Na celebração do 40º aniversário da banda, os Helloween trouxeram a Portugal a sua produção mais ambiciosa de sempre. Numa articulação perfeita entre um espetáculo conceptual, uma performance com execução técnica irrepreensível e um público devoto que encheu o Sagres Campo Pequeno, esta foi uma noite de muitas emoções e recordações.
Quando os Helloween visitaram-nos em 2018 com a sua Pumpkins United World Tour pouco ou nada se podia prever sobre o futuro da banda. Na altura o impensável tinha acontecido, com o vocalista Michael Kiske e o guitarrista, vocalista e co-fundador Kai Hansen a regressarem à banda após um afastamento de mais de vinte anos.
Com a configuração de um septeto, onde o destaque era inevitavelmente a junção de três vocalistas e de três guitarristas, os Helloween convergiram numa força musical única como nunca se tinha visto no mundo do heavy metal.
Finalizada a tour com sucesso e distinção e deixadas de lado todas as mágoas e desavenças, foi tempo de olhar para o futuro. Era agora hora de determinar se a banda iria voltar à sua configuração base com a formação mais recente, se iria regressar à formação clássica (que nunca poderia contar com o regresso do baterista Ingo Schwichtenberg devido ao seu falecimento em 1995) ou se mantinham esta união e esta divisão de tarefas que ao vivo tão bem transformara o repertório dos Helloween numa explosão sonora ainda mais rica e feroz. A escolha recaiu sobre a última opção e o saldo não poderia ter sido mais positivo. Desde o término da Pumpkins United World Tour em 2018, os Helloween já lançaram dois aclamados álbuns de estúdio com esta formação: o álbum homónimo (2021) e o mais recente “Giants & Monsters” (2025).
Agora, a celebrar os quarenta anos da banda e do primeiro álbum “Walls of Jericho” (1985) a banda partiu novamente para a estrada para uma tour de celebração que conta com a produção mais corajosa que alguma vez apresentaram.
Beast in Black
Para tamanha celebração, os Helloween convidaram uma banda que, segundo as nossas previsões, estará nos próximos dez anos a encher arenas como o Sagres Campo Pequeno. Os Beast in Black são um dos grandes herdeiros do heavy metal dos anos 80, mas não se limitam a honrar o passado. O conceito que melhor descreve a sua sonoridade é o de metal eurovisivo, não na mesma vertente que os Electric Callboy, mas com os pontos-chave em comum: malhas explosivas, refrões orelhudos e elementos de música eletrónica a acompanhar. No fundo, é como se tivessem misturado num caldeirão uma boa dose do heavy metal tradicional dos Judas Priest, outra do power metal dos Helloween, outra do hard rock dos seus conterrâneos Lordi e por fim uma pitada de eurobeat.
Depois de se terem estreado por cá em nome próprio em 2023 com um concerto no LAV-Lisboa Ao Vivo, agora foi a vez de irem à conquista de novos fãs. Longe do que costuma ser comum para uma banda de abertura, os Beast in Black tiveram direito a uma atuação de quase 1h, mais do que suficiente para deixarem a sua marca.Temas como “Power of the Beast”, “From Hell With Love”, “Beast in Black” e “One Night in Tokyo” evidenciaram esse heavy metal, por vezes demasiado produzido e artificial, que tem ajudado os Beast in Black a trilhar o seu caminho não só dentro do espectro da música pesada, mas também a expandir-se para uma vertente sonora mais espalhafatosa e eurovisiva. Isso antecipa que, em breve, a banda reunirá um público ainda mais heterogéneo nos seus concertos.
Helloween
Foi com uma viagem pelas capas dos dezassete álbuns de estúdio dos Helloween que a banda entrou em palco. No fim da animação, apenas ficou a abóbora, a icónica mascote da banda, para acompanhar “March of Time” que soou como um hino não só na voz de Michael Kiske e Andi Deris, mas também na de todos os presentes que encheram o Sagres Campo Pequeno.
Na primeira aparição do guardião, o famoso “Keeper Of The Seven Keys”, fomos guiados numa nota introdutória sobre o passado, mas também com indicações sobre o que se iria passar ao longo do concerto. “The King for a 1000 Years” retomou a celebração com o primeiro épico da noite com mais de dez minutos. Numa troca acesa de solos, o destaque foi inevitavelmente para Kai Hansen, o proclamado “Pai do Power Metal”, que se chegou à dianteira da passadeira para apresentar a sua já famosa versão de “In the Hall of the Mountain King” de Edvard Grieg.
Por esta altura já nos tínhamos apercebido de que dos três guitarristas, Michael Weikath seria o mais apático ao apresentar-se com uma postura algo frágil e com menos “fogo” nos dedos. Ainda assim, o músico, que é um dos fundadores da banda, não comprometeu e assinou uma prestação sem falhas percetíveis.
Intercalar o passado mais longínquo com o mais recente, mas também com o presente foi o mote da setlist. Em “Future World”, assim como em “This Is Tokyo”, não se notaram discrepâncias nos coros vindos do público, demonstrando assim, que o material que os Helloween têm vindo a compor nos últimos anos tem sido bem aceite pelos fãs.
Desde que os Helloween criaram esta formação Pumpkins United é possível comprovar um maior folgo vocal em palco. Essa é a vantagem de ter três vocalistas, algo que permite alguma rotatividade com o intuito de dar algum descanso à voz. Visto que o concerto é longo, que as músicas são exigentes e que a idade já não permite atingir uma consistência vocal de outros tempos, os Helloween fazem uso desta rotação conseguindo entregar a melhor prestação possível.
“We Burn” e “Twilight of the Gods”, a primeira com Deris na voz e a segunda com Kiske, foram o primeiro vislumbre dessa rotatividade. De seguida veio “Ride the Sky”, tema do primeiro álbum dos Helloween. Naturalmente, aqui o protagonismo foi para Kai Hansen que demonstrou que os seus agudos ainda estão bem preservados apesar dos seus sessenta e dois anos.
Ao longo do concerto Kai Hansen não usou mais nenhum modelo a não ser a sua EBG KH-40T, uma espécie de réplica da icónica ESP RV-300KH. Curiosamente, também Michael Weikath recorreu a uma série de réplicas da Gibson. O guitarrista prefere agora tocar com modelos custom da VIV Guitars nos formatos Les Paul, Flying V e um híbrido. Ainda assim, foi pena não termos revisto a sua deslumbrante Gibson Flying V Custom “Pumpkin” em ação. No lado esquerdo do palco Sascha Gerstner, também ele endorsee da VIV Guitars, alternou entre várias Pace, o seu modelo futurista. Ao seu lado esteve Markus Grosskopf que, além do seu baixo KÜRBINATOR alusivo à mascote da banda, também sacou de um Rickenbacker 4003.
Após uma secção de temas menos impactantes, mas não menos importantes como “Into the Sun”, “Hey Lord!”, “Universe (Gravity for Hearts)” e “Hell Was Made in Heaven”, foi a vez de Daniel Löble ter o seu momento de protagonismo num solo de bateria. Incansável, o músico desafiou as leis cardíacas com uma prestação irrepreensível ao longo de 2h de concerto com o seu bombo duplo frenético a ecoar por toda a arena como uma locomotiva sem travões.
Incansável, o músico desafiou as leis cardíacas com uma prestação irrepreensível ao longo de 2h de concerto com o seu bombo duplo frenético a ecoar por toda a arena como uma locomotiva sem travões.
Mas, para quem estava a seguir a setlist dos concertos anteriores, não havia outro sentimento senão o de uma grande ânsia de ouvir “I Want Out”. O tema que catapultou os Helloween para as bocas do mundo através do seu videoclip que rodou no Headbangers Ball da MTV, foi entoado por todos como um grito de libertação e de saudosismo para com uma adolescência que já lá vai.
Com a energia a extravasar, foi necessário acalmar um pouco a intensidade com um momento acústico intimista com Kiske e Deris na boca da passadeira. Numa profunda demonstração de respeito pelas eras de um e de outro, os dois músicos partiram para “In the Middle of a Heartbeat” e “Pink Bubbles Go Ape”, a primeira com Deris na voz e a segunda com Kiske, ambas acompanhadas à guitarra por Kiske. Depois, as duas vozes convergiram em “A Tale That Wasn’t Right”, com o acompanhamento à guitarra de Deris a desembocar na muralha sonora da banda.
“A Little Is a Little Too Much” e “Heavy Metal (Is the Law)”, esta última com Kai, mais uma vez, a encarregar-se da voz, deram lugar a mais uma aparição do “Keeper” para nos relembrar que num concerto dos Helloween é sempre “Halloween”. O épico de treze minutos levou-nos numa montanha russa sonora com as suas múltiplas secções repletas de virtuosismo vocal e instrumental. Sem dúvida que esta é a malha que melhor representa a essência dos Helloween, e poder testemunhá-la ao vivo, passados vinte e oito anos da sua génese, é algo verdadeiramente impactante.
Sem dúvida que esta é a malha que melhor representa a essência dos Helloween, e poder testemunhá-la ao vivo, passados vinte e oito anos da sua génese, é algo verdadeiramente impactante.
Já no encore, a euforia de “Eagle Fly Free”, a melodia de “Power” e a comicidade de “Dr. Stein” deram lugar a um derradeiro refrão, o de “Keeper of the Seven Keys”. É certo que não vimos homens de barba rija a verter uma lágrima, mas se isso tivesse acontecido, não teríamos estranhado. Mais do que a música que encerra a celebração, é o encapsular de uma banda que acompanhou muitos dos que estiveram presentes no Sagres Campo Pequeno ao longo da sua juventude e vida adulta. Para muitos, celebrar estes quarenta anos de Helloween é celebrar as memórias dos concertos no Pavilhão Dramático de Cascais, a descoberta da banda através do vinil do “Live In The U.K.”(1989), o primeiro álbum da banda a ser editado em Portugal pela EMI-Valentim de Carvalho ou a reunião da banda cuja a digressão passou pela Sala Tejo, em Lisboa, em 2018. Afinal de contas, para cada fã português de Helloween existe, pelo menos, uma memória marcante relativa à banda e este concerto acabou de registar mais uma.



























































































