Foto (c) Paulo Segadães

Mães Solteiras | “Puxa-vida”: Dão licença que sejamos breves?

01/10/2026

“Puxa-Vida” das Mães Solteiras está cá fora no primeiro dia de outubro. Concerto de apresentação do novo álbum está marcado.

Prometeram ser breves e não nos deixaram muito tempo com sede, saciando-a com o segundo disco, que Mães Solteiras assumem como um desabafo que não fica preso na garganta.

A misteriosa força do músculo cardíaco dos quatro elementos de Mães Solteiras volta à carga e espalha-se por treze temas — entre eles, uma versão de “Era de Noite e Levaram”, de José Afonso, com letra de Luís Oliveira de Andrade — crus, interventivos, breves e, contudo, incisivos, a jorrarem punk e hardcore pelas veias. Géneros que nos fazem crer que nunca morreram desde o surgimento da banda.

Os verdadeiros protagonistas desta história que nos cantam não somos nós, mas a própria história que se repete. Do sonho americano ao peso da tecnologia, passando pelos medos do patrão, as Mães Solteiras sublinham a urgência de cantar um mundo que cansa, porque está cansado das histórias repetitivas dos tempos modernos.

Para o caso de andarmos desnorteados neste percurso em que somos apenas um rosto anónimo no meio de outros milhões, Quim Albergaria, André Henriques, Pedro Cobrado e Ricardo Martins servem-nos de bússola de resistência máxima, através de ritmos viscerais e de uma urgência de ação coletiva.

O dia que vivemos hoje espalma-nos o tempo com abreviaturas satisfatórias de um sonho americano; a necessidade de ser mais, sem ser melhor; o dinheiro rápido que paga tudo; a produtividade e o consumo imediatos.

“Puxa-Vida” sugere-nos que nos juntemos e que sejamos plurais.

Afinal, o amor é uma forma de luta e nós temos de lutar nesta embriaguez fugaz em que vivemos. Amor e luta fazem parte do mesmo movimento, lembram-nos as Mães Solteiras.

Afinal, o amor é uma forma de luta e nós temos de lutar nesta embriaguez fugaz em que vivemos. Amor e luta fazem parte do mesmo movimento, lembram-nos as Mães Solteiras. Os sonhos não enferrujam enquanto houver línguas afiadas que convocam à luta para sair à rua de punho erguido.

Juntemo-nos no dia 8 de outubro, no B.Leza, numa geografia conjunta que já pertence — e continuará a pertencer — à nossa memória consciente e coletiva.

As Mães Solteiras prometem punk forjado a ferro e fogo, prendendo-nos pelos olhos, pelos ouvidos e pelos pensamentos a um presente e a um futuro com mais justiça e igualdade.

Que a dor que nos acorda hoje seja a razão para nos mantermos despertos na luta, como se o nosso corpo fosse um íman puxado pelas ondas sonoras que as Mães Solteiras nos lançam.

Puxa-vida, e puxemos bem a corda para que o barco não afunde.