Torradinha! Afinal, Quais as Características do Tratamento Roasted?

Torradinha! Afinal, Quais as Características do Tratamento Roasted?

André C. Rodrigues
LsL Instruments

Os instrumentos, principalmente as guitarras eléctricas, com madeiras roasted são cada vez mais procurados. Vamos ver em que consiste o tratamento de torrefacção da madeira e quais as características que este empresta ao material e ao som…

Embora há já algum tempo que este tipo de processo é usado na produção e instrumentos acústicos, só mais recentemente é que a indústria adoptou a utilização desta alternativa na produção de instrumentos eléctricos. Exemplo notório surgiu em 2019, quando, através da sua loja online, a gigante Fender começou a vender braços Strat, Tele e Jazz Bass em roasted maple. Um sinal de que a marca do F gigante vai adoptar de forma regular esta opção nas suas colecções.

A popularidade desta solução já está enraizada entre os construtores boutique há mais tempo. A Warmoth há muito que vende as peças sujeitas ao tratamento. Roasted, ou baked wood (em Português, madeira torrefacta), mais não é que madeira tratada de forma diferente. Claro, há madeiras e madeiras.

Comecemos por perceber que todas as madeiras são diferentes – isto pode parecer cliché, mas facto é que, mesmo sendo da mesma madeira, há peças que são mais indicadas para construção de instrumentos musicais que outras, e, contrariamente ao que seria de esperar, uma peça com maior conteúdo de humidade é, muitas vezes, a mais procurada.

A razão é relativamente simples: depois de seca e estabilizada, esta madeira terá, comparativamente, menos peso (e, normalmente, melhores qualidades tímbricas) que uma madeira mais densa. Podemos exemplificá-lo, observando a diferença entre ash regular e swamp ash – é exactamente a mesma árvore, sendo que swamp ash (black ash), por ter maior conteúdo de humidade, acaba por ser uma madeira mais leve e ressonante, uma vez seca e estabilizada.

Tempo é dinheiro! Esta é a máxima pela qual a indústria se tem regido, e este caso é um exemplo perfeito disso.

Para poder ser utilizada na construção de instrumentos musicais, uma vez colhida e cortada, a madeira deverá estar devidamente seca e estabilizada, ou seja, deverá ter sido sujeita à passagem das estações, contraindo-se e expandindo consoante variações de humidade e temperatura, perdendo gradualmente o seu conteúdo de humidade e cristalizando as suas resinas no processo.

Ora, se, antigamente, os construtores mantinham stocks de madeira, que, por forma a estar devidamente curada, só passados anos (muitas vezes, décadas) viria a ser utilizada, a actual escala de produção em massa de instrumentos veio inviabilizar esse método de cura.

A solução moderna para colmatar essa necessidade consiste no uso de fornos de cura, em que a madeira é sujeita a temperaturas mais ou menos elevadas, por forma a perder o excesso de humidade e estabilizar num curto espaço de tempo, e, assim, poder ser prontamente processada (cortada nas formas finais a que cada peça está destinada, como braços, ou corpos), sem risco de poder vir a empenar posteriormente.

Esta solução reduz exponencialmente o tempo de cura, e, consequentemente, aumenta a disponibilidade de matéria-prima própria para a produção em série de instrumentos musicais.

BEM PASSADO, POR FAVOR

Este processo pode ser prolongado, a fim de obter resultados mais satisfatórios – basta, para isso, curar as peças de madeira durante um período de tempo mais prolongado. O resultado é a redução em cerca de 70% do conteúdo de humidade original, resinas totalmente cristalizadas, e uma ligeira mudança na cor da madeira (ganhando uma tonalidade mais escura e “torrada”).

Se o processo acaba por ser ligeiramente mais moroso e dispendioso, as vantagens que traz são consideráveis, conferindo maior estabilidade e rigidez à madeira, diminuindo o seu peso, tornando-a acusticamente mais ressonante e menos permeável a humidade.

De certa forma, esta inovação introduz novas alternativas no que respeita a construção de instrumentos. Tomando o exemplo de um braço de guitarra em maple, a necessidade de recorrer a peças quarter sawn para obter mais estabilidade deixa de ser um requisito indispensável. Por outro lado, dado que a madeira é, agora, mais impermeável, deixa também de ser necessário o envernizamento do braço, bastando aplicar um óleo apropriado para a proteger.

Os resultados são tão satisfatórios, que alguns construtores chegam a utilizar maple torrefacto como material para escalas de instrumentos de cordas.

Contudo, se estas inovações trazem vantagens, tanto no custo de produção, como no resultado final, é sempre conveniente lembrar que a torrefacção não é panaceia para todos os males da madeira – por mais torrefacta que uma peça de madeira esteja, se não era originalmente apropriada para construção de instrumentos musicais, dificilmente este processo irá mudar essa condição.

Na nova edição impressa da AS, estreei-me nas colaborações com a revista e mostro como modificar o circuito de uma Telecaster para expandir a sua versatilidade sonora. Totalmente DIY. Apenas precisam de ler atentamente o artigo, munirem-se de solda, precaução no seu uso e obedecer a todos os passos, para tornarem a vossa Tele num canivete suíço. Para não irem embora sem ouvir uma malha. Aqui ficam os Li’l Twister a virar um clássico do cancioneiro blues.

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