Macacos do Chinês: Bolos Depois da Noite? Sim, sempre.
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Macacos do Chinês: Bolos Depois da Noite? Sim, sempre.

29/07/2026

Depois de 15 anos de espera, os Macacos do Chinês regressam com um EP de cinco músicas, intitulado “Bolos Depois da Noite”.

Conhecidos pelo single “Rolling Na Reboleira” e LPs como “Ruídos Reais” e “Vida Louca”, o grupo voltou em 2026 para comer bolos, limpar a boca e partir a loiça toda.

Em conversa com a Arte Sonora, André Pinheiro, conhecido por Apache, confessou que o hiato foi involuntário. «Fomos todos para sítios diferentes durante este tempo. Embora nunca tivéssemos parado. Foi a vida a acontecer.»

Em 2026 reuniram-se assim as condições necessárias para que o grupo pudesse fazer o que faz de melhor: oferecer-nos boa música, bom hip hop e líricas “malucas” que nos levam a refletir sobre a nossa própria sintaxe.

“Bolos Depois da Noite” estava guardado na gaveta, «íamos baptizar o nosso primeiro álbum com esse nome, mas acabámos por trocar para Ruídos Reais sob o conselho da editora», confessa Apache.

Há males que vêm por bem e, se “Ruídos Reais” assentou perfeitamente no disco que fechava a primeira década do milénio, então “Bolos Depois da Noite” só fazia sentido agora. O título destaca-se pela graça e por ser algo completamente relatable para todos os noctívagos. Depois de uns copos, o que é que uma pessoa faz? Come “Bolos Depois da Noite”.

«É uma ode a esses momentos… depois de sair à noite, íamos todos comer bolos e só depois é que íamos para casa», partilha Apache.

E é com esta frase que o músico nos transporta para uma era quase esquecida, mas que vale a pena relembrar. Aqueles pequenos momentos de felicidade que um adolescente tem ao enfiar um bolo pela goela abaixo, depois de ter o estômago revestido de álcool. Sendo um pouco clichê: éramos felizes e (talvez) não sabíamos.

Voltando à bomba poética que os Macacos do Chinês nos ofereceram este ano, o EP abre com “96”. Este single, aclamado pela crítica, contou com Alexandre Talhinhas (Alx) e Tiago Morna na composição. “A mensagem do som é mesmo sobre a amizade”, esclarece Apache. “96 foi o ano em que o Miguel e o Pedro, os dois MCs na música, o Pité e o Drupez, se conheceram na Amadora”, diz.

Isto comprova-se quando ouvimos a lírica desta amizade em formato dub: «Yo Drupez, como é? Há quanto tempo andamos a manter a fé? Há bué, desde 96 andamos a manter a fé». Celebram estes 30 anos de amizade com um hino ao amor real entre “irmãos”.

“’96” abre o disco porque “foi a primeira música a surgir, foi a primeira que acabámos agora depois de voltarmos a estar juntos. Fazia sentido”, remata Apache.

Na faixa 2 trocamos de registo. Ouvimos um tema mais acústico, mais soul, mais funk. Desenganem-se se pensam que perdemos a essência dos Macacos do Chinês. Au contraire, ganhámo-la. «Para nós, macacos, é mesmo o nosso dia-a-dia, nós vivemos da variação. O contraste entre o som, o funk, o dubstep e o drum’n’bass é algo que gostamos de fazer», partilha o artista.

O tema, tal como o nome do disco, já tinha pó.

«A melodia, a letra e a harmonia já estavam feitas há 15 anos. Mas a versão que tínhamos… não gostávamos muito». E ainda bem.

Desta pausa que fizeram para agora, o resultado final de “A Vida É Assim” dá um toque que coloca os Macacos do Chinês noutro lugar. É, sem sombra de dúvida, um dos melhores sons do disco. Começa devagar, mas arrepia. Lembra-nos um soulzinho que se começa a estranhar, mas rapidamente se entranha.

Com a arrepiante voz de (Miguel) Pité a dizer-nos “A Vida É Assim, Só pode ser ou não ser, eis a questão que eu já tentei perceber”, sentimos um aconchego no corpo. É quase como se fosse um abraço cantado que nos diz “chiu, acalma, está tudo bem. Já passei por isso, mas estamos juntos”.

O grupo já tinha lançado a faixa que veio acompanhada de um videoclipe, no mínimo, brilhante. Os Macacos do Chinês documentaram o padeiro Alexandrino Brito, conhecido nas redes sociais por “The Dark Baker”, durante um dia de trabalho.

Ao carregar play no vídeo, o cenário é escuro e conseguimos ler “3:21”. É de madrugada e estamos à porta de casa de alguém. «Quisemos mostrar uma realidade diferente do normal. Nós acordámos com ele e decidimos seguir o dia dele para apontar uma narrativa: uma espécie de documentário sobre um dia-a-dia diferente», afirma Apache. O facto de retratarem vivências que vão além do típico trabalho “das 9 às 5”, teve um propósito. O grupo quis demonstrar que em 15 anos mudou muita coisa… o quotidiano mudou, as vidas mudaram. Lá está: «a vida é assim» mas a amizade manteve-se.

Outra faixa que também já vinha acompanhada de imagem era “Desta Vez”, a canção 3 do disco. Apache conta-nos como foi a produção do vídeo: «Por razões de tempo e de budget, o vídeo do “Desta Vez” acabou por ser um visualizer. Conta o caminho que fazíamos de Lisboa até a Amadora, por isso, tem muito significado para nós».

“Desta Vez” é agressivo, é um murro na mesa. O grupo quis fincar pé num mundo de ódio que se tenta apoderar e estabelecer. Utilizaram as armas que podiam para nos fazer refletir sobre isto. “Fazemos música para expressarmos aquilo que temos por dentro e, com sorte, ressoar nas pessoas que nos ouvem. Se aquilo que dissermos tiver impacto, conseguimos ajudar a que isto vá para a frente”, confessa-nos. “Eu sei que é uma visão um bocado romântica, mas é verdade”, remata.

Logo a seguir ouvimos uma mensagem de voz de Rui Pité, irmão de Miguel Pité, que nos diz “Música de dança é uma coisa séria”. Esta “brincadeira” foi propositada. “Isto é brincar, a sério. Sempre adorámos música de dança, sempre gostámos de DJs. A piada é essa: uma coisa que é verdade, mas que o pessoal também não leva a sério”.

O tema fala sobre a indignação alheia não justificada. É um retrato dos “heróis digitais” que têm toda a coragem do mundo quando estão no mundo digital, dentro do conforto de casa.

Rufias de Molho é mesmo isso”, explica Apache, “conseguem imaginar: são aquelas pessoas que são rufias quando estão de molho no colchão ou no sofá, na internet, a criticar e a tecer juízos de valor à vida alheia”. It’s funny, cause it’s true.

O EP fecha com “Sem Recusa”, uma sonoridade que volta ao registo de dubstep e drum’n’bass. E é a afirmação final que só podia concluir este curta-duração. «Para nós, é uma música sobre não recusar. Quando olhamos para o mundo da música, temos muitas referências: há diretores, há editoras, há uma ideia do que é que o público quer… Com o tema, decidimos que não há volta a dar, vamos fazer o que nós achamos que é correto. É falar a nossa verdade, mesmo que doa», partilha.

E falaram bem. Os Macacos do Chinês lançaram “Bolos Depois da Noite”, deram-nos o seu grito do Ipiranga e agora não saem mais. Assim esperamos que seja.