Em Baltar, os Them Flying Monkeys não se limitaram a tocar no palco Super Bock. A psicadelia ultra energética da banda rapidamente encontrou resposta no público, criando um pequeno furacão a poucos metros do palco, entre mosh pits, crowdsurfing, poeira e uma plateia entregue à “Beautiful Mess”.
O sapo de peluche, Mickey the Frog, que vai saltando de concerto em concerto encontrou em Baltar um furacão montado pelos Them Flying Monkeys. A entrada da banda anunciava o que estava por vir. O psicodelismo ultra energético instalou-se e começou desde cedo a empurrar o concerto para fora das quatro linhas do palco. Não era um mosh pit capaz de fazer corar os metaleiros de Vilar de Mouros, era algo bastante mais localizado: alguns metros diante do palco onde tudo parecia acontecer ao mesmo tempo.
Os motores ligariam quando um dos guitarristas abriu uma cratera no meio do público. “Les gens sont fous” largou a bandeira de partida para o mosh pit. Estavam abertas as hostilidades. Os indies responderam à energia da banda à sua maneira: sem dimensões épicas, mas com suficiente entusiasmo para transformar aquele núcleo da plateia numa massa compacta de corpos a correr, saltar e empurrar-se em euforia.

Baltar já tinha recebido em maio o shakedown do Rally de Portugal. Uns meses depois, os Them Flying Monkeys trouxeram-lhe uma sequela bastante mais modesta em cilindrada. Em vez de carros a fazerem o reconhecimento do percurso, havia festivaleiros a correr em círculo à volta de Luís Judícibus, que continuava no centro da ação, a cantar com uma voz suficientemente potente para não desaparecer no meio da confusão. Foi também ali, naquele epicentro, que o crowdsurfing acabou por se concretizar.
Os festivaleiros estavam possuídos pelo espírito motorizado do VW Carocha do Indie Music Fest e decididos a fazer peões na Floresta Mágica.
Nesta altura, o palco Super Bock era invadido por uma nuvem de poeira. Bastante mais artesanal que a provocada por Ivete Sangalo. Os festivaleiros estavam possuídos pelo espírito motorizado do VW Carocha do Indie Music Fest e decididos a fazer peões na Floresta Mágica. Os Them Flying Monkeys alimentam-se precisamente dessa sensação de que a música sai do palco, infiltra-se no público e regressa depois numa distopia sonora.

O psicadelismo da banda não ficou remetido a uma experiência contemplativa. Tinha corpo, movimento e uma componente física que se percebia tanto na atuação como nas respostas imediatas daquele núcleo junto ao palco. Até as crianças acabaram contagiadas. Algumas dançavam perante uma atuação cuja energia não precisava de lhes ser explicada nem traduzida. E esse talvez tenha sido um dos sinais mais interessantes: havia intensidade suficiente para gerar um mosh pit e crowdsurfing a poucos metros dali, mas o concerto nunca adquiriu uma agressividade que expulsasse quem estava fora daquele círculo.
O furacão tinha fronteiras. Quem queria entrar, entrava, quem estava alguns metros atrás podia simplesmente assistir. Essa diferença de escala é importante porque evita transformar os Them Flying Monkeys numa caricatura de violência sonora.
O que aconteceu em Baltar não foi uma plateia inteira convertida numa arena. Foi um pequeno grupo que respondeu à banda de forma particularmente física e intensificou a sensação de proximidade. O resto da Floresta Mágica continuava ali. Pessoas a circular, conversas, outros estímulos próprios de um festival, mas, durante aqueles 30 minutos, parecia existir uma comunidade autónoma governada por uma voz etérea.
Sem coroa de rei ou blazer de presidente, mas acompanhada por uma sonoridade que grita transcendência. Os Them Flying Monkeys não precisaram de transformar Baltar num gigantesco mosh pit. Foi uma “Beautiful Mess”.
