DAMIANO DAVID c Ines barrau

MEO Kalorama 2025: Damiano David, A Sagração do Novo Filho Preferido da Pop

Review

Voz
10/10
Banda
9/10
Som
10/10
Ambiente
7/10
Overall
9.0/10
The First Time
Voices
Tango
Mars
Nothing Breaks Like a Heart (Mark Ronson Cover)
Zombie Lady
Too Sweet (Hozier Cover)
Angel
Tangerine
Born With a Broken Heart
Solitude (No One Understands Me)

Chegou, viu e venceu! Assim foi a estreia a solo de Damiano David em Portugal. Solto das amarras do rock ‘n’ roll, o músico italiano trouxe-nos um repertório repleto de pop sumarento e vulnerável e mostrou que tem competências para ascender na linha de sucessão das grandes popstars masculinas.

O que é que Stevie Nicks, Fergie, Freddie Mercury e Damiano David têm em comum? Todos eles aproveitaram um período de hiato ou de estagnação criativa nas respetivas bandas para se lançarem a solo. Com mais ou menos sucesso são vários os casos de artistas rock/pop que, por insatisfação com o rumo do grupo ou por pressões de editoras, se lançam em carreiras a solo, geralmente noutro especto sonoro.

Damiano David, o músico italiano que nos últimos anos saltou para a ribalta com a sua banda Måneskin, é o mais recente caso de sucesso desta jogada que muitos consideram ser um truque de marketing. Após um período exaustivo de sucessivas tours e lançamentos com os Måneskin, que teve início com a vitória da banda no Festival da Eurovisão de 2021, Damiano sentiu que estava agora na altura de mudar o seu trajeto.

Reconhecido como um poster boy no mundo da música mainstream contemporânea, não foi nada difícil reunir uma série de cartadas para o seu novo projeto. O mote criativo para esta incursão a solo já estava encontrado com o fim de um relacionamento em 2023. Prontamente, em 2024, Damiano entrou num período fértil de criatividade e esboçou mais de setenta canções. Em “Funny Little Fears” (2025) constam apenas catorze, mas uma edição deluxe certamente que estará para breve.

Aliando uma pop descomplexada e com muito sumo a uma produção mais a puxar para o rock, Damiano conseguiu construir uma série de composições que ao vivo ganham uma carga festiva, dançável e sentimental. Quanto às comparações com Harry Styles, essas são inevitáveis, mas o que é certo é que Damiano consegue desmarcar-se delas ao introduzir no seu repertório uns pozinhos da sua veia mais roqueira.

Quanto às comparações com Harry Styles, essas são inevitáveis, mas o que é certo é que Damiano consegue desmarcar-se delas ao introduzir no seu repertório uns pozinhos da sua veia mais roqueira.

Agora, de regresso a Portugal após estrear-se com os seus Måneskin no Super Bock Super Rock de 2024, Damiano trouxe-nos um espetáculo eletrizante e magnético, que só pecou pela hora agendada (1h55m), a sua duração (cerca de 40 minutos) e a fraca afluência (algo que se verificou em todos os dias de festival). Sem produções exuberantes, o músico deixou a música e a sua voz bem cuidada falarem por si, pois quando a pop é bem feita esta não precisa de qualquer tipo de artifícios.

“The First Time” abriu as hostilidades com arranjos faustosos e um refrão épico. Logo desde o primeiro segundo Damiano demonstrou uma voz robusta e dinâmica, sem marcas dos excessos que muitas vezes estão adjacentes à vida de uma rockstar. O músico, agora com 26 anos, parece estar numa fase de vida mais madura e isso também transparece na sua performance em palco.

Seguiu-se “Voices”, uma malha que demonstra ainda alguns resquícios do rock dos Måneskin. Aliás, em certos momentos, Damiano proporcionou-nos mesmo um espetáculo com vários clichés de um concerto rock. Guitarras ao alto na dianteira do palco e solos com algum virtuosismo deram um ar de sua graça em vários momentos do espetáculo.

«Peço desculpa, mas não falo português. A única coisa que sei é «O mar de gente, o Sol diferente/O monte de betão não me provoca nada/Não me convoca casa. Deveriam ter ganho a Eurovisão.», disse Damiano num momento singular onde arranhou, e bem, a “Deslocado” dos NAPA. Foi  um momento, bem disposto, onde Damiano mostrou todo o seu respeito para com a banda portuguesa que participou no Festival da Eurovisão de 2025. O momento certamente que caiu bem no goto de todos os presentes.

Com o melhor som que ouvimos na edição de 2025 do MEO Kalorama, Damiano procedeu com “Tango”. A música, que se apresenta como um paradoxo sonoro, foi dedicada a todos os apaixonados. O seu ritmo puxa para o pezinho de dança, aliás, é aí que o músico faz o paralelismo com a dança argentina, mas está longe de seguir o mesmo padrão rítmico.

Já no dream pop de “Mars” ou no synth pop de “Zombie Lady”, Damiano mostrou que se sente confortável a explorar as mais variadas facetas do género primário e, verdade seja dita, fá-lo bem, sem exageros e com um certo primor, algo certamente inato à sua origem italiana. Já num aceno às suas referências, David interpretou uma sentida cover de “Nothing Breaks Like a Heart” do super produtor e compositor Mark Ronson. Esta versão, que já tinha sido gravada em estúdio, revela uma voz também moldada para o repertório country/folk e, a julgar pelo revivalismo que temos assistido nos últimos anos, certamente que essa hipótese não estará totalmente descartada.

«Aqueles que já me conhecem, sabem que fiz rock ao longo de dez anos. Mas, muita gente só me conheceu com este projeto. Houve muitas pessoas que não gostaram. Por isso, esta cover é um lembrete de que posso fazer o que me apetece», foi este o recado que Damiano emitiu antes de partir para “Too Sweet”, uma cover de Hozier.

Quando chegou “Angel” apercebemo-nos de um piscar de olho a “Bennie And The Jets” de Elton John. Se é mesmo ou não, não sabemos, mas aquela malha de piano aliada ao groove da bateria deixa certamente algumas dúvidas no ar. Influências de lado, Damiano deixou o seu falsete brilhar numa malha pop teatral e com mais malabarismos vocais, todos eles executados com distinção e definição.

Aliás, mal temos tempo para pestanejar, e David já está outra vez noutro espectro sonoro, agora o doo-wop, esse género romântico que proliferou nos anos 50. Contudo, o que é curioso é que nada soa deslocado. Tudo está bem encadeado. Já com o seu desgosto amoroso de 2023 ultrapassado, David vive agora uma relação saudável e em “Tangerine”, o músico apresenta uma carta aberta a todos os seus romances casuais onde informa que já não está disponível.

Seguiu-se “Born With a Broken Heart”, talvez a música mais à la Harry Styles do seu álbum, que renovou a energia do público para a réstia final. Um singalong colossal assente num instrumental pegajoso foi a receita apresentada para fazer com que a pequena moldura humana da Bela Vista levantasse o pé do chão uma última vez antes da derradeira música da noite.

Sem fugir à tradição de tirar a t-shirt para mostrar o seu corpo tatuado e tonificado, Damiano substituiu o tronco nu por uma camisola da seleção portuguesa, com a qual prontamente invocou um convicto «Simmmmmm!». A balada “Solitude (No One Understands Me)” foi a escolhida para encerrar o concerto. A sua letra emotiva e o refrão épico causaram certamente alguns frissons numa noite que por si só já se encontrava bem fresquinha.

Mas, nem tudo foi do agrado do público. Já com Damiano e o resto da banda fora de palco, os fãs recusavam-se a aceitar que o concerto, que só durou cerca de quarenta minutos, já tinha acabado. Afinal de contas, muitos deles tinham chegado ao Parque da Bela Vista ainda antes das portas abrirem para depois estarem mais umas oito/nove horas à espera na frente do Palco MEO. Nos comentários das redes sociais pediram-se explicações à organização, mas a verdade é que a escolha do time slot e do tempo de atuação é algo que é determinado em conjunto com o artista. É certo que Damiano poderia ter estendido a sua atuação, por exemplo, ao tocar o álbum na íntegra, mais as duas covers, perfazendo assim um tempo de atuação de cerca de uma hora. Mas, isso não é culpa da organização. Resta agora aos fãs aguardarem por um regresso do artista em nome próprio, onde o tempo de atuação possa ser mais adequado às expectativas.

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