Na sua segunda passagem por Portugal em menos de um ano, os Jinjer voltaram a ser recebidos numa apoteose colossal. Perante um LAV esgotado, a banda ucraniana apresentou a sua produção mais ambiciosa onde som e imagem cruzaram-se numa relação simbiótica. A abrir a noite estiveram dois pesos pesados do metal progressivo: os holandeses Textures e os alemães Unprocessed.
Presença assídua nos palcos nacionais, os Jinjer têm em Portugal uma das suas bases de fãs mais leais. Após duas passagens como banda de suporte e em festival, a banda ucraniana regressou agora ao LAV- Lisboa Ao Vivo, sala onde tinham feito a sua estreia em Lisboa em 2022. Apesar da sua recente passagem pelo EVIL LIVE a correria aos bilhetes foi intensa, com o concerto a esgotar com alguma antecedência. Porém, os Jinjer foram apenas um dos motivos para que isso acontecesse. A estreia em Lisboa dos Textures e dos Unprocessed, duas propostas no campo do metalcore progressivo também contribuíram para esse feito.
Textures
Referência do djent e da sua fusão com o metalcore progressivo, os Textures são das bandas com maior precisão e rigor performativo. Num processo quase mecanizado, os riffs saem como um produto industrial em série enquanto a bateria nos dita a métrica do headbang.
Após um hiato de seis anos, estão agora de regresso aos álbuns com “Genotype” (2026), um trabalho que se encontra conceptualmente ligado a “Phenotype” (2016). Apesar da sua posição adiantada no cartaz, os Textures trouxeram até ao LAV muitos dos seus fãs, alguns deles, certamente, a ver a banda pela primeira vez. A agitação no mosh pit logo em “Closer to The Unknown” revelou que o público não iria ser apenas um espectador passivo.
A articulação entre peso e melodia foi uma constante ao longo actuação. Daniël de Jongh demonstrou robustez e caráter vocal tanto na voz melódica como nos guturais em “New Horizons”, Uri Dijk criou um ambiente atmosférico com as suas camadas sintetizadas em “Timeless”, Remko Tielemans apresentou um baixo pulsante bem presente na mistura em “Measuring the Heavens”, Joe Tal e Bart Hennephof trocaram riffs intricados em “Singularity” e Stef Broks entregou-se às polirritmias com uma mestria ímpar em “Laments of an Icarus”.
Unprocessed
Provenientes de outro espectro do metalcore progressivo, os alemães Unprocessed são uma das mais recentes revelações do metal moderno. Donos de uma proficiência técnica invejável, onde melodias com sensibilidade pop se cruzam com riffs matemáticos e breakdowns desconcertantes, os Unprocessed são neste momento um dos principais projetos a ter em atenção.
A banda alemã é liderada pelo vocalista e guitarrista alemão (com descendência portuguesa) Manuel Gardner Fernandes, um prodígio da guitarra que inevitavelmente gera comparações com Tim Henson pela sua técnica de dedilhado e de tapping. Mas, tudo se dissipa quando a moldura sonora se desenrola em composições onde agressividade e emoção se fundem em momentos musicais de profunda beleza auditiva.
“111” abriu o concerto como um cartão de apresentação de todos os elementos que representam a sonoridade híbrida dos Unprocessed. Naquele instante os que ainda não conheciam o projecto ficaram automaticamente rendidos ao magnetismo proveniente das guitarras de oito cordas e da textura vocal de Manuel.
“Thrash”, “Glass” e “Sacrifice Me” invocaram as referências sonoras de Polyphia. Padrões de guitarra intrincados com recurso a dedilhados, tapping e harmónicos numa execução veloz e sem espaço para imperfeições. Já “Snowlover”, “Solara” e “Terrestrial” mostraram que os Unprocessed também vão beber ao djent com riffs mais glitchy e repletos de chugs.
Numa nota final, temos ainda que destacar uma das guitarras que Manuel utilizou no concerto. O músico alemão já faz parte do respeitado catálogo de artistas da Ibanez. Mas, como se isso não bastasse, Manuel conseguiu ainda entrar no restrito leque de artistas da marca com guitarras de assinatura. A MGFM10 é o modelo que o músico desenhou em conjunto com a Ibanez e que surgiu em grande destaque ao longo do concerto. Trata-se de uma guitarra de seis cordas, sem cabeça, com pickups Ibanez Q58 e uma ponte Ibanez Mono-Tune.
Jinjer
Não era um regresso há muito esperado, pois estiveram por cá no verão de 2025, mas foi um regresso muito saudado. Os Jinjer são um autêntico fenómeno de popularidade no nosso país, um aspeto bastante curioso se tivermos em conta que uma das maiores comunidades imigrantes em Portugal é a ucraniana.
Mas, afinal de contas de onde é que vem toda esta popularidade? É certo que não existe uma resposta exacta, mas uma das principais razões poderá ser o despontar da guerra da Ucrânia em 2022. Na altura, o povo português mostrou-se extremamente solidário para com o país. No caso dos metaleiros essa conexão com o povo ucraniano veio precisamente através dos Jinjer que, desde cedo, mostraram todo o seu desalento e tristeza para com o conflito geopolítico da sua terra natal. Desta forma, os Jinjer passaram a usar a sua exposição pública para transmitir uma mensagem de esperança e de bravura nos seus concertos. Em Portugal pudemos testemunhar essa fibra ucraniana quando os Jinjer se apresentaram no LAV em 2022 para um concerto profundamente simbólico e emotivo.
Passados quatro anos, a banda de Donetsk regressou agora ao LAV para um concerto onde a componente política não foi sequer tema. É certo que a guerra ainda perdura, mas talvez os ucranianos estejam mais optimistas em relação ao fim do conflito num futuro próximo.
A noite foi de emoções mais leves com o novo álbum “Duél” (2025) a receber honras de protagonista. Até então, os Jinjer nunca tinham apostado numa produção de palco mais trabalhada, limitavam-se a tocar com um grande pano por trás a exibir o nome e o logo da banda com as cores da bandeira ucraniana. Mas, desta vez, e face a esse crescimento de popularidade, o grupo sentiu que estava na hora de elevar o seu espetáculo com um conjunto de projeções a acompanhar cada música do concerto.
Já no departamento instrumental, Roman Ibramkhalilov, Eugene Abdukhanov e Vladislav Ulasevich ligaram os motores e mal entraram em combustão, nunca mais abrandaram. Em palco os três músicos apresentam-se sempre muito contidos, mas, em contrapartida oferecem-nos prestações seguras onde a execução técnica é levada ao extremo.
“Duél” abriu a setlist como uma rajada. Tatiana Shmayluk entrou em palco com um vestido digno de uma boneca de porcelana. Elegante e imponente, a vocalista faz questão de apresentar figurinos que se apresentem num registo dicotómico da sua performance vocal. Já no departamento instrumental, Roman Ibramkhalilov, Eugene Abdukhanov e Vladislav Ulasevich ligaram os motores e mal entraram em combustão, nunca mais abrandaram. Em palco, os três músicos apresentam-se sempre muito contidos, mas, em contrapartida oferecem-nos prestações seguras onde a execução técnica é levada ao extremo.
O jogo de projeções que os Jinjer trouxeram para esta tour proporcionou ao concerto uma dinâmica mais fluida e atrativa. “Green Serpent”, o segundo tema da noite, articulou luzes verdes com imagens de serpentes a rastejar, já “Kafka” mais à frente, levou-nos para o universo do escritor checo. Nestes dois temas houve momentos em que o visual ofuscou o sonoro, noutros foi ao contrário, como foi o caso das mais esgalhadas “Fast Draw” e “Tantrum”. Longe de serem uma banda de grandes singalongs, os Jinjer jogam essa cartada em temas que já fazem parte do repertório clássico da banda, como é o caso de “Teacher, Teacher!” e “Judgement (& Punishment)”.
No entanto, não foi só na componente vocal que o público disse presente. À medida que choviam riffs de malhas como “I Speak Astronomy” e “Rogue” foram muitos os corpos que não deram tréguas aos seguranças numa retribuição da energia que vinha do palco. Numa das suas poucas intervenções, Tatiana anunciou que “Pisces” seria o último tema da noite, procedendo depois aos habituais agradecimentos. De regresso para a derradeira hecatombe sonora, a banda sacou “Sit Stay Roll Over”. Um último jogo do empurra a virar a sala do avesso ajudou a colocar um ponto final em mais uma prestação sólida da banda ucraniana no nosso país. Slava Ukraini! Slava Jinjer!

































































































