Com a luz do dia ainda a brilhar no Parque da Bela Vista, Father John Misty subiu ao Palco MEO para pregar o seu cancioneiro. Porém, o folk rock introspetivo do músico norte-americano não soprou ao ouvido dos mais distraídos que ainda aproveitavam para passear pelo recinto.
Com uma postura galante, mas ao mesmo tempo comedida, Father John Misty entrou pelo Palco MEO adentro para dar mais um sermão em terras nacionais. Entre o público via-se um pouco de tudo, fiéis dispersos, curiosos de passagem e mais uns quantos a contemplar a tranquilidade sonora do cantautor bem refastelados no alto das colinas. Concertos como os que Father John Misty proporciona exigem ambientes intimistas e, se há coisa que a Bela Vista não consegue proporcionar, é esse aconchego. Ora devido à circulação agitada e barulhenta dos festivaleiros, ora devido aos decibéis elevados que propagaram a música pelo recinto, prejudicando a perceção dinâmica das vozes e de certos instrumentos, podemos dizer que não estiveram reunidas as condições ideais para apreciar a partilha espiritual que Father John Misty trouxe até nós.
“Mahashmashana”, o álbum editado em 2024, esteve sempre no centro da setlist. Este é um trabalho que traz uma componente mais progressiva ao seu repertório, com músicas que se estendem para lá dos oito minutos. “I Guess Time Just Makes Fools of Us All”, o tema que abriu o concerto, é um exemplo dessa exploração. Apesar da sua performance imaculada, o público do MEO Kalorama não pareceu estar disposto a aventurar-se em viagens sonoras demasiado densas. Por sua vez, “Josh Tillman and the Accidental Dose” doseou esse paradigma. A música trouxe algumas referências do material de Nick Cave, com uma performance vocal onde a spoken word e o canto se misturam de forma quase indissociável, resultando assim numa envolvência cativante para o público.
Apesar da sua performance imaculada, o público do MEO Kalorama não pareceu estar disposto a aventurar-se em viagens sonoras demasiado densas.
Profundamente expressivo em cima do palco, Fahter John Misty transforma a sua performance num momento de elevada introspeção e “Nancy From Now On” e “Mr. Tillman” ilustraram bem essa faceta. Não fossem os graves do baixo estarem a estourar no PA e a audição teria sido ainda mais prazerosa.
Sem grandes qualificações enquanto guitarrista, Father John Misty apresenta-se como um homem simples, servindo-se apenas do melhor. Duas Martin, uma D-28 e uma HD-28, foram os modelos que passaram pelas suas mãos.
Para agitar as águas, o músico sacou da malha garage rock “She Cleans Up”, uma brisa para todos aqueles que estavam a passar por um período de algum aborrecimento. Com a edição deste ano do festival reduzida a dois palcos principais (mais um terceiro dedicado à eletrónica), não existiram propriamente alternativas de concertos para escolher, pois os palcos seguiam a sua programação de forma alternada. Por isso, das duas uma, ou desfrutava-se do concerto ou dava-se uma volta pelas bancas dos patrocinadores ou pela zona da restauração. Posto isto, temos a dizer que o modelo antigo de três palcos era muito mais do nosso agrado, pois dava mais vida ao festival e gerava mais opções de escolha.
Mas voltemos a Father John Misty. “Screamland” trouxe novamente a introspeção vocal à la Nick Cave para primeiro plano. Quer se goste mais do registo folk acústico ou indie rock do músico norte-americano, é sem dúvida nestas composições mais reflexivas que a sua performance sobressai, pois sente-se que existe toda uma carga mais intensa na entrega das palavras.
Da partilha da sua vulnerabilidade em “Mental Health” à ascensão espiritual de “Mahashmashana”, foi na romântica “I Love You, Honeybear” que Father John Misty confiou as honras de encerramento. Aplausos tímidos foi o que se ouviu na sua despedida, mas o músico não pareceu importar-se. Afinal de contas, sabe perfeitamente que é nos teatros intimistas que a sua música tem lugar e não num parque gigante completamente despido.












































