(c) Alexandre Correia

Indie Music Fest 2026: Femme Falafel levou Baltar à “Depressão”. E foi uma festa!

09/09/2026

Review

Femme Falafel
9/10
Banda
9/10
Ambiente
9/10
Som
8/10
Overall
8.8/10
Envenenados por Mercúrio
Electrocardiodrama
Rio
Camada do Ozone
Romance Feudal
Mitra Indie
Taj Mahal
Floresta da Amazónia
Tosta de abacate
Depressão

Femme Falafel atuou a 4 de setembro no Indie Music Fest, em Baltar, numa atuação marcada pelo humor, pela eletrónica, pelo brega funk e por uma forte interação com o público. Entre uma buzina de DJ, uma varinha mágica e um inesperado comboio humano.

Femme Falafel diz que é indie, mas o indie não diz que o é. Pela própria lógica da artista, o assunto fica assim invalidado. Ainda bem! Na Floresta Mágica de Baltar houve pop, eletrónica, brega funk virado do avesso, humor, ativismo, uma buzina de DJ, uma varinha mágica, saltos da Primark e, a determinada altura, um comboio humano a atravessar o relvado do Indie Music Fest.

Tentar encaixar tudo isto num género seria provavelmente a parte menos interessante da experiência. Não foi propriamente um concerto. Se o público fizesse um eletrocardiograma, os corações estariam sintonizados pelo impulso sonoro. Os óculos de sol dão-lhe o toque final. Os saltos também, pelo menos até meio da atuação, quando Femme Falafel decidiu descalçá-los e revelar à plateia a proveniência: Primark. O episódio dura segundos, mas diz bastante sobre a personagem que leva a palco. Há uma construção visual deliberada, mas não existe qualquer interesse em preservar-lhe solenidade. Femme Falafel cria a personagem e é também a primeira a desmontá-la. É nesse jogo que grande parte do concerto funciona.

A buzina de DJ surge como pontuação recorrente de um universo que se aproxima do brega funk para imediatamente lhe trocar os sinais. As letras fazem algo semelhante. Os trocadilhos podem obrigar os mais desavisados a alguns segundos de processamento, mas por baixo do disparate existe método: rimas, duplos sentidos e associações inesperadas que fazem de Femme Falafel uma improvável alternativa contemporânea ao cancioneiro popular de Quim Barreiros. Mudaram as referências, não necessariamente o mecanismo. Onde antes cabiam metáforas agrícolas e utensílios domésticos, entram agora cultura urbana, internet, consciência ambiental, relações, desejo, castidade e tostas de abacate.

O humor serve de veículo, mas não apenas de decoração. É frequentemente através dele que Femme Falafel consegue introduzir coisas mais sérias sem transformar as canções em discursos. A segunda metade da atuação foi particularmente eficaz a demonstrá-lo. Em “Mitra Indie”, por exemplo, a geografia obrigou a uma correção terminológica. Estávamos no distrito do Porto; “mitra” passou, portanto, a “guna”. “Guna Indie”. Adaptações culturais indispensáveis ao sucesso de qualquer concerto. É uma piada simples, mas revela uma característica importante da atuação: as canções não chegam a palco como objetos fechados.

Femme Falafel deixa-as absorver o lugar, o público e aquilo que está a acontecer naquele momento. Essa elasticidade torna mais fácil entrar no seu universo porque existe permanentemente a sensação de que quem está do outro lado também pode interferir nele. Em “Taj Mahal”, essa interferência tornou-se física. Por momentos, o imaginário do baile de verão tomou conta da Floresta Mágica. Surgiu aquele passinho básico que toda a gente parece conhecer sem se lembrar de alguma vez o ter aprendido e, inevitavelmente, formou-se o comboio.

Atravessou o relvado sintético sem paragens nem apeadeiros e só terminou quando a própria música acabou. Durante alguns minutos, o Indie Music Fest aproximou-se perigosamente de uma romaria popular. E ficou melhor por isso. Logo depois, “Floresta da Amazónia” mostrou como o mesmo mecanismo consegue carregar uma mensagem sem mudar de tom. De literal “varinha mágica com estrela rotativa” na mão, Femme Falafel regeu a plateia até Baltar responder em coro ao verso “Parem de f*der a floresta da Amazónia”.

Femme Falafel percebe que o humor pode ser uma forma eficaz de falar de assuntos sérios sem lhes acrescentar solenidade desnecessária.

Há aqui ativismo, mas sem púlpito. O absurdo não enfraquece a mensagem; é precisamente aquilo que a torna mais fácil de receber. Femme Falafel percebe que o humor pode ser uma forma eficaz de falar de assuntos sérios sem lhes acrescentar solenidade desnecessária. Uma varinha de plástico com uma estrela rotativa pode, afinal, ser um instrumento de mobilização perfeitamente válido.

“Tosta de Abacate” leva esse universo para outro dos seus extremos: referências geracionais sobre uma base que olha para o funk brasileiro, atravessadas por uma espécie de castidade deliberadamente absurda. É nesta sucessão de colisões que a identidade de Femme Falafel se torna mais clara. Não existe grande preocupação em fazer com que as referências pertençam naturalmente ao mesmo sítio. A graça está precisamente em obrigá-las a coexistir. Mas um concerto construído com tanta personagem, tantos códigos e tantas piadas corre um risco evidente: que nos lembremos mais dos acontecimentos do que das músicas.

Em Baltar, a banda foi essencial para que isso não acontecesse. Sebastião Bergman, na bateria, Tiago Martins, no baixo, e João Nascimento, nas teclas, não funcionaram como simples acompanhamento para aquilo que acontecia à frente do palco. A química entre os músicos e Femme Falafel foi uma das forças da atuação. Via-se que estavam dentro da mesma linguagem e, sobretudo, que se divertiam com ela. A diversão não parecia coreografada. A banda dava consistência musical à sucessão de ideias e permitia a Falafel esticar cada momento sem que a atuação se transformasse apenas numa coleção de sketches. Há diferença entre tocar por baixo de uma piada e perceber musicalmente onde essa piada precisa de espaço. Aqui, esse entendimento existiu. A completar o grupo estava Sandra Chon Perez, apresentada com a autoridade inerente ao título de «a melhor tocadora galega de shaker da atualidade».

Não foram apresentados argumentos contraditórios, pelo que o estatuto se mantém. Também Beatriz Pessoa, depois de ela própria ter atuado no festival, se juntou a Femme Falafel nos back vocals. No entanto, a colaboração entre ambas já estava literalmente à vista antes disso. Foi Beatriz quem coseu a vestimenta usada em palco, feita a partir de um tote bag onde se liam “I LOVE BALTAR” e “Dói Dói”, nome do disco de Femme Falafel. Poucos figurinos poderiam estar mais adaptados àquele concerto, àquele festival e àquele lugar. E, quando a atuação já acumulava informação suficiente para várias noites, Lucas de Centi desceu em rappel durante a música em que participa, gritando «ÉS A RAINHA!». Naquele momento, era difícil argumentar em sentido contrário.

É esta acumulação que poderia tornar o espetáculo excessivo, mas Femme Falafel parece perceber que o excesso é precisamente parte do vocabulário. O importante é que existe uma estrutura capaz de o suportar: a química da banda, a relação constante com o público e uma sucessão de canções que permite passar da piada à mensagem e da mensagem novamente à festa sem grandes alterações de linguagem. O público percebeu rapidamente as regras. Ou talvez tenha percebido que não havia muitas. Entrou na vibe. E o melhor exemplo ficou guardado para o final.

“Depressão” encerrou a atuação produzindo o efeito rigorosamente inverso ao prometido pelo título. O público mexeu-se, dançou e encontrou-se em sintonia com Femme Falafel numa última descarga coletiva. Uma música chamada “Depressão” a deixar toda a gente mais feliz talvez seja a síntese mais rigorosa possível deste concerto. Femme Falafel pode continuar a dizer que é indie. O indie pode continuar a não responder. Depois de um “Guna Indie”, uma Amazónia defendida por uma varinha mágica, um comboio sem apeadeiros, uma tocadora galega de shaker, saltos da Primark e uma descida em rappel para proclamar a sua realeza, discutir géneros já parecia uma preocupação extraordinariamente pequena. Na Floresta Mágica, ninguém precisou de perceber exatamente o que aquilo era, bastou entrar na vibe.