Os Turnstile regressaram a Lisboa, e mostraram uma vez mais, que não são apenas uma banda em ascensão ou de hype. São um movimento, uma comunidade e uma das vozes mais vibrantes e criativas da música alternativa atual.
Portugal teve o privilégio de receber uma data dupla dos putos, (que, na verdade, já não são assim tão putos, mas em palco é como se fossem), mais cool do momento. Os Turnstile deram um dos grandes concertos deste ano no Primavera Sound Porto, em Junho, e regressaram a Lisboa no dia 26 de novembro, dez anos depois da sua estreia na República da Música.
Estivemos no LAV e este artigo é um conjunto de pensamentos, algumas lamúrias, curiosidades e, quem sabe, uns quantos disparates sobre o regresso da banda de Baltimore a Lisboa. Se preferirem uma review mais composta, façam o favor de clicar aqui para ler o artigo sobre o concerto do Primavera Sound Porto.
Uns dias depois desse concertaço no Porto, e um dos melhores deste ano em Portugal, um “passarinho” contou-nos que uma data em Lisboa estava marcada para novembro, no LAV. «No LAV??? Tens a certeza? Só se for na sala 3…», ripostámos de imediato ao saber da boa nova. E, a julgar pelos comentários nas redes, a estranheza foi geral. Quis o universo que, no dia 26, uma sala como o Campo Pequeno estivesse ocupada com Tim Bernardes, o Coliseu de Lisboa — para nós, um sonho vê-los nesse espaço, ainda nos lembramos do bailarico com Idles, por exemplo — estava, provavelmente, atarefado com os preparativos do tradicional circo de Natal, e sobrava apenas a possível Sala Tejo.
Frequentadores assíduos do LAV, que já consideramos quase uma segunda casa dadas as horas que lá passamos, confessamos que não somos fãs da disposição da sala 3. As colunas são necessárias, claro, mas acabam por roubar visibilidade; para quem fica mais atrás (ou é de estatura pequena), o palco baixo dificulta a visibilidade e isso afeta um pouco o ambiente de fraternidade que se quer num concerto de Turnstile, além da acústica não ser a melhor. Mas queixumes à parte: mais vale um concerto dos Turnstile no LAV3 do que nada.
Não vale a pena fazer a habitual apresentação da banda, a internet está cheia de artigos ao estilo “who the fuck is Turnstile?”, por isso… “google it”. Ainda assim, e de forma rápida e simplista: os Turnstile são uma banda de Baltimore que nasceu na cena hardcore/punk, mas que ao longo dos anos foi misturando no seu caldeirão texturas e condimentos de rock alternativo, dream-pop, shoegaze, electrónica e até funk ou R&B, criando um sabor muito próprio.
São, provavelmente, uma das bandas mais criativas e imprevisíveis da música alternativa contemporânea, e isso torna-os num pequeno diamante no meio do que por aí se faz.
Para os fãs mais puristas, aqueles que os acompanham desde os primeiros tempos, esta evolução é quase uma heresia: há quem os acuse de ter “vendido a alma ao mainstream” e há até quem diga que já nem sequer são uma banda de hardcore. Mas a verdade é que este rumo mais expansivo e acessível tem sido precisamente aquilo que os catapultou para salas cada vez maiores e para um público que ultrapassa largamente o círculo tradicional da cena onde nasceram.
A aquecer o ambiente, enquanto a sala se compunha, estiveram os The Garden e High Vis, duas bandas que trazem a sua própria energia caótica e experimental, preparando o público para o que viria a seguir.
High Vis, veteranos da cena hardcore britânica, combinaram riffs pesados com melodias mais dançáveis, tendo arrancado os primeiros moshes da plateia.
The Garden é o projecto dos gémeos Wyatt e Fletcher Shears e em Lisboa espalharam a sua mistura de punk e experimentalismo, com guitarras imprevisíveis e grooves alucinantes. A dada altura, Fletcher salta da bateria e umas cambalhotas depois agarra-se ao microfone.
A apresentar o seu mais recente álbum, “Never Enough”, sem grandes surpresas, a subida ao palco fez-se com a faixa que dá nome ao disco, que funcionou como chamamento e preparação para o “porradão” sonoro que se seguiu na próxima hora. Daniel, Pat, Meg, Franz e Brendan entraram e aproveitaram o início contemplativo da música para olhar o público nos olhos. E o que saltou logo à vista foi a camisola do Benfica que o baixista Franz Lyons envergava.
Recorremos aos nossos “passarinhos” e a razão da escolha é um bom fun fact: em 2015, o Benfica foi campeão na mesma altura que decorreu a estreia da banda em lisboa. Alguns membros da equipa da promotora do evento foram, naturalmente, festejar para o Marquês, e Franz acompanhou-os. Os festejos daquele título ficaram-lhe na memória e, daí a escolha para eternizar momentos felizes passados no nosso país.
Um amor incondicional transformado em energia física, visceral e quase impossível de conter.
Seguem-se a incisiva “T.L.C. (Turnstile Love Connection)”, e o amor frenético do público explode em moshpits, cânticos, pulos e corpos colidindo, marcando o compasso até ao fim do concerto. A banda nem precisa de dar sinal, basta tocar o primeiro acorde para incendiar a sala. Há terceira canção, “Endless”, já sapatos voavam pelos ares à procura de dono, enquanto a multidão se agitava em pura entrega, selvagem e caótica. Um amor incondicional transformado em energia física, visceral e quase impossível de conter.
O alinhamento desta tour alterna faixas de “Never Enough”, “Glow On” e do velhinho “Step 2 Rhythm”, equilibrando momentos mais frenéticos com pequenas pausas estratégicas. Canções como “Light design”, “Ceiling” ou “Seein’ Stars” dão espaço para respirar e recuperar o fôlego da banda, e do público. As faixas mais antigas, como “Keep It Moving” e “Pushing Me Away”, trazem de volta as raízes hardcore, lembrando que, os Turnstile continuam fiéis às suas origens, conseguindo recriar o ambiente de uma cave de Baltimore, mas amplificado para uma sala de maior dimensão. É neste tipo de músicas que as Jackson, marca de eleição de Pat McCrory e Meg Mills, mas normalmente mais ligadas ao metal, ressoam com força total, acrescentando um timbre agressivo. A 1960 verde da Marshall de McCrory também marcou presença, contribuindo para aquele som cru que atravessa toda a sala.
À medida que o concerto avançava, a banda mostrava toda a sua força como um dos nomes mais sonantes do rock actual e consegue fazer algo interessante: Não há distrações, apenas músicos e os seus instrumentos em palco. Sem recorrer a pirotecnia, confettis ou produções audiovisuais hollywoodescas, têm conseguido conquistar um público mais novo, mantendo uma ligação direta e de comunidade. Banda e plateia movem-se como um só organismo: cada riff, cada batida e cada salto da multidão pulsa em conjunto, transformando o LAV numa máquina de caos organizado.
Um dos destaques indiscutíveis da noite vai para o baterista Daniel Fang, cujo desempenho é simplesmente avassalador. Cada batida é precisa, poderosa e cheia de nuances, conduzindo a banda com uma energia que se sente em cada canto do LAV. Com presença dominante, Fang não só sustenta o groove e o caos, mas também acrescenta cor e dinâmica às músicas mais densas. Em momentos como “Sole”, cada virada e cada acentuação da bateria elevam a experiência, tornando a performance ao vivo ainda mais explosiva e visceral.

No epicentro da tempestade está Brendan Yates, ao comando de cada grito, salto e moshpit com precisão cirúrgica. Imparável! Não precisa de ser muito comunicativo, e na verdade em menos de 1h30 de concerto, não há tempo a perder com conversas de ocasião. A fechar o concerto, Yates diz: «Vocês sabem o que têm que fazer!». E a habitual invasão de palco acontece com “Birds”. Um público que mesmo na confusão que já se esperava, soube comportar-se à altura, sem nenhum exagero assinalável.
Resta-nos pedir ao universo que proporcione uma carreira longa aos Turnstile, que continuem a fazer exatamente o que lhes apetece, sem se curvarem à pressão dos haters ou da indústria, mantendo a humildade que os caracteriza, sem vedetismos. Bons putos, a fazer boa música e aquilo que mais gostam e sabem fazer.
















































































































