MAYHEM c ines barrau
(c) Joana Cardoso

Mayhem em Lisboa: Uma Descida ao Pandemonium em Noite de São Valentim

15/02/2026

Review

Mayhem
8/10
Marduk
7/10
Immolation
7/10
Som
8/10
Ambiente
10/10
Overall
8.0/10
Realm of Endless Misery
Buried by Time and Dust
Bad Blood
Life Is a Corpse You Drag
Ancient Skin
Psywar
To Daimonion
View From Nihil
Whore
Freezing Moon
Chimera
Cursed in Eternity
From the Dark Past
Weep for Nothing
Deathcrush
Chainsaw Gutsfuck
Carnage
Pure Fucking Armageddon

No dia mais romântico do calendário gregoriano uma lúgubre negritude pairou sobre Lisboa. A Death Over Europe Tour trouxe à capital portuguesa três grandes nomes da música extrema com os “senhores do caos” Mayhem a liderar um contingente composto também pelos blasfemos Marduk e Immolation.

Dentro do metal, e também fora dele, os Mayhem sempre foram uma banda de culto. Talvez mais reconhecidos pelas suas façanhas extramusicais do que propriamente pelo seu papel como pioneiros do black metal norueguês, uma variação mais extrema e abrasiva do black metal original cunhado pelos Venom, os Mayhem sempre se mantiveram relevantes e ativos dentro da sua escala performativa e do seu círculo de influência. Mas, se até meados da década de 2010 a banda de Oslo apresentava-se para um público que tinha crescido nos anos 90 a acompanhar o desenvolvimento da cena norueguesa, agora nota-se que houve algumas transformações na demografia presente nos seus concertos.

Com o lançamento do biopic ficcionado “Lords of Chaos” (2018), assim como das comédias “Deathgasm” (2015) e “Heavy Trip” (2018), não só a banda como todo o género e a estética do black metal, chegaram a novos públicos, nomeadamente a jovens adolescentes que ao inteirarem-se de todo o historial dos Mayhem passaram a olhar para a banda como uma entidade quase mitológica, digna do tão fascinante folclore nórdico. Desta forma, não é de estranhar que após quase uma década da sua última passagem por Lisboa, os Mayhem tenham esgotado o LAV – Lisboa Ao Vivo para um concerto que, paradoxalmente e num acaso feliz, teve lugar no dia dos namorados, do amor e dos afetos, seja qual for a designação que queiram dar. Para tal também contribuiu e muito o cartaz que se formou para escurecer ainda mais esta noite. Os suecos Marduk assim como os norte-americanos Immolation foram os nossos primeiros guias de uma viagem que nos levou até às profundezas do Pandemonium.

Immolation 

Num cartaz dominado pela negritude escandinava, os nova-iorquinos Immolation abriram as hostilidades com uma prestação vertiginosa, mas bem precisa. Death metal com guturais cavernosos é a especialidade da banda liderada pelo baixista e vocalista Ross Dolan e, verdade seja dita as expectativas não foram defraudas. Por norma, a primeira banda a subir ao palco é sempre a menos experiente, mas, quando se tem um lineup com três bandas com mais de trinta e cinco anos de experiência, a qualidade está quase sempre assegurada. 

Com um set generoso de quarenta e cinco minutos, os Immolation centraram as suas atenções em “Acts of God” (2022), o seu mais recente trabalho de estúdio. Porém, levantaram um pouco o véu do seu próximo álbum “Descent”, que será editado em Abril de 2026, com a apresentação do tema “Adversary”. Com um estilo de música repleto de frequências graves e executado rapidamente, por vezes é difícil encontrar definição nos vários elementos sonoros. No caso dos Immolation isso não foi problema com os guturais de Dolan a furarem bem entre as notas do seu baixo e os solos de Robert Vigna a encontrarem espaço entre os riffs de Alex Bouks e da bateria, bem ao estilo de uma metralhadora, de Steve Shalaty. O resto do set desenrolou-se um pouco por toda a discografia da banda com destaque para “Dawn of Possession”, faixa-título do primeiro álbum dos Immolation

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Marduk

A par com os Dark Funeral, os Marduk são uma das grandes instituições do black metal sueco. É certo que, a comparar com a cena norueguesa, a Suécia não teve tanta expressão, mas é importante relembrar que uma das grandes figuras do black metal norueguês foi Per Yngve “Pelle” Ohlin akaDead“, o vocalista mais marcante dos Mayhem e que, curiosamente, tinha origem sueca.

Em Portugal, os Marduk são uma banda com uma grande legião de fãs. Tal é justificado pelas muitas visitas ao longo dos quase últimos trinta anos, mas também por uma mítica reportagem intitulada “Sons do Extremo” que a SIC exibiu em 1999 onde foi explorada a relação entre o black metal e o satanismo. Um dos focos dessa reportagem foi precisamente o concerto de estreia dos Marduk em Portugal, que aconteceu a 20 de Outubro de 1999 no antigo Hard Club, em Vila Nova de Gaia. Além de exibir imagens do concerto, a SIC ainda entrevistou “Legion“, o vocalista que muitos consideram parte da formação clássica da banda.

Com “Mortuus” à frente da banda desde 2004, os Marduk têm conseguido manter uma certa relevância articulando o legado com a contemporaneidade. As suas letras carregadas de temáticas associadas à história política do séc. XX, bem ao estilo dos seus conterrâneos Sabaton, demarcam os Marduk de todas as bandas que apenas proclamam o anticristianismo.

“Frontschwein” fez o mosh pit explodir no imediato. Mas foi “Wolves” com o seu encandeamento rítmico menos convencional que agarrou o LAV por completo num headbang coletivo fruto do riff orelhudo de Morgan Steinmeyer Håkansson. Apesar da performance bem coesa, Mortuus demonstrou-se por várias vezes insatisfeito com a mistura em cima de palco, particularmente no que diz respeito aos níveis dos bombos da bateria. Essas deficiências sonoras acabaram por não passar para o público.

As expectativas dos fãs em ouvir o material clássico da banda não foram defraudadas com temas como “Sulphur Souls”, “On Darkened Wings”, “Infernal Eternal” e a malha de assinatura “Panzer Division Marduk” a serem disparados como tanques de guerra. Numa volta de 360º, “The Blond Beast” encerrou a prestação dos suecos com um regresso ao álbum “Frontschwein” (2015). Na despedida, os cânticos do nome da banda, a fazer lembrar esse mítico concerto do Hard Club já referenciado acima, não deixaram margem para dúvidas de que os Marduk ainda são um nome de grande respeito dentro do black metal.

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Mayhem 

Acabadinhos de lançar o seu sétimo álbum de estúdio “Liturgy of Death” (2026), os Mayhem regressaram a Lisboa para uma liturgia negra pautada por uma produção visual que elevou toda a componente teatral que caracteriza um concerto da banda norueguesa. Apesar dos mais de quarenta anos de história, esta foi apenas a quinta vez que a banda se apresentou em Portugal, e a segunda em Lisboa, algo que, naturalmente levou os fãs a esgotarem o LAV. É certo que os Mayhem continuam a ser uma banda de nicho, mas, fora do espectro musical são um autêntico caso de estudo da cultura pop. Dos vídeos de investigação feitos por youtubers que se dedicam ao estudo dos acontecimentos/crimes macabros ligados à banda, passando pelo merchandise já vestido por figuras públicas como as Kardashians, podemos afirmar que existem uns Mayhem dentro do nicho black metal e outros que galgaram essa fronteira musical para se tornarem num fenómeno demasiado pop para as convenções estipuladas pelo seu grande estratega Øystein Aarseth akaEuronymous“.

É certo que os Mayhem continuam a ser uma banda de nicho, mas, fora do espectro musical são um autêntico caso de estudo da cultura pop.

Pioneiros do corpse paint nas suas apresentações, na mais recente encarnação da banda apenas o guitarrista Morten Bergeton Iversen aka “Teloch” e o vocalista Attila Csihar utilizavam esta maquilhagem, no entanto com a entrada no ciclo “Liturgy of Death” parece que “Teloch” deixou a caracterização facial de parte, fazendo assim com que Attila seja o único membro da banda a encarnar a estética clássica do black metal norueguês. Fazendo assim jus ao título do álbum, Attila apareceu em palco como um padre cadáver, bem ao estilo da personagem que Tobias Forge criou para os seus Ghost

“Realm of Endless Misery” disparou o primeiro sermão de uma performance pautada por uma precisão cirúrgica do princípio ao fim. Aqui a técnica é trocada pelo encadeamento rápido dos riffs onde a destreza da mão direita nas guitarras e baixo é essencial para a sonoridade afiada que tão bem caracteriza o black metal norueguês.

Numa setlist abrangente os temas do clássico “De Mysteriis Dom Sathanas ” (1994) foram dos mais celebrados pelos fãs. De “Buried by Time and Dust” a “Cursed in Eternity” e “From the Dark Past”, passando por “Freezing Moon”, com a icónica introdução «When it’s cold, and when it’s dark the moon can obsess you! The dark of the Freezing Moon!» criada por “Dead” foram momentos de puro êxtase e libertação no mosh pit. No palco, um manto de luzes azuis, alusivas à capa do álbum, mergulhou o LAV numa gélida e pálida noite. 

A guiar as composições perfurantes dos Mayhem esteve como sempre Jan Axel Blomberg  aka “Hellhammer”, um autêntico metrónomo humano nas blast beast e nos acentos nos vários pratos que compõem o seu kit. No que diz respeito ao seu setup, “Hellhammer” é um fiel representante da estética dos 80s ao apresentar um kit Sonor SQ² megalómano com bombo duplo, uma série de timbalões em linha e uma rack suspensa repleta de pratos. Já nas cordas “Teloch” não dispensou a sua LTD EC-1000 Duncan, enquanto Charles Hedger akaGhul” recorreu a uma ESP LTD M-1000HT. No baixo, Jørn Stubberud akaNecrobutcher” não largou o seu Gibson Les Paul Junior Tribute Doublecut.

Teatral, Attila alternou o seu figurino de padre cadáver com um traje de cariz militar para a segunda metade do concerto. Com o vocalista a apresentar-se como o único elemento da banda a encarnar uma personagem macabra muitos dos olhares do público focaram-se na sua performance profundamente comprometida para com o legado da banda. Vocalmente, Attila mostrou-se irrepreensível com a sua voz putrificada a levar um pouco da textura vocal de “Dead” a todos aqueles que nunca tiveram oportunidade de assistir a um concerto dos Mayhem com o lendário frontman sueco.

Para o encore, a banda preparou uma autêntica viagem no tempo até ao saudoso ano de 1987, ano em que foi editado o seu primeiro EP “Deathcrush”. Antes de reentrar em palco, a banda presenteou-nos com um vídeo repleto de fotos icónicas tiradas nos primeiros anos do grupo pelo amigo Jon “Metalion” Kristiansen, fundador da Slayer Mag. Já com os músicos nos seus postos surgiram de rajada “Deathcrush”, “Chainsaw Gutsfuck”, “Carnage” e “Pure Fucking Armageddon”, todas provenientes do EP e que elevaram ainda mais o contentamento de um público já profundamente saciado com tamanha demonstração de uma brutalidade devastadora.

No fim, talvez contagiado pela data em que o concerto decorrera, Attila lá deixou passar um pingo de emoção quando se demorou na despedida e nos agradecimentos. Afinal, parece que os demónios também têm coração.

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