No Coliseu Club, a nova sala do Coliseu dos Recreios, as Larkin Poe mostraram que é no contexto ao vivo que o roots rock floresce. No seu regresso a Portugal, as irmãs Lovell juntaram a apresentação de “Bloom” (2025) a uma masterclass de slide guitar e notas azuis.
Quis o destino que a nossa primeira experiência na nova sala do Coliseu dos Recreios, o Coliseu Club, situado no antigo bar, fosse um concerto das porta-estandarte do roots rock contemporâneo Larkin Poe.
Numa breve análise à sala podemos dizer que esta tem um perfil muito intimista, apesar da sua capacidade para 800 pessoas na configuração de plateia em pé. A sua insonorização também nos pareceu cuidada e pouco permeável a discrepâncias sonoras. O único senão na sala parece ser o tamanho do palco, sendo este demasiado pequeno e com pouca profundidade. Para terem um termo de comparação podemos afirmar que as dimensões do palco se situam entre as do palco do Tokyo e o da sala 2 do LAV-Lisboa Ao Vivo. Como consequência deste detalhe ficámos com a perceção que o gear e os músicos em cima do palco acabam por ter que ficar um pouco em cima uns dos outros. Ainda derivado do tamanho do palco e da sala está o espaço destinado ao pit, que separa o público e o palco, e que também se revelou demasiado estreito para a circulação dos fotógrafos.
Tirando estes aspetos, o Coliseu Club parece ser uma boa alternativa às outras salas da capital que também funcionam com esta configuração.
Son Little
Son Little, nome artístico de Aaron Earl Livingston, apresentou-se em Lisboa no formato power trio com Joshua Blaylock nas teclas (Mini Moog e Korg KRONOS) e Brandon Combs na bateria. Numa mistura de blues, soul e R&B, Son Little estabeleceu um clima de proximidade com o público através de melodias soulful e grooves inquietantes. Filho de um pregador, é através da confissão que Son Little expressa toda a sua vulnerabilidade e todas as suas mágoas, indo assim ao encontro da raiz lírica do blues.
Larkin Poe
Inspiradas no título do mais recente álbum “Bloom”(que em português significa florescer) e na projeção de fundo repleta de flores, as Larkin Poe entraram em palco ao som de várias composições do cancioneiro americano, todas elas com a temática floral. “Where Have All the Flowers Gone”, “Wildflowers”, “Rose Garden”, “Wildflowers” e “Smell the Flowers” de Peter Seeger, Dolly Parton, Lynn Anderson, Tom Petty e Jerry Reed foram as músicas que soaram no PA antes da entrada das Larkin Poe em palco.
Quando as irmãs Lovell entraram em palco não perderam tempo a desferir os primeiros power chords de “Nowhere Fast”. Som nos trinques, um bom equilíbrio entre a lap steel de Megan e a strat de Rebecca e a voz poderosa da segunda a furar pelo meio. E se a primeira malha já nos tinha deixado nas nuvens, o que dizer de “Mockingbird”, que com as suas melodias edificantes e uma letra inspiradora nos elevou ainda mais o espírito.
Som nos trinques, um bom equilíbrio entre a lap steel de Megan e a strat de Rebecca e a voz poderosa da segunda a furar pelo meio.
No primeiro terço do concerto fomos servidos com uma mescla de malhas a pender para o espectro sonoro do blues e do southern rock, traços que Rebecca e Megan levaram de Calhoun, na Geórgia, para Nashville, no Tennessee. “Summertime Sunset” é daqueles temas que ao vivo se desenrolam numa jam repleta de solos apetitosos, onde o protagonismo é dividido entre as duas guitarristas e os músicos que as acompanham. Primeiro foi a vez de Rebecca desafiar a pentatónica na sua Fender Stratocaster HSS. Os licks pegajosos, o vibrato redondinho e a sua postura elegante mas feroz deixaram todos de queixo caído. Depois foi a vez do jovem teclista que as acompanha de atacar as teclas do seu Nord C Series, um emulador de um Hammond B3. A jogar com os parâmetros da Leslie digital e com uma demonstração plena de técnica ficou provado que na retaguarda das manas Lovell está muito talento. Para o fim, ficou Megan. No concerto do NOS Alive 2024 já tínhamos ficado impressionados com a sua destreza na lap steel e, particularmente, na técnica de slide, mas desta vez pudemos comprovar toda a sua mestria bem mais de perto.
Em “Bluephoria”, Rebecca fez a sua primeira troca de guitarra para uma Gretsch Electromatic Jet, possivelmente um modelo custom, pois apresentava um acabamento e um pickguard com os mesmos tons da sua strat. No que diz respeito aos pickups, este modelo apresenta um P-90 no braço e um FilterTron na ponte.
Num sinal do empoderamento feminino para com a importância das irmãs para a cena blues e southern rock, Megan aproveitou uma deixa antes de “If God Is a Woman” para enaltecer a postura corajosa de Rebecca, que após ter sido mãe há apenas três meses, já está de regresso aos palcos. É certo que a vida na estrada com um bebé não é fácil, principalmente no caso de uma mulher, mas, tudo se torna menos desafiante quando se tem um pai que também é um nome sonante do blues rock contemporâneo como é o caso de Tyler Bryant dos Tyler Bryant & the Shakedown.4
No que diz respeito à estrutura do concerto este dividiu-se em três sets. Chegados ao fim do primeiro, eis que fomos transportados para uma espécie de Station Inn – clube em Nashville reconhecido mundialmente como uma das melhores salas de bluegrass. Aconchegados ao centro do palco para representar esse cenário intimista e à volta de um único microfone de condensador, os cinco músicos levaram-nos numa viagem pelos vários géneros que formam o conceito sonoro de Americana. “Southern Confort”, “Little Bit” e “Fool Outta Me” guiaram-nos do folk ao blues, passando pelo country e pelo bluegrass. No palco a rotação de instrumentos foi interessante com bandolins, um banjo, uma dobro resonator, um contrabaixo e uma Martin a aparecerem e a desaparecerem consoante o repertório. É certo que momentos como este podem perder a sua essência numa sala maior, mas no Coliseu Club foi possível manter esse registo de proximidade e captar com um silêncio ensurdecedor todas as nuances das harmonias vocais, as progressões melódicas do bandolim e o balanço do banjo.
Num país onde o blues e os restantes géneros da música de raiz americana não têm muita expressão, podemos dizer que fomos bafejados pela sorte ao termos tido esta rara oportunidade de testemunhar um concerto de uma das melhores bandas de roots rock da atualidade.
Para o fim deste segmento ficou reservado um tema que não possui uma gravação de estúdio. “Devil Music”, como o seu nome indica, é uma homenagem ao blues, à lenda por detrás dessa figura enigmática que foi Robert Johnson e ainda ao recém-falecido Ozzy Osbourne, considerado o “Padrinho do Heavy Metal”, e que ajudou a desenhar um género que tem na sua génese o trítono, o famoso intervalo do diabo.
No terceiro set, as Larkin Poe regressaram ao palco para mais uma rodada de guitarradas e melodias vocais com texturas difíceis de encontrar em vozes não nativas dos estados do sul do EUA. “AC/DC”, “Pearls” e “Bolt Cutters & The Family Name” seguiram uma toada mais rock ‘n’ roll, mas foi “Bad Spell”, com o seu riff fuzzy bem encorpado, que arregalou os nossos ouvidos. Já de regresso ao palco para um encore fomos brindados com “Bloom Again”, uma balada mais convencional que foge um pouco aos cânones do cancioneiro das Larkin Poe. Depois de um concerto eletrizante e profundamente cativante, as irmãs Lovell perceberam que a troca de um tema explosivo por algo emotivo e épico teria um impacto ainda mais profundo na sua despedia. E assim foi…
À saída os rostos espelhavam um sentimento de satisfação e, verdade seja dita, o momento não era para menos. Num país onde o blues e os restantes géneros da música de raiz americana não têm muita expressão, podemos dizer que fomos bafejados pela sorte ao termos tido esta rara oportunidade de testemunhar um concerto de uma das melhores bandas de roots rock da atualidade.






























































