Dez anos após terem estreado o formato “An Evening With” em Portugal, os Machine Head regressaram ao nosso país para um autêntico concerto de endurance. De volta à tipologia de salas onde tudo começou, os clubes, a banda de Robb Flynn trouxe ao LAV – Lisboa Ao Vivo um concerto que privilegiou a ligação simbiótica entre banda e Head Cases.
Foi em 2016 que os Machine Head trouxeram pela primeira vez a Portugal o formato “An Evening With”, um modelo de concerto popularizado pelos Dream Theater que consiste numa performance de longa duração (a rondar as três horas) sem quaisquer bandas de suporte. Durante largos anos, a banda de Robb Flynn procurou trazer para as suas tours bandas em ascensão com o intuito de lhes dar mais visibilidade. Foi assim, por exemplo, com os agora peso-pesados Bring Me The Horizon e Trivium. Mas, nesse tipo de lineups, que por norma incluíam quatro bandas, sobrava sempre pouco espaço para percorrer um catálogo extremamente extenso e diversificado. Entre apresentar o álbum mais recente, tocar todos os clássicos obrigatórios e ainda sacar uma ou outra deep cut, pode dizer-se que os Machine Head tinham em mãos uma tarefa hercúlea.
Com o formato “An Evening With” a banda passou a conseguir definir setlists com outra leveza, pois um concerto de quase três horas permitia-lhes passar de setlists com 14/15 músicas para 20 músicas, como se deu na sua passagem por Portugal em 2016, e mais tarde para 25/26 músicas, como aconteceu no regresso em 2018. Mais tempo significava mais espaço para surpreender os fãs portugueses com temas menos rodados como fora o caso de “Elegy”, covers como a épica versão de “Hallowed Be Thy Name” dos Iron Maiden ou até mesmo uma estreia como se deu com “Heavy Lies the Crown” no concerto de Lisboa em 2018.
Contudo, não foi apenas o modelo “An Evening With” que os Machine Head trouxeram para esta nova passagem por Portugal. Se, em 2016 e 2018, os concertos passaram pelos coliseus de Lisboa e Porto, salas que correspondem plenamente à dimensão e ao estatuto da banda californiana, desta vez a opção foi por um ambiente mais intimista, evocando as atuações em espaços portugueses como o Paradise Garage e o Hard Club, nos anos de 2001 e 2004. Com o primeiro já extinto, a escolha acabou por recair naturalmente sobre o LAV.
Resultado? Os bilhetes esgotaram com vários meses de antecedência. É certo que os Machine Head poderiam ter escolhido a sala maior do complexo (Sala 3), mas preferiram ir para a Sala 1, que dispõe de uma capacidade de cerca de 1200 pessoas. A ideia de exclusividade e intimidade sobrepôs-se à procura de proporcionar um espetáculo grandioso ao nível da produção, como também já os vimos fazer. Aqui a intenção foi mesmo a de oferecer uma noite única de proximidade entre a banda e os Head Cases mais fervorosos.
Com um concerto extremamente longo pela frente não houve espaço para atrasos. Desta forma, às 21 horas em ponto começou a tocar a intro “In Comes the Flood”. Mas foram os acordes iniciais de “Imperium” que marcaram aquele momento inicial de tensão em crescendo tão característico dos concertos dos Machine Head. A antecipação antes do caos deu lugar aos primeiros “chega para lá” da noite. Afinal de contas, todos sabíamos o que aí vinha. Punhos cerrados no ar, «Hey!, Hey!, Hey!» entoados em uníssono como um grito de guerra e a explosão do verso «Hear me now» deram lugar a um rebuliço que apenas acalmou num segmento acústico que decorreu na segunda metade do concerto. O som ainda embrulhado, com pouca definição no baixo de Jared MacEachern e nos leads de Robb Flynn e Vogg, não foi a recepção sonora desejada, mas bem sabemos que aqueles primeiros minutos de concerto são sempre de alguma ambientação às várias variáveis que influenciam a propagação do som.
“Ten Ton Hammer” e “CHØKE ØN THE ASHES ØF YØUR HATE” ajudaram a calibrar as discrepâncias e chegados a “Now We Die” as melhorias já eram bem audíveis.
Mas se o som precisou do seu tempo para entrar nos trinques, o mesmo não se pode dizer das projeções que ladearam o palco. Mais do que o aparato visual, serviram para criar um ambiente específico para cada tema sem nunca se sobreporem ao mais importante – a música.
Apesar da sua extensão, o concerto foi organizando-se em blocos de 3/4 músicas com as suas transições a serem representadas pelo apagar das luzes e a breve saída da banda do palco. Nestes momentos de transição foi o público que deu espetáculo com os cânticos «Machine Fucking Head!» e «esta m*rda é que é boa!», aliás, este último ganhou mesmo honras de destaque tornando-se numa espécie de leitmotiv ao longo de toda a performance. Isto porque, após “Is There Anybody Out There?” deu-se mais um desses breves interregnos.
Com os fãs galvanizados não tardou até soar aquele cântico que já não consegue escapar a qualquer concerto em solo português. Intrigado e extasiado com aquela moldura sonora, Robb Flynn puxou da sua Flying V para sacar, naturalmente, a melodia de “Seven Nation Army”. Num ápice, fãs e banda iniciaram uma colaboração única e espontânea do tema dos White Stripes com Robb a brincar com os versos em inglês e o público a cantar o riff em português com o jogo de palavras icónico.
É certo que Flynn não se desenrolou em grandes discursos, pois todos os minutos eram escassos para tamanha maratona de metal frenético. Mas, sempre que o fez, fê-lo com intenção.
É certo que Flynn não se desenrolou em grandes discursos, pois todos os minutos eram escassos para tamanha maratona de metal frenético. Mas, sempre que o fez, fê-lo com intenção.
Num momento de alguma calma, Robb desculpou-se por não ter conseguido trazer a Portugal a tour de celebração do 25º aniversário do álbum de estreia “Burn My Eyes” (1994), pois as datas originalmente agendadas coincidiram com a maldita pandemia. Desta forma, em jeito de recompensa, o frontman não hesitou em anunciar que os fãs poderiam esperar algumas visitas a esse álbum sendo que a primeira surgiu imediatamente com a fúria de “The Rage to Overcome”.
Mas, nem só do passado se fez este concerto. “UNHALLØWED” e “SLAUGHTER THE MARTYR” de “ØF KINGDØM AND CRØWN” (2022) provaram a robustez do material mais recente entre as vertiginosas “This Is The End” e “Blood for Blood”. Já despercebida passou “Game Over”, seguida de uma “Old” que de velha só tem o nome, tal é a dinâmica que a banda continua a imprimir ao vivo no clássico de “Burn My Eyes”.
O concerto já ia longo e apesar de ter sido anunciado sob o mote “An Evening With Machine Head”, para os fãs portugueses este também foi o primeiro contacto ao vivo com os temas do mais recente álbum “UNATØNED” (2025), um registo sólido, mas longe de apresentar faixas memoráveis. Talvez tenha sido por isso, que “ØUTSIDER” não tenha recebido uma recepção tão calorosa.
Por outro lado, “BØNESCRAPER”, o outro tema do mesmo álbum, arrancou mais participação vocal pelo seu coro orelhudo no refrão. Ensanduichada entre as duas ficou “Locust”, esse clássico que marca um dos períodos dourados do catálogo dos Machine Head. Esta é uma malha que dispensa apresentações ou qualquer tipo de incentivos por parte da banda pois o palco em tons de verde, o riff de oitavas entoado pelos fãs e a troca de solos entre Robb Flynn e Vogg fazem o trabalho todo por si.
Algum espaço para respirar e arejar parecia escassear, mas a banda tratou de arrefecer os ânimos com um momento de profunda elevação artística. É óbvio que os Machine Head sabem que têm repertório para apresentar um concerto de 2h45m sempre com o pé no acelerador, mas isso não iria trazer nenhuma variação dinâmica para uma performance que já se sabia de antemão seria desgastante. É então aqui que entra a inteligência artística e performativa de Robb Flynn. Em vez de continuar a dar uma coça sonora que “levasse os fãs ao tapete”, Robb decidiu adicionar um pequeno set acústico bem ao estilo de um time-out desportivo.
Acompanhado pelo seu “fiel escudeiro” Jared MacEachern, com quem partilhou muitas Electric Happy Hour durante a pandemia, Robb atirou-se às duas maiores surpresas da noite: “Circle the Drain” e “Darkness Within” nas suas versões acústicas. O momento foi de uma beleza, simplicidade e comunhão tremenda, sem qualquer tipo de preconceitos para tamanha vulnerabilidade.
O momento foi de uma beleza, simplicidade e comunhão tremenda, sem qualquer tipo de preconceitos para tamanha vulnerabilidade.
De volta às guitarras elétricas, a banda atacou a divisiva “Catharsis” para daí até ao fim nunca mais abrandar. “Bulldozer” e “From This Day” recordaram os saudosos anos do nu metal com grooves contagiantes e um incentivo que divergiu doscircle pits para os saltos estilo dança pogo. Já as inevitáveis “Davidian” e “Halo” preencheram os derradeiros quinze minutos de concerto. Da fúria ao êxtase, do berro rebelde às harmonias sublimes ambas são hinos que encapsulam a jornada musical dos Machine Head ao longo destas mais de três décadas de carreira. Não sabemos se no futuro os Machine Head conseguirão compor mais algum tema tão intenso como estes dois e que possa anteceder esta parelha nos concertos, mas uma coisa é certa, não há final mais sagrado que este.
Visivelmente desgastados após quase três horas de concerto, fãs e banda encararam-se uma última vez. De um lado, quatro músicos superlativos em alta rotação tinham acabado de entregar uma maratona de riffs e refrões, do outro um amontoado de fãs percorrera uma prova de endurance na forma de circle pits, wall of death e crowd surf. Se dúvidas ainda restassem sobre o sucesso destas “An Evening With Machine Head”, todas elas se dissiparam naquele disparo fotográfico que captou num instante essa relação simbiótica entre banda e Head Cases.




















































