I Against I: A Importância da Comunidade Negra para a Música Punk

I Against I: A Importância da Comunidade Negra para a Música Punk

21/08/2026

Antes de o punk se tornar sinónimo de rebeldia e liberdade, já havia bandas negras a desafiar as regras e a ajudar a construir o som que viria a definir o género. Death e Pure Hell são dois exemplos fundamentais, grupos que enfrentaram não só a indústria musical, mas também o preconceito racial, acabando por se tornar lendas de culto.

[artigo originalmente publicado na zine No Borders No Walls ]

O Punk Rock, desde a sua origem, foi um movimento onde os seus integrantes eram livres para se expressar da maneira que queriam. Podiam libertar as suas frustrações com o mundo através da música e destacar-se numa multidão através do vestuário. Bandas como os Ramones, The Clash e os Sex Pistols são considerados por muitos como os inventores do som Punk e o género musical foi tipicamente visto como tendo um público de raça branca. Contudo, existem artistas negros que não só contribuíram para o sucesso primórdio do punk como também merecem ser colocados no mesmo pedestal onde as bandas mencionadas se encontram. Um dos exemplos disto são os Death.

Integrada pelos Hackney Brothers, começaram por lançar músicas funk, mas após ouvirem artistas como o Alice Cooper, MC5 e The Stooges, alteraram o seu som para algo mais Hard Rock.

A banda é considerada “proto-punk”, ou seja, uma espécie de protótipo para aquilo que, eventualmente, se tornaria o som punk. Podiam ter tido sucesso ao tocar músicas com um som mais comercial, mas mantiveram os seus ideais e genuínos consigo próprios.

Infelizmente, isto acabou por ser o que os impediu de ganhar reconhecimento. Ao recusarem mudar o seu som como também o nome da banda, perderam oportunidades para lançarem as suas músicas. Os Death acabaram por ganhar um estatuto mitológico, com CDs das poucas gravações que fizeram a ser considerados relíquias até que, em 2009, foi lançado o álbum “For the Whole World to See”, e a história desta banda foi o tema de um artigo do New York Times.

O que poderia ser mais punk rock do que mandar os engravatados dar uma volta em nome da integridade artística, mesmo quando o punk ainda nem existia propriamente?

Outra banda a realçar são os Pure Hell. Com um som rápido e mais agressivo comparado com o que era norma no final da década de 70, este grupo integrou-se na cena punk ascendente em Nova Iorque onde tocaram com artistas como as New York Dolls e foram ato de abertura para o projeto solo de Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols. A banda até foi incluída numa publicação da revista Interview de Andy Warhol. O projecto promovia-se como a única banda negra que tocava punk e tiveram algum sucesso, até realizaram uma tournée na Europa.

Contudo, nunca chegaram ao topo devido à sua cor da pele. Devido a estereótipos raciais, era-lhes sempre sugerido mudarem de som para algo mais dançável, e isso não estava nos planos da banda logo, perderam oportunidades com companhias discograficas. Eventualmente, devido a um conflito com o manager da banda, os Pure Hell até perderam a posse das suas gravações. Acabaram por desaparecer da luz pública devido à discriminação tornando-se, semelhante aos Death, numa banda mítica cujas gravações eram consideradas raridades. Também acabaram por ser publicadas para todos ouvirem e, para a altura que o álbum foi gravado, é considerado um “game changer”, merecedor de muito mais atenção. Infelizmente, discriminação racial e o facto que o punk era (e de certa forma para muitas pessoas ainda é) um género de música para pessoas de raça branca fez com que os Pure Hell recebessem o estatuto de lendas que merecem.

 «Fomos a primeira banda punk negra do mundo. Fomos nós que pagámos o preço por isso, fomos nós que deitámos as portas abaixo, fomos genuinamente os primeiros. E continuamos sem receber qualquer reconhecimento por isso.»
Lenny Bole, Pure Hell

Por último, é de destacar a banda que a revista Rolling Stone batizou de “The mother of all black rock bands”, os Bad Brains. Originalmente um grupo de jazz, decidiram trocar de som e optar por algo com muita agressão, adrenalina e, ironicamente, algum reggae. O resultado foi uma explosão de música punk capaz de causar caos em qualquer lugar onde tocassem. São inúmeras as bandas que não seriam iguais e, talvez, nunca começariam sem a contribuição dos Bad Brains. Ninguém tocava como eles e nunca ninguém irá. Das bandas que apresentei neste texto, esta deverá ser a mais conhecida, mas continuam sem receber o reconhecimento e importância que tiveram na música, seja punk, rock, metal ou qualquer outro género musical. Desde os Nirvana aos Guns N’ Roses, Green Day aos The Roots ou Rage Against the Machine aos Lamb of God, os Bad Brains deixaram uma marca enorme na música.

Os Bad Brains provaram que o punk rock não se resumia a simples distorção e fúria, mas era uma tela sem limites para a expressão. De “Mind Power” a um dos nomes mais venerados do hardcore, a transformação da banda exemplifica uma exploração sem limites do som e uma ruptura destemida com as convenções.

Resumindo, o punk rock não é apenas um género de música para homens brancos revoltados com o mundo. É algo para toda a gente, independentemente do género ou raça, que se queira expressar de uma forma livre de julgamentos. Mas, nos olhos do público geral, isto nem sempre é o caso. Os artistas que apresentei neste texto não têm reconhecimento suficiente tendo em conta o que fizeram, no entanto, quando o recebem, são colocados na sua própria categoria, não são só bandas de punk rock, são bandas negras de punk rock.

A mensagem que quero emitir com este seria a mesma se o fizesse com mulheres ou membros da comunidade LGBTQIA+ no punk rock, que é a seguinte: estes artistas são ícones do punk rock no geral. Contribuíram para o seu impacto na cultura mainstream e devem ser aplaudidos por isso e não categorizados. Até merecem mais reconhecimento que alguns dos “ícones” do punk rock. Afinal de contas, o que é mais punk rock, o Johnny Rotten atualmente afirmar-se como apoiante do Trump e do Brexit, ou os Death recusarem-se a mudar o nome da banda só por ganhos financeiros, mantendo a sua dignidade?

Não quero ser recordado apenas por sermos negros. Quero ser recordado por termos feito parte da primeira linha do punk nos anos 70.
Kenny Gordon, Pure Hell