À Prova | Fender Acoustasonic Jazzmaster [Teste em Vídeo]

À Prova | Fender Acoustasonic Jazzmaster [Teste em Vídeo]

André C. Rodrigues

O DesignJazzmaster é o mais recente da gama Acoustasonic da Fender. Partilha muitas características com os modelos que a antecedem (Stratocaster e Telecaster), mas, tal como podemos constatar (até mesmo entre os dois modelos anteriores), há diferenças que a vão distinguir das suas antecessoras.

A série Acoustasonic da Fender apresenta uma alternativa prática ao músico que pretende obter uma paleta razoável de timbres acústicos, num formato prático e portátil, sem dispensar o conforto que um braço de guitarra eléctrica proporciona. Tal paleta tímbrica é acessível através de um complexo sistema de captação e emulação.

Porém, mesmo quando surge o primeiro modelo da gama, este conceito não é novidade – desde, pelo menos, 2008, que a marca Line6 oferece propostas similares, e algumas marcas de guitarras, como a Ibanez, recorrem ao uso de “imagens” de guitarras captadas por microfone para misturar com o som original dos captadores. Contudo, o que distingue esta série de guitarras das suas concorrentes é a qualidade dos timbres acústicos obtidos, bem como a adição de um pickup magnético, o que as torna ainda mais versáteis.

Depois da Tele, a Fender lançou a Acoustasonic Stratocaster, em 2020. Já este ano, surgiu a versão Jazzmaster, que tem sido, quiçá, a mais elogiada. Passámos no Mr. Jack – Guitars and Stuff para experimentar uma…

SPECS

O seu corpo offset, com formato de uma Jazzmaster (modificado), e contornos de conforto (tanto à frente, para o braço direito, como atrás, para a cintura), é em mogno, e, apesar de ser relativamente fino, é oco, criando, assim, uma caixa de ressonância. O seu tampo é em abeto Sitka maciço, com uma boca centrada sob as cordas, com uma superfície lateral que se prolonga dentro do corpo, parte do sistema que a Fender define como SIRS (Stringed Instrument Resonance System). Como as suas antecessoras, tem um cavalete semelhante ao de uma guitarra folk, com rastilho compensado. Os botões da bandoleira (um, centrado no fundo do corpo, e o outro, na ponta de cima do mesmo), permitem uma disposição muito confortável do instrumento, quando usado de pé. A junção bolt-on de 4 cavilhas ao braço, e regulação micro-tilt do ângulo do mesmo, permite um fácil acesso aos trastos mais agudos. O seu acabamento acetinado é oferecido em cinco opções diferentes: Ocean Turquoise, Natural, Tobacco Sunburst, Tungsten e Arctic White.

O braço é em mogno, com acabamento acetinado e formato de Jazzmaster, de perfil em “C” generoso, e a disposição típica “seis em linha” deste tipo de cabeça. A escala é em ébano, cujas medidas e acabamento nos remetem, novamente, para uma Jazzmaster eléctrica – escala de 25,5″, com um raio moderno de 12″, uma largura de pestana de 42,86 mm, e 22 trastos narrow & tall. Este braço não tem binding, e os seus marcadores são brancos, com o formato tradicional em “pinta”. O seu hardware é moderno e preciso. As suas cravelhas modernas, em conjunto com a pestana em TUSK, da Graph Tech, conferem uma afinação estável ao instrumento, e o seu truss rod, cujo acesso se encontra na cabeça, é de dupla acção.

Quanto a electrónica, a guitarra tem, tal como os dois modelos anteriores, três fontes de captação – um captador piezzo eléctrico Fishman sob o rastilho, um sensor interno Fishman no corpo (situado atrás do cavalete), e um captador magnético Shawbucker, projectado especificamente para esta guitarra, na posição da ponte (este último, diferindo dos restantes modelos, por ser um humbucker). No que respeita a controlos, possui um controlo de volume geral, uma chave selectora de 5 posições, e um controlo de mistura entre as duas “vozes” disponíveis por cada posição da chave. A bateria interna de iões de lítio é recarregável, por intermédio de uma porta micro USB, integrada na placa da saída de Jack áudio, situada na ilharga inferior do instrumento, e deverá proporcionar cerca de 20 horas de utilização contínua – um LED vermelho intermitente serve de aviso de que a bateria dispõe de menos de uma hora de autonomia, mas é possível recarregá-la enquanto tocamos.


SOM & PERFORMANCE

Em termos de variedade de timbres disponíveis, esta guitarra é, como os dois modelos que a antecedem, muito versátil. A electrónica, embora relativamente complexa, é intuitiva – graças ao Acoustic Engine, desenhado em conjunto com a Fishman, que mistura de formas diferentes as três fontes de captação, o utilizador tem acesso a dez “vozes” distintas, agrupadas em cinco pares (seleccionados através da chave de 5 posições), e usando o controlo de mistura (um dos pontos fortes desta guitarra), é possível isolar cada “voz” do par (rodando-o completamente, ou num sentido, ou no outro), ou misturar essas duas “vozes”, obtendo, assim, nuances tímbricas das duas, consoante a posição deste controlo, e que, de outra forma, seriam impossíveis de alcançar. O volume geral é controlado por um potenciómetro dedicado – não estão disponíveis, contudo, extras, como um afinador incorporado, efeitos on board (para além da saturação nas posições 1 e 2), ou mesmo um muito útil filtro passa-baixas (tone knob).

As “vozes” disponíveis (Posição Controlo de mistura min. Controlo de mistura max.) são: 5 Rosewood Dreadnought Mahogany sloped shoulder Dreadnought; 4 Mahogany Jumbo Mahogany Parlor; 3 Rosewood Auditorium Rosewood Auditorium + Body sensor; 2 Lo-fi Piezzo pickup Lo-fi Piezzo pickup (overdriven); e 1 Magnetic pickup Magnetic pickup (overdriven).

A qualidade dos timbres acústicos é mais que satisfatória – as duas últimas posições dão imagens relativamente fidedignas dos instrumentos que pretendem emular, e a adição do sensor do corpo na terceira posição (um dos pontos mais fortes do instrumento, que é maximizado pelas dimensões do seu corpo offset, de proporções generosas), confere à guitarra uma profundidade e tridimensionalidade que um piezzo isolado, mesmo que recorrendo à tecnologia Acoustic Engine, simplesmente não consegue alcançar. Outro ponto forte a salientar é a utilização do controlo de mistura, que permite ao utilizador misturar as duas “vozes” seleccionadas. Na segunda posição, temos, então, o piezzo “cru” (sem emulações), que, por si, é reminiscente de uma Ovation, algo que tem a sua utilidade – porém, a adição de saturação ao sinal do piezzo produz um timbre que, salvo em situações muito específicas, não tem uma aplicação particularmente prática. Podemos dizer o mesmo da saturação onboard do Shawbucker, na primeira posição – seria, porventura, mais interessante e útil, que esta primeira posição permitisse uma mistura entre este pickup magnético e o piezzo (ou, mesmo, uma das suas emulações), usando efeitos externos (com a flexibilidade que estes proporcionam), para adicionar saturação.

Quanto ao “feel” do instrumento, é um misto, próprio de um híbrido deste género. Apesar das dimensões do seu corpo (e mesmo com a adição da tecnologia SIRS), desligada, esta não é, de todo, uma guitarra acústica com um timbre particularmente agradável – a caixa de ressonância é pouco profunda, e a espessura considerável da madeira do corpo não permite que este vibre livremente, produzindo, como consequência, um volume acústico reduzido, mas que deverá ser satisfatório para praticar sem recurso à sua electrónica. Já o seu braço de Jazzmaster confere-lhe um conforto superior de execução, e fácil acesso aos trastos mais agudos, apenas limitado pelo uso de cordas específicas para guitarra acústica (fundamentais para maximizar a qualidade dos timbres acústicos produzidos pela sua electrónica). Também típico de uma guitarra acústica (e parte integrante do som da guitarra), é o seu cavalete, que, infelizmente, não permite ao utilizador regular a acção e afinar harmónicos, como numa Jazzmaster normal.

Há algumas idiossincrasias inerentes a um instrumento desta natureza que são virtualmente impossíveis de ultrapassar, sendo que a mais evidente será, decerto, a disparidade entre a sua reduzida ressonância natural e os timbres que a sua electrónica é capaz de produzir – sentimo-nos como que “separados” fisicamente do instrumento, algo que, eventualmente, poderá não agradar ao mais purista dos entusiastas de instrumentos acústicos, mas que não deverá constituir problema para o músico habituado a tocar guitarra eléctrica. Podemos dizer, também, que as opções respeitantes ao pickup magnético são reduzidas, mas este instrumento não foi especificamente projectado tendo tal versatilidade em conta – como já foi amplamente explanado anteriormente, esta guitarra tem, por pontos fortes, os seus timbres acústicos, esses sim, de elevada versatilidade e qualidade amplamente satisfatória.

Esta é, portanto, uma guitarra que deverá agradar músicos que não prescindem da facilidade de execução de um instrumento eléctrico, mas que procura timbres acústicos convincentes. É uma guitarra que, apesar da sua electrónica complexa, pelo seu peso e volume reduzidos, aliados a uma estrutura mais resistente e estável, está mais que preparada para os rigores da estrada. É uma guitarra que, pela sua facilidade de execução, e não sendo particularmente susceptível a feedback, está “em casa” no palco. E, por fim, é um instrumento que, dada a sua paleta variada de timbres acústicos de qualidade superior, embora não conseguindo nunca superar uma D-28, ou uma J-45 dignas de seu nome, supre, de forma capaz, as necessidades de um estúdio caseiro.

Quanto ao seu preço (cerca de 1660€), podemos considerar que é relativo – é óbvio que há diferenças entre esta guitarra e as acústicas que pretende emular, mas o custo de aquisição de qualquer uma delas será superior ao seu.

Guitarra cedida para teste por Mr Jack Guitars.

EGITANA