Intensa, Imprevisível e Inesquecível, assim foi a passagem dos King Gizzard & the Lizard Wizard pelo Coliseu dos Recreios. A AS esteve nas duas primeiras noites da Europe Residency Tour 2025, tendo testemunhado duas performances distintas, repletas de proficiência técnica, perante um público nacional e internacional em êxtase do princípio ao fim.
Quando pensamos em residências artísticas, a nossa mente vai automaticamente para Las Vegas, nos EUA. Salas como o The Colosseum no Caesars Palace ou a nova Sphere têm sido paragem obrigatória para músicos/bandas consagradas e/ou em final de carreira que procuram rechear ainda mais a sua conta bancária ou dar um boost a uma carreira estagnada. Aqui a ideia é simples, os artistas assentam arraiais numa única cidade e são os fãs que vão ao seu encontro. Residências como aquelas que encontramos em Las Vegas podem durar alguns meses ou até vários anos, tudo depende da procura.
No entanto, no caso dos King Gizzard & the Lizard Wizard, as regras do jogo foram ligeiramente alteradas. Em vez da banda se fixar numa única cidade, decidiu antes organizar uma “residência itinerante” com passagem por cinco países, sendo que em cada país a banda australiana actua três vezes. A juntar a este novo formato, o conjunto de Melbourne ainda foi mais perspicaz ao selecionar um conjunto de países europeus periféricos (Portugal, Espanha, Lituânia, Grécia e Bulgária) ao invés daqueles países cliché que compõem o núcleo da Europa central e de quase todas as tours. Como se isso não bastasse, e fruto da sua vasta discografia que já contabiliza vinte sete álbuns editados ao longo de apenas quinze anos, a banda ainda se predispôs a apresentar uma setlist totalmente diferente em cada concerto da residência.
Quanto à escolha de Portugal para iniciar esta Europe Residency Tour 2025, essa não foi de todo uma surpresa, afinal de contas a banda sempre demonstrou todo o seu apreço e carinho para com os fãs portugueses em todas as suas passagens por cá ao longo dos últimos onze anos. Sem pisarem um palco na capital desde 2015, a banda decidiu assim que este era o mote ideal para o seu regresso a uma cidade onde já foram muito felizes.
18/05/2025 – Do Thrash Metal ao Blues Rock
«Com o crescimento em magote dos esquisitos, temos que trabalhar no duro para manter a nossa comunidade inclusiva. O mosh pit é um espaço seguro para novos, velhos, grandes, pequenos e pessoas de todos os géneros. Se vires algum otário, alerta os seguranças. Tomem conta uns dos outros e sejam vocês próprios.» Foi com esta mensagem, invocada profeticamente numa noite eleitoral que se revelou trágica, que os King Gizzard & the Lizard Wizard tranquilizaram os fãs mais céticos perante a agitação do mosh, momentos antes de subirem a palco para virar o já esgotado Coliseu dos Recreios do avesso.
Sem música de abertura, a banda entrou em palco sem dar espaço a qualquer suspense. «Este sítio é gigante!», proferiu Stu Mackenzie ainda antes de arranhar qualquer acorde. «Como é que é Lisboa? Primeiro concerto da tour. Lembro-me quando viemos aqui tocar há dez anos e de pensar que nunca tocaríamos nesta sala.» – na verdade Stu fez referência ao primeiro concerto da banda em Portugal, que decorreu no Vodafone Mexefest 2014, um festival de outono que decorria em várias salas ao longo da Avenida da Liberdade. Nessa edição, os King Gizzard & the Lizard Wizard atuaram na Garagem Epal, ali bem ao lado do Coliseu.
Já com as Gibson Flying V e Explorer a tiracolo rapidamente percebemos que a banda iria começar o concerto com o pé no acelerador e a invocar os seus álbuns mais pesados e frenéticos – “Infest the Rats’ Nest” (2019) e “PetroDragonic Apocalypse” (2023). As furiosas “Mars for the Rich” , “Converge” e “Witchcraft” convocaram as primeiras agitações na plateia com muito jogo do empurra e corpos a surfar. No palco uma banda profundamente segura e coesa dava uma lição de como servir thrash metal primitivo a um público que tem tanto de mainstream como de underground.
No palco uma banda profundamente segura e coesa dava uma lição de como servir thrash metal primitivo a um público que tem tanto de mainstream como de underground.
Mestres na arte de criar diferentes picos energéticos ao longo da sua performance, os King Gizzard partiram para um momento de menor intensidade energética com a bluesy “Antarctica”. Num teletransporte do thrash à la Bay Area para o blues rock sulista, fomos levados numa viajem por várias geografias musicais sem nunca sair de Lisboa. Os riffs endiabrados deram lugar a longas secções solísticas. Já em “Ice V” houve espaço para um groove psicadélico acentuado por uma intervenção no saxofone do multi-instrumentista Ambrose Kenny-Smith.
Com várias influências das músicas do mundo no seu repertório, “Gamma Knife” trouxe apontamentos do canto gutural mongol aliado a um psicadelismo pegajoso. Stu Mackenzie viu o seu som de guitarra sofrer de cortes de sinal devido a um problema com a sua pedaleira. Mas, tudo se resolveu num ápice e caiu no esquecimento quando no break da malha os fãs se sentaram no chão do Coliseu para remar, uma coreografia popularizada nos concerto da banda sueca de death metal melódico Amon Amarth.
“People-Vultures” e “Mr. Beat” despacharam a senda psicadélica de “Nonagon Infinity” (2016) para voltar a dar espaço para o blues brilhar em “Daily Blues”, “Field of Vision” e “Boogieman Sam”. Com Ambrose Kenny-Smith mais uma vez em destaque, desta vez na harmónica, a banda mostrou que o balanço da música de raiz americana também lhes corre nas veias. Já na reta final do concerto, e com o aproximar das duas horas de atuação, ainda houve tempo para a rajada indie psicadélica de “Slow Jam 1” e “Am I in Heaven?”.
Para o fim, ficou reservado o regresso da selvajaria thrash. Com um pequeno solo de bateria de Michael “Cavs” Cavanagh como intro e um Stu Mackenzie num ato de loucura a rapar o cabelo em palco, a banda atirou-se a “Self-Immolate”. Na plateia um circle pit enorme transformou o Coliseu num pequeno tornado de corpos suados sedentos por uma última dança. «Vemo-nos amanhã!», disse a banda perante uma chuva de aplausos de um culto de fãs que cada vez mais se aproxima do conceito de um Deadhead.
Setlist: “Mars for the Rich”/”Converge”/”Witchcraft”/”Antarctica”/”Ice V”/”Gamma Knife”/ “People-Vultures”/”Mr. Beat”/”Daily Blues”/”Field of Vision”/”Boogieman Sam”/”Slow Jam 1″/”Am I in Heaven?”/”Self-Immolate”
19/05/2025 – Das Jams ao Metal Progressivo
Com uma menor afluência face ao dia anterior, algo expectável por ser dia de semana, os King Gizzard & the Lizard Wizard regressaram ao Coliseu dos Recreios para o seu segundo concerto da residência. Como prometido, a banda não fotocopiou a setlist da primeira noite. Ciente da quantidade de fãs que compraram o “passe” de três dias, a banda foi em busca de um alinhamento que explorasse outras sonoridades que também se revelam uma imagem de marca do seu vasto catálogo.
O thrash, apesar de surgir aqui e ali, deu lugar ao metal mais progressivo e arrastado e o blues a extensas jams psicadélicas. «Quem veio ontem?», questionou Stu logo após entrar em palco. Com base na resposta sonora, foram muitos os que regressaram ao Coliseu, talvez até mais estrangeiros do que portugueses a julgar pelas várias conversas em inglês, francês, etc. que ouvíamos à nossa volta.
“Iron Lung” foi a escolhida para dar o pontapé de saída. A malha que se desenrola entre o jazz de fusão e o rock progressivo desdobrou-se numa intensa jam que se prolongou por cerca de 30 min, cerca de 1/4 do concerto. Estava assim dado o mote para mais uma noite de música transcendental. “Hypertension” manteve a componente progressiva, mas com uma riqueza ao nível dos poliritmos. Um deleite para qualquer fã de Zappa ou King Crimson.
Por esta altura, já íamos quase a meio do concerto e ainda só tínhamos escutado duas músicas. Desta forma, não é de estranhar que o resto do set tenha passado com alguma fugacidade.
Ao vivo algum repertório dos King Gizzard & the Lizard Wizard parece ganhar uma dureza e ferocidade que não se verifica tanto nos álbuns. O rock ‘n’ roll bem disposto de “This Thing” surgiu colado à destruidora “Supercell”, mas não pareceu de todo deslocada, pois foi lhe injetada uma boa dose de adrenalina. Mestres da fusão, “Dragon” manteve o mosh pit bem quentinho com o seu thrash metal “psicadélicoprogressivo”.
Para os fãs daquele headbang mais arrastado “K.G.L.W.” foi certamente um dos momentos altos do concerto. A malha, que apresenta no seu ADN várias referências a Tool, fez estremecer os alicerces do Coliseu com os seus riffs bem doomy e atmosféricos. E, por falar em doom, o que se seguiu foi precisamente “Doom City”. Numa articulação perfeita entre esse subgénero de metal e a música microtonal, a banda demonstrou a riqueza sonora dos quartos de tom, um mundo ainda muito pouco explorado na música ocidental. Por sua vez, “Nuclear Fusion” manteve-nos agarrados ao exotismo sonoro que o material de “Flying Microtonal Banana” (2017) emana.
À saída muitos comentavam que esta tinha sido ainda melhor que a primeira noite. Talvez não tão agitada, mas mais imersiva.
“Evil Death Roll” trouxe de volta o psicadelismo puro e duro numa transição para o álbum mais representado da noite. Se na primeira noite esse estatuto foi repartido entre “Flight b741” (2024) e “Nonagon Infinity” (2016), na segunda noite foi “Murder of the Universe”(2017) que teve essa honra com a “Suite 3: Han-Tyumi and the Murder of the Universe” a ser tocada quase na integra. “Digital Black”, “Han-Tyumi the Confused Cyborg”, que num concerto dominado por projeções psicadélicas surgiu como uma lufada de ar fresco ao mostrar o monólogo que acompanha a malha, “Soy‐Protein Munt Machine”, “Vomit Coffin” e “Murder of the Universe” hipnotizaram os ouvidos de todos os fãs antes do groove de “Le Risque” colocar um ponto final no concerto.
«Vemo-nos amanhã!», foi o que bastou ouvir nas despedidas para tamanha falta de palavras em mais uma noite memorável. À saída muitos comentavam que esta tinha sido ainda melhor que a primeira noite. Talvez não tão agitada, mas mais imersiva.
Setlist:”Iron Lung”/”Hypertension”/”This Thing”/”Supercell”/”Dragon”/”K.G.L.W.”/”Doom City”/”Nuclear Fusion”/”Evil Death Roll”/”Digital Black”/”Han-Tyumi the Confused Cyborg”/”Soy‐Protein Munt Machine”/”Vomit Coffin”/”Murder of the Universe”/”Le Risque”
O Gear de Reis e Lagartos
Quando falamos em King Gizzard & the Lizard Wizard, é impossível não falarmos da panóplia de gear que a banda leva para a estrada para poder executar as suas composições de forma fidedigna. Para cada espectro sonoro a banda recorre a material com variadas especificações que servem única e exclusivamente um propósito. No campo das guitarras, Stu Mackenzie e Joey Walker alternaram entre diversos modelos. Para o repertório thrash metal a escolha recaiu em Gibsons, uma Holy Explorer e uma Flying V. Para o resto do repertório a escolha foi bastante variada com vários modelos de boutique como é o caso das Novo IDRIS S3 e Serus P2, esta última a surgir nas mãos do também teclista Cook Craig, mas também uma Godin Dorchester HG e uma SG estilo Travis Bean. Já o baixista Lucas Harwood alternou entre dois Serek Midwestern. No campo dos amplificadores Walker recorreu a um Fender Hot Rod DeVille 212 III 60W e a um Hiwatt Custom 50W. Já Stu e Craig utilizaram ambos SUPRO Amulet 1×12. Por sua vez, Harwood utilizou um Hiwatt Custom 200 e um combo Ampeg. Já no âmbito das teclas, Ambrose Kenny Smith alternou entre um Nord Stage 4 e um Moog Matriarch e Cook Craig entre um Nord Stage e um Roland Juno. Por último, Michael “Cavs” Cavanagh deslumbrou no seu kit C&C de bombo duplo num acabamento em acrílico azul, bem ao estilo das míticas Ludwig Vistalite.






























































