depressão, aos vícios? Quantos acabaram por pôr fim à vida porque o mundo exigia deles uma perfeição impossível de manter?

É por isso que é tão valioso ainda termos estes gigantes, estes deuses do rock, vivos e dispostos a subir ao palco. Mesmo que não tenham mais a mesma voz. Mesmo que o corpo já não aguente como dantes. O que vemos ali é resistência. É paixão. É história viva a acontecer à nossa frente. E isso devia ser celebrado, não ridicularizado.

Axl Rose já não é o mesmo. Mas continua cá. Continua a cantar. Continua a entregar-se. E isso, só por si, é um ato de coragem.

Longa vida ao Axl. Longa vida aos Guns!

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