Há três décadas, a 30 de julho de 1996, chegava às lojas um dos discos ao vivo mais marcantes do rock alternativo: o “MTV Unplugged” dos Alice In Chains. O que devia ter sido apenas mais um episódio da famosa série acústica da MTV acabou por se tornar um dos registos mais emblemáticos da geração grunge e um dos momentos mais importantes da história da banda de Seattle.
Quando subiram ao palco do Majestic Theater, na Brooklyn Academy of Music, a 10 de abril de 1996, os Alice In Chains não tocavam ao vivo há mais de dois anos. O hiato, arrastado desde janeiro de 1994, não era um capricho, foi o resultado da espiral de dependência de Layne Staley e do clima de incerteza que envolvia o futuro do grupo.
A MTV já insistia há anos para que aceitassem participar na série “Unplugged”, mas Jerry Cantrell sempre teve dúvidas sobre a forma como o peso sombrio e denso da banda poderia ser transportado para um contexto acústico. Como o próprio Jerry Cantrell recordou anos mais tarde à Kerrang!: «Pensávamos: “Sem desrespeito, mas isto já não foi feito por toda a gente? Nós não precisamos de fazer isto!”». A resistência não se devia apenas ao receio de seguir uma tendência já abraçada por várias bandas da cena de Seattle. Cantrell questionava-se também sobre até que ponto as canções dos Alice In Chains conseguiriam sobreviver à ausência da distorção e do peso que caracterizavam o som do grupo.
Quando finalmente aceitaram o convite, encontravam-se numa posição invulgar: tinham lançado o álbum homónimo em 1995, mas praticamente não o tinham promovido ao vivo.
Os bastidores foram tudo menos tranquilos. Os ensaios foram escassos, Jerry Cantrell enfrentava uma intoxicação alimentar no próprio dia da gravação e Layne Staley surgiu visivelmente debilitado, tornando evidente a batalha que travava longe dos holofotes.
Estava doente como um cão. Mas quando a luz ficou verde, as câmaras começaram a gravar e começámos a tocar, o meu corpo deu-me a descarga de adrenalina e dopamina de que precisava para aguentar. Tornou-se num dos melhores concertos que já demos.
Jerry Cantrell
A cenografia acabou por refletir o estado de espírito da noite. As dezenas de velas brancas espalhadas pelo palco criaram uma atmosfera simultaneamente intimista e fúnebre, uma imagem que acabaria por se tornar uma das mais icónicas de toda a história da MTV.
Mas assim que ecoaram os primeiros acordes de “Nutshell”, as dúvidas desapareceram. Durante pouco mais de uma hora, a banda entregou uma actuação intensa e emocional, revisitando temas como “Rooster”, “Down In A Hole”, “Would?”, “Heaven Beside You” e “Over Now”. O alinhamento incluiu ainda “The Killer Is Me”, uma composição inédita apresentada ao público pela primeira vez naquela noite.
Sem a habitual parede de distorção, as harmonias vocais entre Staley e Cantrell ganharam um protagonismo renovado. As canções revelaram detalhes melódicos muitas vezes escondidos nas versões elétricas, confirmando que a força dos Alice In Chains estava tão presente na composição como no peso das guitarras.
Para além da carga emocional, a noite teve também várias particularidades técnicas que continuam a despertar o interesse de músicos e entusiastas de equipamento. Jerry Cantrell procurou preservar a identidade sonora da banda mesmo num formato acústico, recorrendo às suas guitarras Guild acústico-elétricas e mantendo a afinação meio tom abaixo que ajudou a definir o som dos Alice In Chains ao longo da década.
A tarefa não era simples. Muitas das canções da banda assentavam em múltiplas camadas de guitarra criadas em estúdio, pelo que a presença de Scott Olson, músico ligado aos Heart, foi fundamental para recriar algumas dessas harmonias em palco. O resultado permitiu manter a riqueza dos arranjos sem comprometer a intimidade que o formato exigia. Também a captação e produção desempenharam um papel essencial. A clareza com que cada instrumento e cada harmonia vocal surgem no disco ajudou a transformar o concerto numa referência não apenas artística, mas também sonora, entre os muitos episódios da série “MTV Unplugged”.
O momento mais descontraído da noite ficou estampado no baixo de Mike Inez. Com os Metallica sentados na primeira fila, o baixista escreveu a marcador a célebre frase «Friends Don’t Let Friends Get Friends To Cut Their Hair» [Amigos não deixam amigos cortar o cabelo], uma provocação bem-humorada dirigida aos amigos que tinham recentemente adotado um novo visual para a promoção de “Load”.
Curiosamente, a crítica da época não foi unânime. Houve quem considerasse que os arranjos acústicos pouco acrescentavam às versões originais. O tempo acabaria por contrariar essa leitura.
O que continua a distinguir este “MTV Unplugged” não é apenas a qualidade das interpretações. Ao contrário de muitos outros concertos da série, existe uma tensão permanente entre aquilo que se vê e aquilo que se ouve. A fragilidade de Layne Staley era impossível de ignorar, mas a sua voz mantinha uma intensidade impressionante. Essa contradição acabou por dar ao espetáculo uma intensidade difícil de encontrar noutros concertos da série. e ajudou a transformá-lo num dos momentos mais memoráveis da história da MTV.
No final da gravação, o vocalista despediu-se do público com uma frase simples que hoje tem um siginificado demasiado penoso: «I wish I could just hug you all, but I’m not gonna.» [Gostava de poder abraçar-vos a todos, mas não vou fazê-lo.]
O impacto desta apresentação só ganhou a sua verdadeira dimensão com o que aconteceu a seguir. Poucos meses depois, os Alice In Chains ainda fariam as primeiras partes de alguns concertos dos Kiss, mas essas acabariam por ser as últimas atuações de Layne Staley com a banda. Embora o vocalista só viesse a falecer em abril de 2002, nunca mais regressaria aos palcos. Nos anos seguintes afastou-se quase por completo da vida pública, voltando a trabalhar com os Alice In Chains apenas em estúdio para gravar as canções “Get Born Again” e “Died”, editadas em 1999 na coletânea “Music Bank”.
Três décadas depois, este “MTV Unplugged” continua a figurar entre os álbuns ao vivo mais celebrados da sua era. Não por ser uma raridade na discografia dos Alice In Chains, mas porque capta algo que poucos discos conseguem preservar: a capacidade de transformar dor, incerteza e vulnerabilidade em arte duradoura.
Trinta anos depois, continua a ser muito mais do que um álbum ao vivo. É o retrato de uma banda no limite das suas forças e, simultaneamente, uma demonstração daquilo que a tornou especial. Poucos concertos envelheceram tão bem. Menos ainda continuam a provocar a mesma sensação de desconforto, admiração e melancolia que este “MTV Unplugged” ainda provoca hoje.