Iron Maiden & Anthrax em Lisboa: O Regresso Glorioso de Eddie e Not Man!
(c) Inês Silva

Iron Maiden & Anthrax em Lisboa: O Regresso Glorioso de Eddie e Not Man!

09/07/2026

Review

Iron Maiden
9/10
Anthrax
8/10
Som
9/10
Ambiente
9/10
Overall
8.8/10

Numa noite de heavy metal a fazer lembrar os tempos do Dramático de Cascais, os Iron Maiden e os Anthrax entregaram no Estádio da Luz uma certidão de vitalidade perante uma multidão de fiéis. Das múltiplas war dances à celebração dos anos dourados da besta, este foi um concerto de transmissão do legado musical entre múltiplas gerações.

Estávamos a 23 de Outubro de 1990 quando os Iron Maiden e os Anthrax se apresentaram ao vivo no Pavilhão do Dramático de Cascais. Os primeiros, na sua quarta passagem por Portugal, encontravam-se a promover “No Prayer for the Dying” (1990), o primeiro álbum com o guitarrista Janick Gers, que na altura, rendeu Adrian Smith. Já os segundos, estrearam-se nessa noite perante o público português com o álbum “Persistence of Time” (1990) na bagagem, o último trabalho da banda a contar com a voz de Joey Belladona até ao seu regresso em “Worship Music” (2011). Os concertos, naturalmente ficaram para a história, mas o que ficou certamente na memória dos que estiveram presentes no Dramático de Cascais foi uma sucinta mensagem na parte detrás do bilhete que dizia o seguinte: «A vinda a Cascais dos Metallica e Judas Priest ficará dependente de como forem tratadas as plantas do jardim, os comboios da CP e todo o património público no trajecto estação-pavilhão.»

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Ora, tendo em conta que os Metallica estrearam-se em Lisboa em 1993 com um concerto no Estádio José Alvalade e os Judas Priest em Cascais em 1991, tudo indica que o comportamento dos metaleiros antes do concerto dos Iron Maiden e Anthrax em 1990 foi exímio. Ainda assim, não deixa de ser um tesourinho caricato da extensa história de concertos que o Pavilhão do Dramático de Cascais viu nos anos 70, 80 e 90.

Quis então o destino que 36 anos depois os Iron Maiden e os Anthrax voltassem a reencontrar-se em Portugal. Desta vez, o ponto de encontro foi o Estádio da Luz, a maior “arena” de espetáculos do país. Numa noite de comunhão entre metaleiros tradicionais e thrashers e entre as mascotes Eddie e Not Man, celebrou-se não só o legado de duas bandas emblemáticas, mas também a vitalidade de uma subcultura.

Anthrax

Na estrada há sete semanas, os Anthrax chegaram a Lisboa com alguma desorientação geográfica. «Boa tarde Argentina!», soltou Joey Belladona. Mais à frente, ainda equivocado proferiu um «Argentina! Conseguem ouvir-me?» A serenidade do povo português não levantou grandes ondas, mas Scott Ian achou por bem deslocar-se ao ouvido de Belladona para corrigir a sua orientação. O vocalista lá acabou por reconhecer o erro, contudo não se livrou de um momento deveras caricato.

Mas, voltemos ao início. Com a entrada dos Anthrax em palco ficámos positivamente surpreendidos ao avistarmos Charlie Benante na bateria. O músico, parte da formação original da banda, alterna agora funções como baterista dos Pantera. Até então, as agendas estavam bem organizadas, mas neste verão deu-se uma sobreposição de datas e Benante acabou por ser substituído por Darby Tood. Com a tour de Pantera a apresentar alguns dias de folga, Benante conseguiu vir até Lisboa para participar no encerramento da tour dos Anthrax

Do primeiro ao último segundo, os Anthrax estiveram sempre em alta rotação. “Among the Living” deu o mote para os primeiros empurrões da noite com pequenos focos de mosh a surgirem em diferentes partes da plateia. Seguiu-se “Got The Time”, mais rápida, demonstrou que ao vivo os Anthrax continuam uma máquina de precisão bem oleada com Scott Ian, Frank Bello e Jon Donais a desferir cada riff com a mesma intenção de há 36 anos atrás.

“Madhouse” e “Caught in a Mosh” além de invocarem as vozes de alguns thrashers infiltrados entre os fãs da donzela de ferro, ainda trouxeram ao de cima uma das facetas icónicas dos Anthrax – a voz pontiaguda de Belladona.

“Madhouse” e “Caught in a Mosh” além de invocarem as vozes de alguns thrashers infiltrados entre os fãs da donzela de ferro, ainda trouxeram ao de cima uma das facetas icónicas dos Anthrax – a voz pontiaguda de Belladona. Enquanto todo este aparato sonoro decorria na frente de palco, na retaguarda dos músicos avistávamos um imponente muro de colunas Marshall bem à moda antiga. No campo das guitarras e baixo, Scott Ian alternou entre os seus modelos Jackson X Series Signature Scott Ian King V, Jon Donais recorreu à sua Dean Exile Jon Donais Signature e Frank Bello aos seus Spector NC-4 Frank Bello.

Já na segunda metade do concert0, “Medusa” aqueceu o ambiente para a novidade”It’s for the Kids”, o primeiro avanço de “Cursum Perficio” (2026), o primeiro álbum da banda em 10 anos. Mas as pilhas estavam longe de acabar, “Antisocial” e “Indians”, com a icónica war dance, ainda reservaram momentos de uma intensa descarga de energia. Já na despedida, os Anthrax foram brindados com cânticos de futebol numa demonstração de apreço para com a entrega da banda em cima do palco naqueles 50 minutos.

Iron Maiden

Nos últimos anos, os Iron Maiden têm trazido a Portugal diferentes tours de celebração onde o legado da banda é invocado como uma valiosa jóia da coroa inglesa. Foi assim com a Legacy of the Beast World Tour, que nos visitou em 2018 na MEO Arena e em 2022 no Estádio do Jamor, com setlists bastante variadas, e agora com a Run For Your Lives World Tour com passagem pela MEO Arena em 2025 e pelo Estádio da Luz em 2026. Desta vez, o alinhamento não sofreu grandes alterações, com a exceção de um tema.

Mas, afinal o que leva os fãs de Iron Maiden a continuarem a ir ver a banda ao vivo, ano após ano, quando as produções de palco são praticamete as mesmas e as setlists pouco rodam? A reposta é simples e divide-se em duas partes: por um lado temos o simbolismo de uma banda que acompanhou o desenvolvimento de múltiplas gerações de metaleiros e que toca fortemente nesse estado emocional que apelidamos de nostalgia, e por outro temos a incerteza em relação ao futuro e à continuidade da banda, levando a que os fãs procurem fugir ao fomo associado aquele que pode vir a ser o último concerto da banda em Portugal.

Mais habituados à maior arena fechada do país, desta vez os Iron Maiden tiveram a difícil tarefa de encher o Estádio da Luz. É verdade que isso não aconteceu, mas cerca de 45 000/50 000 pessoas compareceram na catedral para mais reunião convocada pelo tão acarinhado Eddie. Com o sol já para lá do horizonte soaram os primeiros acordes de “Doctor Doctor”, a derradeira chamada aos fãs que já acompanha os Iron Maiden há décadas e que coloca qualquer fã da banda em sentido.

Terminado o tema dos UFO eis que fomos transportados para um universo virtual que recria a Londres antiga onde os Iron Maiden tiveram a sua génese. Em revista passam locais emblemáticos como o Cart & Horses, o Ruskin Arms e outros que fazem parte do imaginário dos primeiros álbuns como a Rua Morgue ou o nº22 da Acacia Avenue. Quando a viagem termina, eis que a banda entra de rompante em palco para disparar precisamente “Murders in the Rue Morgue”. O som apresentou-se incrivelmente polido logo no imediato e assim se manteve até o final do concerto.

Na apresentação da tour, o subtítulo prometia uma viagem no tempo entre “Iron Maiden” (1980) e “Fear of the Dark” (1992) e a banda cumpriu-a com rigor ao tocarem de seguida “Wrathchild”, “Killers” e “Phantom of the Opera”, uma sequência que foi certamente um deleite para todos aqueles que têm na era Paul Di’Anno a sua época favorita da banda e que contou com a primeira aparição do Eddie gigante. 

Habituados a grandes cenários palpáveis e a panos temáticos que iam caindo na retaguarda do palco à medida que era interpretada uma determinada era da banda, mais uma vez, os Iron Maiden mostraram-se rendidos ao poder das novas tecnologias, ao substituírem todo esse aparato cénico artesanal por imponentes projeções de caráter imersivo.

A aparição prematura de “The Number of the Beast” estabeleceu o primeiro clímax da noite, com a pirotecnia que lhe é característica a estorricar os fãs que estavam posicionados no primeiro terço da plateia. Seguiu-se “Infinite Dreams”, a tal troca na setlist face ao concerto de 2025 e que rendeu “The Clairvoyant”. Porém, a escolha não foi a mais indicada. O espetáculo acabou por ter uma quebra considerável ao nível da dinâmica performativa e nem os 38 anos de ausência das setlists foram suficientes para manter a chama do público que, por breves instantes, acabou por se apagar ou aporveitou para carregar energia.

Iron Maiden & Anthrax em Lisboa: O Regresso Glorioso de Eddie e Not Man!
(c) Inês Silva

Tudo se restituiu com a entrada do segmento “Powerslave” (1984). As pirâmides, os cenários bélicos e a epopeia maritima deram cor e propósito à faixa título, a “2 Minutes to Midnight” e a “Rime of the Ancient Mariner”. Menos escondido, que o seu antecessor, Simon Dawson, mostrou alguma quebra de ritmo neste segmento. Por cansaço derivado da extensa tour ou por um mero descontrolo momentâneo nas fills icónicas que Nicko McBrain compôs, Dawson acabou por se recompor para a segunda metade do concerto.

Já o galope frenético, marca registada de Steve Harris, sentiu-se ao longo de toda a noite, mas num tema em particular sentimos que essa relação entre velocidade e técnica foi elevada ao expoente máximo. Em “Run to the Hills”, malha que dá o nome à tour, fomos claramente abalroados por um esquadrão de cavalaria composto por um único elemento: Stephen Percy Harris.

Iron Maiden & Anthrax em Lisboa: O Regresso Glorioso de Eddie e Not Man!
(c) Inês Silva

Já o galope frenético, marca registada de Steve Harris, sentiu-se ao longo de toda a noite, mas num tema em particular sentimos que essa relação entre velocidade e técnica foi elevada ao expoente máximo. Em “Run to the Hills”, malha que dá o nome à tour, fomos claramente abalroados por um esquadrão de cavalaria composto por um único elemento: Stephen Percy Harris. Já no campo da voz, Bruce Dickinson mostra que a passagem do tempo fez pouca moça. Ainda assim, apesar deste ter sido bastante meigo para o vocalista, existem certos momentos em que Bruce inteligentemente contorna certas notas para sair sempre por cima em qualquer situação.

Iron Maiden & Anthrax em Lisboa: O Regresso Glorioso de Eddie e Not Man!
(c) Inês Silva

Após uma morna passagem por “Seventh Son of a Seventh Son”, por aqui achamos que “The Evil That Men Do” teria sido uma melhor escolha, ou até mesmo “Bring Your Daughter… to the Slaughter” do esquecido “No Prayer for the Dying” (1990), os Iron Maiden devolveram novamente intensidade ao concerto com o ataque vertiginoso das guitarras de Dave Murray e Janick Gers em “The Trooper”, que contou ainda com a segunda e última aparição do Eddie gigante.

Para encerrar o set principal surgiram sem pedir licença as assombrosas “Hallowed Be Thy Name” e “Iron Maiden”, este último é considerado por muitos o hino de assinatura da banda. Vozes em uníssono levantaram-se para acompanhar nota a nota os riffs de guitarra que marcaram as fundações do heavy metal tradicional. Já no encore, o Estádio da Luz virou por instantes um cenário bélico com Spitfires a rondarem cada recanto do recinto. Já sabíamos que vinha aí “Aces High”, essa epopeia voadora que acabou por aterrar em “Fear of the Dark”. Mais discreto, por detrás dos seus óculos de sol durante todo o concerto, Adrian Smith teve o seu momento de verdadeiro protagonismo na derradeira “Wasted Years”. Guitarra, voz, ação! Não é por acaso que este tema ficou para o fim. Afinal, os anos dourados dos Iron Maiden não ficaram lá para trás, são exatamente estes que estamos a testemunhar na Run For Your Lives World Tour. Os Maiden sabem que o tempo corre, não anda e ele é quem manda, então preferem entregar tudo em cada concerto como se não houvesse amanhã. Da nossa parte, além do reconhecimento, só pode vir um sentido obrigado. Up the Irons!