(c) Alexandre Correia

Indie Music Fest 2026: Sports Team, quem não tem Subaru conduz carrinho de rolamentos

09/09/2026

Review

Banda
8/10
Ambiente
8/10
Som
6/10
Overall
7.3/10

Uma hora de atraso, problemas de som, balões gigantes a sobrevoar a plateia e um vocalista a percorrer o palco num carrinho de transporte. O concerto dos Sports Team tinha tudo para transformar a despedida do Indie Music Fest num desastre. Em vez disso, Alex Rice e companhia acabaram por oferecer um dos concertos mais caóticos, divertidos e genuinamente vivos desta edição do festival.

Os Sports Team estavam previstos para a 01h10. Às 02h10, depois de serem resolvidos os problemas técnicos, finalmente houve condições para avançar. Uma hora de atraso às duas da manhã é uma excelente forma de testar o compromisso de uma audiência. Também é uma maneira bastante eficaz de descobrir quem queria realmente ver a banda e quem simplesmente ainda não tinha encontrado o caminho para casa.

A ironia era difícil de ignorar. Os Sports Team chegaram a Baltar e encontraram um teste à pontualidade britânica. Alex Rice tentou ocupar-se enquanto esperava pelo “Okay”. Andou de um lado para o outro, voltou a andar de um lado para o outro e, quando o conceito de “andar de um lado para o outro” já estava a dar as últimas, encontrou um daqueles carrinhos de quatro rodas usados para transportar malas.

Sentou-se e começou a deslizar pelo palco com a felicidade genuína de uma criança dos anos 80 num carrinho de rolamentos. Não era exatamente a imagem de um frontman internacional prestes a fechar um festival. Era melhor. O mais importante é que Rice nunca pareceu transformar a frustração num problema para quem estava do outro lado. Podia perfeitamente ter entrado de trombas. Em vez disso, esperou, brincou e, quando finalmente lhe disseram que podia começar, comportou-se como alguém que tinha decidido não responsabilizar o público por uma hora passada a contemplar cabos.

Infelizmente, o sistema de som ainda não tinha terminado a sua participação especial. Já com o concerto em andamento, a voz de Rice  continuava demasiado baixa e foi o próprio público a começar a pedir que lhe subissem os decibeis. Não será a forma ideal de interação entre banda e audiência, mas pelo menos demonstrou iniciativa comunitária.

“The Game”, “Happy”, “Palomino” e “The Drop” serviram assim também como período de negociação entre músicos, técnicos e uma plateia que queria simplesmente ouvir o homem que tinha esperado uma hora para cantar. Quando finalmente lhe deram espaço, Alex Rice mostrou por que razão tanta gente continuava ali.

A energia começou a encontrar o seu lugar e temas como “Bang Bang Bang”, “Here It Comes Again” e “M5” empurraram o concerto para aquele território onde os Sports Team parecem mais confortáveis: terceira a fundo em drift pelas curvas da Floresta Mágica.

A energia começou a encontrar o seu lugar e temas como “Bang Bang Bang”, “Here It Comes Again” e “M5” empurraram o concerto para aquele território onde os Sports Team parecem mais confortáveis: terceira a fundo em drift pelas curvas da Floresta Mágica.

A certa altura, meia dúzia de balões gigantes aparentemente vindos do submundo começou a circular sobre a plateia. Talvez uma homenagem ao senhor de Gondomar que garantiu ter visto centenas e centenas deles a serem lançados para o ar.

Em Baltar eram consideravelmente menos. Não virou um pandemónio e nenhuma habitação foi colocada em “perigo de vida”. Também não foram identificadas, até ao momento, pessoas globofóbicas como o conhecido humorista Nuno Markl. Saltavam entre mãos e cabeças num jogo de futvolei com centenas de jogadores e até provocaram a demonstração das habilidades futebolísticas (ou falta delas) de Alex Rice e Henry Young (guitarrista) que bateram nos balões com a qualidade de finalização do seu conterrâneo Harry Kane.

(c) Alexandre Correia

Alex dificilmente consegue parecer completamente quieto, mesmo quando está parado. A atuação tem aquela energia de pub britânico que está a uma bebida derramada de distância de partir para vias de facto, mas nunca perde o fio musical. Nem todos os membros, porém, parecem sentir a mesma urgência. No sintetizador, Ben Mack oferecia um espetáculo paralelo. Cabelo descolorado, os famigerados “óculos de cria” e uma camisola de manga à cava daquela marca desportiva que acaba com “ke”compunham uma imagem que sugeria que alguma coisa iria acontecer a qualquer momento.

A determinada altura, aconteceu precisamente o contrário. Mack estava sentado, sério, praticamente catatónico, enquanto à sua volta os restantes Sports Team continuavam o concerto como se alguém tivesse acabado de anunciar uma pequena emergência.

A expressão dizia: O meu está feito. Façam o resto. Só me ocorreu: C’mon lad! Dosomethin’! Não fez. E, de alguma forma, isso também resultou. Num palco onde Rice oferece bateria suficiente para abastecer várias pessoas, ter alguém com a energia de um funcionário público cinco minutos depois de terminar o turno cria um equilíbrio surpreendentemente saudável.

Também ajuda que os Sports Team façam música sobre coisas suficientemente mundanas para que qualquer pequeno acontecimento possa, potencialmente, tornar-se repertório.

Há autoestradas em “M5”, um amor incondicional com um Subaru Impreza em “I’m in Love (Subaru)” e, em “Fishing”, até a hipótese de comprar uma casa na costa portuguesa. Depois desta noite em Baltar, talvez seja prudente manter também a Côte d’Azur na pesquisa do Idealista. Não necessariamente por Portugal. Pelo sistema de som. Ainda assim, a banda saiu do país com matéria suficiente para uma futura canção.

Uma hora de espera, um vocalista a circular num carrinho de carga, uma audiência a pedir mais voz e balões demoníacos a sobrevoar uma floresta parecem precisamente o tipo de acontecimentos mundanos que os Sports Team poderiam transformar numa história sobre outra coisa qualquer.

Pelo meio surgiu ainda “Billy”, então inédita e com lançada a 7 de setembro. Baltar ouviu-a antes de chegar oficialmente cá fora. Um pequeno prémio para quem tinha sobrevivido até àquela hora. Rice também reservou um momento para elogiar os PAUS, prestes a despediremse dos palcos. Foi uma referência simples, mas particularmente adequada numa madrugada em que duas bandas em momentos muito diferentes dos respetivos percursos acabaram por se cruzar no mesmo festival.

E houve ainda o indispensável esforço diplomático. O “obrigado” de Alex Rice fica num respeitável 7/10. A pronúncia estava lá. A intenção também. Perde três pontos porque não segurava um pastel de nata, não tinha um casaco de burel vestido para o proteger da pouquíssima chuva que tinha caído antes do concerto e não tinha apanhado uma insolação durante o dia.

Quando chegaram “Camel Crew”, “Here’s the Thing”, “Kutcher” e o fecho com “Stanton”, a hora passada à espera já começava a pertencer a outra parte da noite. E esse é talvez o melhor elogio possível aos Sports Team. Tinham condições suficientes para que o concerto corresse mal. Era madrugada, tinham começado uma hora depois do previsto, os problemas de som sobreviveram ao próprio início e estavam perante uma audiência que tivera tempo suficiente para construir expectativas — ou simplesmente sono.

Mesmo assim, recuperaram a sala que não existia, porque isto era uma floresta. A certa altura havia balões gigantes no ar, Alex Rice finalmente fazia uso da voz pela qual todos tinham esperado, Ben Mack parecia ter terminado emocionalmente o seu dia de trabalho e o público participava numa desordem que, desta vez, estava exatamente onde devia estar.

Os Sports Team chegaram a Portugal cantando sobre as coisas mundanas da vida. Baltar fez a gentileza de lhes oferecer mais uma.