Em noite de celebração da velha guarda, os Kreator provaram, mais uma vez, o seu estatuto como banda de thrash de arena. Na estreia de uma nova produção demoníaca, os germânicos apostaram num espetáculo que articulou a sua típica cenografia infernal com apontamentos mais teatrais. Consigo trouxeram ainda um contingente composto pelos veteranos do thrash e do death metal, Exodus e Carcass, e ainda o nome cimeiro do powerviolence contemporâneo, os Nails.
Fora do panorama das big four (Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax) poucas foram as bandas de thrash metal que conseguiram furar o circuito dos clubes e dos teatros para se tornarem num headliner de arena. Se não nos falham as contas temos apenas o caso dos Machine Head e destes Kreator. Todas as outras bandas de referência, como é o caso dos Exodus, dos Testament, dos Overkill ou dos Death Angel, têm passado por essas salas, mas sempre como bandas de suporte. Aliás, até os Anthrax, considerados como parte das big four, não têm amplitude para fazer uma tour completa de arenas.
No caso dos Kreator, esse estatuto explica-se com base na consistência que a banda alemã tem apresentado desde a viragem do milénio. Desde “Violent Revolution” (2001), o primeiro álbum com o guitarrista solo Sami Yli-Sirniö, os Kreator nunca mais lançaram um mau álbum. O thrash frenético que tinham desenvolvido nos anos 80 passou a dar lugar a um thrash mais épico e melódico, desenhado precisamente para ser tocado em espaços como a Sala Tejo. O mais recente “Krushers of the World” (2026), que dá o mote à tour, não foge a esse registo, inclusive traz uma abordagem instrumental por vezes mais próxima do death metal melódico.
Nails
Quando chegámos à Sala Tejo, o concerto dos Nails já se encontrava a decorrer. Com o seu início previsto para as 18:20 a um dia de semana esperava-se que a sala estivesse ainda despida, mas para nossa surpresa, deparámo-nos com uma moldura humana já considerável. De todas as bandas do cartaz, os Nails surgiram em representação da “nova geração”. É certo que a banda formou-se em 2007, mas a comparar com a longevidade das outras três, os Nails ainda têm muito caminho para trilhar. Curiosamente, o grupo é proveniente de Oxnard, uma cidade do sul da Califórnia com uma forte tradição na cena punk hardcore. Aliás, foi lá que surgiu o movimento Nardcore dos anos 80 com o punk hardcore DIY e a cultura do skate a serem consumidos exaustivamente pelos jovens locais.
Donos de uma sonoridade pouco explorada, o powerviolence, uma fusão de punk hardcore com grindcore, talvez mais próximo do crust punk, os Nails tiveram cerca de 30 minutos para mostrar o seu valor. Abrasiva, mas com malhas bastante diretas e curtas, a banda conseguiu agarrar o público e envolvê-lo nas primeiras movimentações da noite. O destaque do concerto vai naturalmente para a malha final “Unsilent Death”, um convite sonoro ao two step, esse passo de dança tão identitário da cultura punk hardcore.
Exodus
O regresso dos lendários Exodus a Lisboa era algo há muito aguardado. A última vez que a banda da Bay Area tinha tocado na área metropolitana da capital tinha sido em 2010, em Corroios. Desta forma, não é de estranhar a recepção gloriosa em dia de lançamento de “Goliath”, o seu 13º álbum estúdio. Desde que o guitarrista Gary Holt ficou com a sua agenda mais livre para se dedicar aos Exodus, após cessar funções com os Slayer, temos vindo a assistir a um esforço da banda para se manter mais activa e bem oleada em cima do palco.
Num “jogo de cadeiras” de vocalistas, Rob Dukes regressou à banda para render novamente Steve “Zetro” Souza. Mas, isso nem sequer foi motivo de falatório entre os fãs. Aqui, o interesse foi mais o de manter o circle pit a rodar constantemente do princípio ao fim do concerto. Das novidades “3111” e “Promise You This” aos eternos clássicos “Bonded by Blood”, “A Lesson in Violence” e “The Toxic Waltz”, este último com um cheirinho de “Raining Blood” dos Slayer, a surpresa da noite foi mesmo a ida ao baú para recuperar a demo “Rehearsal 1983” com o tema “Death Row”, que já não era tocado ao vivo desde 1986. Já a fechar, “Strike of the Beast” recriou a mítica wall of death imortalizada na gravação do concerto que os Exodus deram no Wacken de 2008.
Feitas as contas, foi um bom concerto para matar as saudades da banda da Bay Area, com o público a responder incansavelmente à descarga frenética de riffs e de batidas skank. Venha de lá agora um concerto em nome próprio, porque os Exodus merecem ser recebidos por um LAV-Lisboa Ao Vivo a rebentar pelas costuras.
Carcass
Nos últimos anos, os britânicos Carcass têm sido presença assídua no nosso país. Entre concertos em nome próprio, como banda de suporte ou em festivais, são um nome que continua a arrastar público pela consistência em palco e sobriedade no tipo de concerto que proporcionam. Sem grandes artifícios, os Carcass agarram-se às suas composições com unhas e dentes e transmitem um controlo profundo de toda a sua performance. Do outro lado, o público só tem que alimentar ainda mais a banda com a sua energia. E foi isso mesmo que aconteceu na Sala Tejo da MEO Arena. Com um som já bastante potente e definido, os Carcass de Jeff Walker e Bill Steer assinaram uma prestação sem altos e baixos, mas com uma coesão muito particular.
Da contemplação daqueles que gostam de ver o automatismo da banda, àqueles que não pararam um segundo no mosh e no crowd surf, a banda de Liverpool perfurou-nos com uma atuação cirúrgica e plena de intenção. O repertório revisitou um pouco de toda a carreira destacando-se a abertura com “Unfit for Human Consumption”, “Carnal Forge”, “Dance of Ixtab (Psychopomp & Circumstance March No. 1 in B)”, “Corporal Jigsore Quandary” e a conclusão com “Heartwork”. Poucas falas e muitos decibéis ditaram um concerto que encheu as medidas de todos aqueles que pagaram para ver o pacote completo e não apenas os headliners.
Kreator
Após o concerto de reagendamento de 2024, os Kreator regressaram agora a Portugal para dar o pontapé de saída da sua Krushers of the World Tour 2026. A última passagem por esta mesma Sala Tejo já nos tinha indicado que a banda alemã estava pronta para investir nas produções de arena, mas acabámos por ser surpreendidos com a escala do espetáculo que a banda de Mille Petrozza apresentou. Com um maior foco na cenografia e não tanto na componente audiovisual, os Kreator optaram por reciclar os dois demónios que ladeavam o palco na Hate Über Alles Tour, mas trouxeram uma recriação gigante da criatura presente na capa do “Coma of Souls” (1990) que permaneceu suspensa sobre o palco. Já a envolver a bateria de Jürgen “Ventor” Reil esteve um par de chifres também com um aspeto demoníaco. Toda esta envolvência cénica foi acompanhada por um jogo de luzes assente em tons quentes, por momentos pirotécnicos e alguma teatralidade.
Como já vem sendo habitual nas suas tours, o concerto arrancou com uma malha do álbum que está a ser apresentado, neste caso o “Krushers of the World” (2026). Após a intro “Eve of Destruction”, “Seven Serpents” teve a sua estreia ao vivo para deleite de todos os fãs que já só queriam um motivo para reabrir o mosh pit. O som mostrou-se logo definido, mas a voz de Mille não parecia estar tão boa como noutras ocasiões. A sua textura arranhada e aguda mostrava algumas quebras, parecendo até por vezes que a voz lhe falhava. Mas, com o passar do concerto tudo se revelou uma questão de aquecimento, e a voz lá acabou por ir ao lugar.
A sua textura arranhada e aguda mostrava algumas quebras, parecendo até por vezes que a voz lhe falhava. Mas, com o passar do concerto tudo se revelou uma questão de aquecimento, e a voz lá acabou por ir ao lugar.
Seguiram-se os primeiros clássicos da noite com “Hail to the Hordes” e “Enemy of God” a darem oportunidade aos fãs de berrarem os refrães com Mille. Entre estes dois temas cumpriu-se ainda uma tradição, a habitual wall of death ao som da intro de “Coma of Souls”. Apelando à teatralidade desta produção, durante a intro “Sergio Corbucci Is Dead” a banda trouxe para palco duas criaturas disfarçadas com máscaras da mascote da banda e a carregar uma tocha numa das mãos. O momento foi desembocar na revolta sonora de “Hate Über Alles”.
Carismático, mas pouco dado a discursos, Mille utilizou os seus chavões já programados para puxar pelo público. Talvez, tenha sido por isso que o concerto não tenha tido muitos momentos mortos. Clássicos indiscutíveis como “Betrayer” e “Hordes of Chaos (A Necrologue for the Elite)”, intercalaram com as novidades “Krushers Of The World” e “Loyal to the Grave”, esta última apresentou uma interessante particularidade com o baixista Frédéric Leclercq a substituir o seu ESP LTD FL-4 por uma guitarra. Também Mille largou a sua ESP Arrow Custom Shop para se dedicar exclusivamente à voz tendo aparecido em palco com umas asas de anjo negro para contribuir para a componente teatral da performance.
Sempre mais discreto e agarrado à sua Ibanez DT420CA Destroyer, Sami Yli-Sirniö é um daqueles guitarristas que nunca nos cansamos de ver e ouvir ao vivo.
Sempre mais discreto e agarrado à sua Ibanez DT420CA Destroyer, Sami Yli-Sirniö é daqueles guitarristas que nunca nos cansamos de ver e ouvir ao vivo. As suas linhas melódicas, assim como os seus solos, tornaram-se numa imagem de marca dos Kreator e têm vindo a moldar o som da banda ao longo dos últimos vinte e cinco anos. “Phantom Antichrist”, que surgiu como uma espécie de encore, é um dos melhores exemplos dessa identidade. Para este tema, a banda recriou em palco uma espécie de auto de fé com dois vultos pendurados em estacas a arderem numa clara alusão à temática explicita na letra do tema.
Na reta final “Endless Pain”, “666 – World Divided”, “Violent Revolution” e “Pleasure to Kill” balançaram nostalgia com contemporaneidade, sem que nenhuma acusasse o sinal do tempo ou a falta do vigor de outros tempos. A tal consistência de que falámos em cima ficou bem patente com esta sequência. De álbum para álbum, de tour para tour, os Kreator não inventam muito, mas também não ficam estagnados no seu processo criativo e conceptual. Talvez seja esta a razão da longevidade e reconhecimento que os Kreator continuam a ter, passadas mais de quatro décadas de carreira.





































































































































































