Jungle: “Sunshine” soa a pele quente e noites longas

16/08/2026

O trio londrino Jungle lançou “Sunshine”, o seu quinto álbum de originais, através da Caiola Records, em parceria com a AWAL.

por Alexandre Correia

O nascer do sol dos Jungle aconteceu às 00h00 no dia 14 de agosto. Três anos depois de “Volcano” (2023) ter impulsionado a banda para o BRIT Award de Grupo do Ano e criado o êxito mundial “Back On ’74”, Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland confirmam, em 2026, o que sabem fazer de melhor.

“Sunshine” foi anunciado a 24 de março, com “Carry On” a estrear-se como Hottest Record da BBC Radio 1, um single que dá espaço à voz de Lydia Kitto, sobre uma produção brilhante e um registo mais confessional. Seguiu-se “The Wave”, em maio, e “Someday, Somewhere”, em julho, cuja letra Kitto descreveu como a tentativa de segurar a sensação de que algo melhor está para vir.

É um traço recorrente em “Sunshine”, uma tensão constante entre euforia e melancolia que abraça a nostalgia.

Em “The Wave”, essa procura mergulha nas águas profundas da sonoridade criada no final dos anos 50 na Zona Sul do Rio de Janeiro e que se proliferou nas duas décadas seguintes. Um período particularmente fértil, em que a bossa nova já tinha transformado o samba e novas ondas musicais começavam a alargar as fronteiras da MPB.

Mais contida e intimista, guitarra dedilhada, síncope discreta, harmonias sofisticadas e uma interpretação quase sussurrada. Algo deste imaginário permanece em “The Wave”, no groove contido, nas harmonias quentes e numa sensação de praia e de tempo suspenso.

Não é a primeira vez que a banda vai buscar inspiração fora do eixo britânico-americano, mas é talvez o momento em que essa referência está mais à vista, um aceno direto a uma tradição que, tal como os Jungle, sabe transformar melancolia em groove.

Disco, soul, boogie, Brasil e aquela melancolia que a banda continua a camuflar com músicas feitas para enfeitiçar o corpo e fazê-lo mexer até ao nascer do sol.

Lydia Kitto tornou-se, em 2023, parte da banda a «tempo inteiro» e “Sunshine” é a primeira «galeria sonora» concebida pelo trio.

As primeiras reações convergem precisamente aqui. Para a Rolling Stone UK, “Sunshine” é demasiado confortável, um disco de uma banda que conhece a sua fórmula e raramente se afasta dela. No lado oposto, há quem veja nessa coesão a sua força, grooves mais apertados, Kitto cada vez mais central e uma segurança que transforma familiaridade em identidade.

Em “Move Like You Do”, o elastic bass assume a batuta. Encontramos aqui um lugar confortável para viajarmos até à época em que a disco começava a transformar-se em boogie, a pulsação sintética de “Let’s Groove”, dos Earth, Wind & Fire, a precisão física de “Good Times”, dos Chic, ou o baixo irrequieto de “Forget Me Nots”, de Patrice Rushen.

“Where Are You Now?” abranda antes de explodir num refrão mais hínico, “Romeo II” recupera diretamente “Romeo”, de Loving In Stereo, novamente com Bas.

Os Jungle voltam a dar que falar com a estreia do álbum visual de “Sunshine”, disponível para quem adquiriu o Film Pass na loja oficial da banda. A prática não é nova, já tinha acompanhado o lançamento de “Volcano”, e reforça algo que as críticas ao disco sublinham, a música dos Jungle foi sempre pensada também para ser vista, com um imaginário visual tão cuidado quanto a produção sonora.

A digressão que acompanha o álbum arranca em setembro e estende-se por 2026 e 2027, com paragens na América do Norte, Europa e Austrália, e os RIO KOSTA como banda de abertura. Em Portugal, a data já está marcada, 24 de outubro de 2026, na MEO Arena, em Lisboa, com abertura de portas às 18h30 e início do concerto às 20h00.

“Sunshine” não muda a órbita dos Jungle. Afina-a. Josh Lloyd-Watson, Tom McFarland e Lydia Kitto sabem exatamente onde querem que a luz incida. Disco, soul, boogie, Brasil e aquela melancolia que a banda continua a camuflar com músicas feitas para enfeitiçar o corpo e fazê-lo mexer até ao nascer do sol.