Do jazz ao indie, da contemplação à ginga, o terceiro dia do MEO Kalorama 2025 trouxe-nos duas propostas de relevo no Palco San Miguel. De um lado os BadBadNotGood, banda de referência da nova vaga da música de fusão, e do outro, os Royel Otis, um dos nomes mais promissores do indie rock australiano.
BadBadNotGood
Custou, mas no fim os BadBadNotGood lá conseguiram agarrar o público do Kalorama. Do jazz ao funk, passando pelo hip-hop, a banda canadiana soube agitar os ouvidos menos treinados com uma jam session que tanto teve momentos de muito groove como de improvisação livre.
Posicionados no mesmo escalão de bandas como Snarky Puppy e Ezra Collective, os BadBadNotGood apresentam-se como um dos projetos mais interessantes da nova vaga da música de fusão. Com fortes raizes no jazz, a banda divaga a sua sonoridade para espectros como o funk e, particularmente, o hip-hop, tendo colaborado com pesos-pesados como Ghostface Killah, Tyler The Creator e Kendrick Lamar.
Todavia, os seus concertos são essencialmente performances instrumentais, com muita improvisação à mistura. Por vezes, podem surgir dois ou três temas cantados, em muitos casos em formato de cover, mas é mesmo no virtuosismo solístico, no groove e na coesão entre músicos que está o foco dos seus concertos.
Para quem conhece o bê-á-bá do jazz e da música de jam, sabe naturalmente que as suas performances consistem na sua maioria em temas com longas secções solísticas de um ou mais instrumentistas. Cientes de que o MEO Kalorama se apresenta como um festival mainstream, e com um público menos “erudito”, seria expectável um certo aborrecimento generalizado aquando do florescimento destas secções. E assim foi, mais ou menos até metade do concerto.
Sem dispor de um frontman propriamente dito, é o baterista, e líder da banda, Alexander Sowinski, que divide funções entre as baquetas e a arte do MC. Desde o puxar pela interação do público, à transição entre músicas, até à apresentação de cada músico após a secção solística, é Sowinski que carrega grande parte da performance às costas.
O início surgiu com uma veia humorística associada, pois foi ao som de “War Pigs” dos míticos Black Sabbath que a banda entrou em palco. Para quem não está familiarizado com a sua formação, o core do grupo apresenta-se como um trio: Alexander Sowinski na bateria, Chester Hansen no baixo e Leland Whitty no saxofone e guitarra. A eles juntam-se ao vivo Felix Fox nos teclados, Juan Carlos Medrano Magallanes na percussão e Kae Murphy no trompete e no EVI, um instrumento de sopro eletrónico que funciona como um controlador MIDI.
Ainda com o sol a brilhar atrás do Palco San Miguel, ficou impossível, até para os que não estavam familiarizados com o tema, não gingar ao som daquelas palavras ricas em vitamina D.
De “Eyes On Me” a “Confessions” foi-nos servido jazz tropical com sabor a verão com alguns desvios para o psicadelismo e o hip hop instrumental. Da difícil digestão auditiva de uns para a contemplação em transe de outros, foi um misto de reações e expressões que encontrámos entre o público.
Mas, tudo começou a mudar e a homogeneizar-se aquando da primeira cover. Numa homenagem a uma das suas referências musicais que partiram recentemente, Sowinski anunciou que o próximo tema seria uma cover de Sly & the Family Stone. O funk de “Family Affair” entranhou-se nos ossos e músculos dos mais céticos e em poucos segundos já estavam em sintonia com a banda canadiana. Mais à frente, a segunda homenagem da noite, desta vez ao pioneiro do jazz-funk, Roy Ayers, foi celebrada ao som de “Everybody Loves The Sunshine”. Ainda com o sol a brilhar atrás do Palco San Miguel, ficou impossível, até para os que não estavam familiarizados com o tema, não gingar ao som daquelas palavras ricas em vitamina D.
Já, propositadamente, para o fim ficou “Last Laugh”. A divagar para os caminhos do rock, o tema apresentou-se como o digestivo ideal de uma refeição sonora rica em nutrientes rítmicos e melódicos. A banda saiu de palco sob uma chuva de aplausos de um público que se deslocou de seguida para o Palco MEO certamente com os ouvidos embuchados.
Royel Otis
Foi em tons rosa e branco que os Royel Otis construíram a base visual da sua performance. A nova promessa do indie rock australiano proporcionou uma experiência audiovisual repleta de emoção, mas também de algum humor.
Com um visual a puxar para o grunge, Royel Maddell e Otis Pavlovic, parecem enganar os mais distraídos. Aqui o repertório não assenta em guitarras excessivamente distorcidas e em letras com temáticas depressivas, mas sim em sonoridades mais flutuantes associadas a um romantismo utópico. Mas, tudo isso é desconstruído com frases como «o espetáculo já começou», «esta canção não fomos nós que escrevemos», «pausa para falar», «dancem com a pessoa que está ao vosso lado» e «ajudem-nos a cantar esta» todas elas projetadas na tela de fundo.
Da postura louca de Maddell à contenção de Pavlovic, o duo consegue agradar tanto à fação do rock como à do indie através de composições que articulam o balanço do primeiro com a delicadeza do segundo.
Temas como “Moody”, “I Wanna Dance with You”, “Til the Morning” e “Merry Mary Marry Me” destacaram-se dos demais com as suas melodias envolventes e um trabalho de guitarra de Maddell de registo. O músico apresenta uma das mãos direitas mais seguras que já ouvimos ao vivo, nos últimos tempos, executando padrões intrincados com uma clareza ímpar.
Mas, à semelhança dos BadBadNotGood, também os Royel Otis jogaram a cartada das covers para puxar ainda mais pelo público. Primeiro com “Murder on the Dancefloor” de Sophie Ellis‐Bextor, numa reinterpretação exímia da sua performance para o segmento “Like A Version” da rádio Triple J, e depois com “Linger” dos The Cranberries, só com Maddell e Pavlovic em palco e um coro de vozes gigante a acompanhá-los.
A descomprometida “Oysters in My Pocket”, o single que lançou a banda, ficou guardada naturalmente para o fim. Numa alusão à simplicidade da vida e ao desfrutar das pequenas coisas, os Royel Otis sintetizaram numa música toda a experiência sentida no concerto. Se tens ostras no bolso ou música no ouvido, é mais ou menos a mesma coisa, pois afinal de contas a riqueza não passa de um conceito abstrato.




















































