Portadores de fotografias sonoras reminiscentes de paisagens áridas suspensas no tempo, os Hermanos Gutiérrez estrearam-se em Lisboa com uma performance destinada à pura contemplação. Numa espécie de road trip imaginada, os irmãos suíços, de origem equatoriana, levaram-nos numa viagem musical entre o sudoeste norte-americano e os andes sul-americanos, ao sabor de uma lap steel que se revelou tão misteriosa quanto hipnotizante.
Nos anos 60, o deserto de Tabernas, na província de Almería, transformou-se no cenário ideal para acolher os famosos spaghetti westerns de Sergio Leone. A sua paisagem árida, assente em desfiladeiros, replica na perfeição a região sudoeste dos EUA, transmitindo assim a sensação de que estamos perante o velho oeste americano. Porém, a cinematografia presente em registos tão icónicos como a “Trilogia dos Dólares” não seria a mesma sem as bandas sonoras que Ennio Morricone compôs para esta tipologia de filmes. Aliás, Leone fazia mesmo questão que Morricone compusesse parte da banda sonora antes da rodagem do filme com intuito de influenciar o seu ritmo e ambiente. Por sua vez, Morricone tinha também um estilo de orquestração muito próprio que ainda hoje se distingue muito facilmente. Para retratar o ambiente tórrido do deserto, o maestro recorreu muitas vezes ao guitarrista Pino Rucher que, com a sua sonoridade assente num vibrato tremeluzente, ficou reconhecido na história da música e do cinema como o primeiro guitarrista a tocar guitarra elétrica em spaghetti westerns.
Mais de 60 anos depois, a herança musical de Morricone e Rucher continua bem viva nas composições dos Hermanos Gutiérrez, através de temas vagarosos com uma linguagem musical sinestésica sublime. “El Bueno y el Malo” (2022), o primeiro álbum da dupla a ser produzido por Dan Auerbach dos The Black Keys, é talvez o registo que melhor encapsula essa identidade, mas ao longo de toda a sua discografia encontramos cruzamentos com a música latina, nomeadamente a cumbia, e ainda a música de cariz psicadélico.
Após as passagens por Paredes de Coura e pelo Porto, os Hermanos Gutiérrez estrearam-se finalmente em Lisboa, com um concerto no Coliseu dos Recreios. A sala com a sua configuração de plateia sentada reforçou esse aspeto contemplativo que a música invoca. É claro que o grupo poderia ter vendido mais bilhetes ao apresentar uma configuração de concerto com plateia em pé, como aconteceu no festival minhoto. Mas, algo certamente se teria perdido. Numa época em que o limiar de atenção é tão reduzido, ter uma plateia em pé num concerto tão intimista como este era meio caminho para termos uma plateia semi-dispersa e ruidosa. Infelizmente, tal acabou mesmo por acontecer, em momentos pontuais, na zona dos camarotes. Mas, isto já são questões relacionadas com a etiqueta de concertos.
Provenientes do epicentro da relojoaria, Alejandro e Estevan Gutiérrez, subiram ao palco precisamente à hora marcada. Sem apresentações, sem temas de abertura, dirigiram-se aos seus lugares para começar a afinar os cordofones “motorizados” que nos iriam levar nesta viagem. Após alguns cumprimentos de cortesia soaram os primeiros acordes de “Hijos del sol”. Nesse momento, o sol pareceu nascer pela segunda vez no mesmo dia, naquela que foi a primeira transposição de som em imagens da noite. De um lado, o groove magnético de Estevan, do outro, a precisão cirúrgica de Alejandro a fintar qualquer deslize ao lado. Juntos evidenciaram o entendimento entre os dois músicos na arte de tocar algo que tem tanto de minimalista como de complexo.
Juntos evidenciaram o entendimento entre os dois músicos na arte de tocar algo que tem tanto de minimalista como de complexo.
Estando perante um concerto de música instrumental, sem qualquer letra, é fácil para os artistas deixaram-se guiar pelo lema do “deixem a música falar por si”. Contudo, torna-se evidente que para os Hermanos Gutiérrez existe uma necessidade de estabelecer uma relação extra-performativa de proximidade e de partilha com o público. Desta forma, a dupla aproveitou o espaço entre músicas para contextualizar a origem das suas composições e as temáticas por detrás do álbum, um aspeto que deu ao concerto um encadeamento mais interessante da perspetiva do público.
Sonoramente longe do fado, mas com a mesma capacidade de invocar um estado de espírito melancólico e o sentimento de saudade no ouvinte, foi impossível não estabelecer um paralelismo entre a nossa música e temas como “El camino de mi alma”, com Estevan a fazer a sua guitarra chorar através de um padrão melódico em crescendo, e “Los chicos tristes”, precedida por uma menção a Amália Rodrigues. Para alguns a comparação com a música portuguesa até pode parecer descabida, mas, será que estaríamos hoje a ver os Hermanos Gutiérrez sem a existência de uns Dead Combo, grupo que tão bem casou a música western com o fado?
Influências à parte, Estevan e Alejandro conseguiram ir ao encontro de uma sonoridade própria fruto de uma interessante combinação de gear que articula requinte com funcionalidade. Estevan apresenta-se em palco com uma Gretsch G6120T 59 Vintage Select Chet Atkins e um Fender Deluxe Reverb 60s. A sua pedalboard, onde reside o “segredo” do seu som é composta por um MXR M291 Dyna Comp Mini, um Malekko Heavy Industry Omicron Series Vibrato, um Strymon El Capistan dTape Echo, um Strymon Flint, um César Diaz Texas Tremodillo e um Boss RC-500 Loop Station. Já Alejandro alterna entre uma Silvertone 1446 e uma Rickenbacker NS Lap Steel. O seu amplificador também é um Fender Deluxe Reverb 60s e na sua pedalboard podemos encontrar um Boss Equalizer GE-7, um Strymon Flint, um Strymon El Capistan dTape Echo, um J. Rockett Uni-Verb e um Dunlop Crybaby GCB95.
Entre os temas mais western como “Thunderbird”, “El bueno y el malo” e “Desert medley” (uma combinação de três músicas do álbum “Hijos del Sol” (2020), a dupla ainda guardou espaço para apresentar os singles de “Los Ojos Del Cóndor”, o próximo álbum de estúdio com lançamento marcado para 25 de Setembro. Na faixa título e em “Canto Andino” as paisagens áridas foram substituídas pelo verde dos Andes, com as melodias arrastadas a ganharem algum balanço até se converterem no psicadelismo de “Sonido cósmico” e na ginga de “Tres hermanos”.
A despedida dos dois irmãos, após o encore, teve honras de foto de família, com Estevan a tirar uma máquina fotográfica do bolso para registar o momento para posterioridade. O público ficou assim com mais um registo para adicionar ao álbum de fotografias sonoras que os Hermanos Gutiérrez captaram com as suas guitarras ao longo de todo concerto.