Teatral, irreverente e marcante, assim foi a estreia de Kim Dracula em Portugal. O músico australiano apresentou-nos um espetáculo que desafiou as fronteiras entre a sanidade e a loucura e provou que a esquizofrenia musical presente nas suas composições traduz-se perfeitamente no formato ao vivo.
A vinda de artistas emergentes como cabeça de cartaz ao nosso país é algo que deve ser sempre enaltecido. Afinal de contas, Portugal é um mercado periférico no circuito europeu de concertos e Kim Dracula ainda não lançou o seu segundo álbum para confirmar o seu estatuto enquanto possível sucessor de um Marilyn Manson. Ainda assim, a Free Music decidiu arriscar e acabou por sair vitoriosa. É certo que a República da Música não esgotou, mas apresentou uma casa muito bem composta para receber este artista que veio literalmente do outro lado mundo.
Nascido na Tâsmania, Samuel Wellings, mais conhecido como Kim Dracula, iniciou a sua carreira a solo em 2020 a fazer covers metal de músicas pop/pop rock para o Tik Tok. Tudo começou com “Paparazzi” de Lady Gaga, com a cover a ficar rapidamente viral e a chegar às seis milhões de visualizações no youtube e treze milhões de reproduções no Spotify. Mas, não tardou para que Kim sentisse necessidade de extravasar a sua criatividade em temas originais. “Make Me Famous” e “Drown” levantaram o véu do potencial que Dracula dispõe para compor músicas disruptivas. É difícil compreender de onde é que vem toda aquela esquizofrenia musical que resulta numa amálgama harmoniosa de sonoridades, mas, talvez os pronomes ele/eles utilizados por Kim podem ajudar a explicar alguns traços dessa fonte criativa.
Já com o seu álbum de estreia “A Gradual Decline in Morale” (2023) cá fora, Kim foi então à conquista do mundo e desde então nunca mais parou. Agora aterrou em Portugal, um país onde a moral parece estar mesmo a declinar-se. Mas, parece que o artista trouxe consigo um remédio santo. Afinal de contas, não há nada melhor que uma boa dose de loucura para curar alguns males.
Vowws
Também do outro lado do mundo vieram os Vowws. Apesar de serem australianos, os dois músicos que compõem a banda, Matthew “Matt” James Campbell na voz e guitarra e Arezo “Rizz” Khanjani na voz e teclados, estão sediados em Los Angeles. A banda descreve o seu estilo como Death Pop, mas existem várias elementos na sua música que remetem para o universo do rock industrial e da eletrónica.
Após terem partilhado palcos com nomes como Gojira, Deftones e Poppy, agora embarcaram numa tour com Kim Dracula de promoção ao seu mais recente trabalho “I’ll Fill Your House With An Army” (2025). Apesar da República da Música já estar bem composta para os ver, a recepção foi algo tímida. A componente eletrónica utilizada pelo grupo é muito noisy e muito arrastada transformando assim a atuação em algo monótono e pouco convidativo ao balanço dos corpos.
Kim Dracula
Foi por entre o público que Kim Dracula surgiu como uma espécie de fugitivo clandestino. Já em palco colocou à mostra a sua farda militar com alamares e deu início ao espetáculo que se desenrolou num misto entre um freak show e um concerto. “Land of the Sun” abriu o concerto com a primeira amostra da mixórdia sonora patente nas composições de Kim Dracula. Do metal à música de elevador, passando pela música caribenha, Kim consegue fazer com que tudo funcione. Mas, mais impressionante é a forma como o artista explora a sua capacidade vocal alternando screams, voz melódica e gutural sem criar discrepâncias nos registos.
Do metal à música de elevador, passando pela música caribenha, Kim consegue fazer com que tudo funcione. Mas, mais impressionante é a forma como o artista explora a sua capacidade vocal alternando screams, voz melódica e gutural sem criar discrepâncias nos registos.
Seguiu-se “My Confession”, uma malha que navega entre o funk, a eletrónica e o trap. Decifrar as influências de Kim não é fácil, mas algumas são inquestionáveis como é o caso de Marilyn Manson, onde vai buscar muito da sua teatralidade, mas também daquele grave vocal. Já na vertente do gutural ritmado e nos refrões existem várias referências ao registo de Jonathan Davis dos Korn. Por sua vez, nas partes trap parece que o seu flow e textura vocal vão beber a Ghostemane.
Ao longo do concerto, Kim foi preenchendo a sua setlist com várias covers, algumas mais ou menos caricatas. A primeira surgiu como uma homenagem à maior banda de metal australiana, os Parkway Drive, na forma de “Romance Is Dead”. De seguida apresentou “The Bard’s Last Note” de Ricky Desktop, um criador de conteúdos musicais que se tornou viral no Tik Tok.
“Superhero” e “Drown” dois dos singles de “A Gradual Decline in Morale” elevaram as vozes dos fãs que estavam a assistir ao concerto numa dinâmica quase de culto. O público, mais focado em seguir o espetáculo com atenção que propriamente iniciar um mosh pit, não se mexeu nem um pouquinho com as blast beats e os guturais/ squeals de “Industry Secrets” e “Reunion and Reintegration”.
Além da componente teatral, existe também toda uma componente de comédia, por vezes até na sua forma musical. A cover de “Even Flow” dos Pearl Jam revelou ser um desses momentos onde o inesperado e a discrepância com o resto do repertório cria um momento caricato. Mais à frente, a cover de “Paparazzi” de Lady Gaga já foi recebida de forma mais séria não só pela interpretação que Kim dá ao tema, mas também pelo simbolismo que tem na sua carreira.
https://www.youtube.com/watch?v=NoKJ8HLcUZA
“Seventy Thorns” tema jazz/power metal/ rap que conta com a colaboração de Jonathan Davis trouxe um tabuleiro de xadrez para o palco. Kim sentou-se para jogar consigo próprio enquanto ouvíamos Davis a entoar o refrão através do PA. Já “SAY PLEASE!” mostrou-nos que Kim não procura esconder nenhuma fase do seu repertório. O músico continua a abraçar os seus temas que remetem para a cena trap metal do soundcloud e os fãs também respondem com aprovação e participação ativa.
Um pouco escondido lá atrás na escuridão, mas crucial para o som de Kim Dracula é o seu saxofonista Austin Gatus, que também teve o seu momento de brilho e comicidade quando sacou a icónica melodia de “Careless Whisper” de George Michael. Mais à frente foi a vez do guitarrista tocar a melodia da “Smooth” de Carlos Santana. Escusado será dizer que os dois momentos levantaram várias gargalhadas antes de “Make Me Famous” encerrar o concerto.
Mas, o encore já estava na calha. “In Threes” e “Killdozer” foram as derradeiras músicas de um espetáculo que, apesar de apresentar uma produção minimalista, agarrou-nos do princípio ao fim como um thriller repleto de suspense. Agora, só o tempo dirá se Kim Dracula tem pergaminhos para se manter revelante, mas, uma coisa é certa, o artista da Tasmânia já carimbou o seu lugar nas fileiras desse género tão peculiar que é o shock rock.