Perante um MEO Kalorama muito despido, os veteranos do synth pop britânico, Pet Shop Boys, proporcionaram uma boa dose de pecado musical, onde não faltaram os grandes êxitos que marcaram as boates dos anos 80. No mundo dos sonhos do duo inglês tudo é mais colorido e leve.
A História
Quando os Pet Shop Boys iniciaram a sua trajetória enquanto duo, em Londres, em 1981, rapidamente se tornaram numa das maiores forças do movimento synth pop britânico ao lado de nomes como Depeche Mode e Duran Duran. Com recurso a tecnologia de ponta, para época, o grupo desenhou melodias que viriam a tornar-se hinos pop. Do Fairlight CMI, um sintetizador/computador que permitia criar samples digitais e sequências, ao PPG Wave, com a sua síntese de wavetable, passando pelo E-mu Emulator, um sampler que permitia armazenar as criações em disquetes, os Pet Shop Boys foram traçando uma imagem de marca sonora que apaixona fãs de música eletrónica de todas as gerações .
Como se isso não bastasse, ao vivo, o duo agiganta-se ao presentear os fãs com uma produção visual envolvente e hipnotizante. Não vamos dizer que estamos propriamente numa rave, como acontece nos concertos da compatriota Charli XCX, mas o que é certo é que os Pet Shop Boys transportam-nos para um mundo paralelo, esse “dreamworld” que tanto falam, e no MEO Kalorama 2025 isso foi palpável com os nossos olhos e ouvidos.
Em 2025, e com quase quarenta e cinco anos de carreira, os Pet Shop Boys poderiam estar facilmente a viver descansadamente do legado. Todavia, a componente criativa fala mais alto e o grupo continua a lançar álbuns regularmente – o último, intitulado “Nonetheless”, data de 2024.
Em 2025, e com quase quarenta e cinco anos de carreira, os Pet Shop Boys poderiam estar facilmente a viver descansadamente do legado. Todavia, a componente criativa fala mais alto e o grupo continua a lançar álbuns regularmente – o último, intitulado “Nonetheless”, data de 2024.
Ainda assim, este último trabalho não teve qualquer tipo de representação na setlist que o duo apresentou no Parque da Bela Vista. A banda tem preferido manter o alinhamento praticamente intacto, pelo menos, de há dois anos para cá. Aliás, se consultarmos a setlist do concerto do Primavera Sound do Porto, em 2023, iremos encontrar uma ordem praticamente igual. Esta jogada acaba por ser comum, e totalmente válida, em grupos com uma grande longevidade, visto que a procura em manter uma certa rotina dentro e fora de palco torna-se essencial para trazer alguma estabilidade não só performativa, mas também mental.
O Concerto
Sem grandes atrasos, somos encaminhados a entrar no mundo dos sonhos com uma melodia reminiscente de “Assim Falou Zaratustra” e quando damos por ela eis que surgem Neil Tennant e Chris Lowe em dois estrados iluminados pelo que pareciam ser dois candeeiros. Ao longo do concerto foi notória uma certa dicotomia no tipo de performance apresentada pelos dois. Tennant, o frontman, mostrou-se, naturalmente mais na luz, comunicativo e sorridente, já Lowe, procurou “esconder-se” ora atrás de uma máscara ora na escuridão e sempre que as câmaras apontavam para si lá estava a sua cara séria, possivelmente de concentração, a encarar o público enquanto percorria o teclado com um técnica “quase infantil”, que é como quem diz, com uma forma de tocar em staccato e com recurso a apenas um ou dois dedos.
Mas, técnicas performativas à parte, aquilo que os Pet Shop Boys nos proporcionaram foi um espetáculo dinâmico, dividido em várias secções, onde o resto da banda que os acompanha ao vivo também teve espaço para brilhar. “Suburbia” abriu espaço para o desfile de clássicos. A icónica linha de piano sintetizada estava lá, mas o vento que se fazia sentir teimava em empurrá-la de rajada de um array de colunas para o outro, chegando aos nossos ouvidos já um pouco distorcida.
Incapazes de lutar contra o vento, a atuação prosseguiu com uma minimização dos estragos e quando chegámos ao medley de covers “Where the Streets Have No Name / Can’t Take My Eyes Off You” tudo parecia estar mais limpo. «Hoje vamos fazer uma viagem pelo mundo dos sonhos, onde a música toca para sempre e as ruas não têm nome», foi assim que Tennant anunciou a primeira de várias covers, algo que os Pet Shop Boys sempre abraçaram, e bem, no seu repertório. Longe da cópia, o grupo sempre procurou dar um cunho pessoal a essas versões e por isso é que várias delas se tornaram ainda êxitos maiores do que alguns dos seus originais.
Por outro lado, a mestria do grupo passa também por explorar as várias facetas da eletrónica e da música de dança.
Por outro lado, a mestria do grupo passa também por explorar as várias facetas da eletrónica e da música de dança. “I Don’t Know What You Want but I Can’t Give It Any More” mostrou que os Pet Shop Boys também têm pergaminhos no dance pop e no disco. A danceteria estava montada com o aquecimento perfeito para os franceses L’ Imperatrice que subiram ao Palco San Miguel logo a seguir aos ingleses.
Já “So Hard” marcou o fim do “primeiro ato” com a grande tela que cobria a banda a subir para apresentar os protagonistas anónimos. Por sua vez, “The Pop Kids”, uma das malhas mais recentes, demonstrou que a banda tem seguido as convenções da música eletrónica contemporânea com o four on floor a impor-se nos nossos ossos como manda a regra.
“You Were Always on My Mind” é daqueles casos em que a cover se tornou maior que o original. O tema, emprestado por Gwen McCrae, “obrigou” os festivaleiros a puxarem do telemóvel para registar o momento e gingarem ao som da icónica melodia do teclado de Lowe e da batida pulsante. Num momento raro ao longo do concerto, Tennant também fez questão de apontar o microfone para o público para averiguar se existiam muitas gargantas afinadas na Bela Vista. O resultado foi certamente o esperado.
Mais à frente, e num momento de maior comunhão com a sua backing band, Tennant trouxe a teclista Clare Uchima para a frente de palco para interpretar “What Have I Done to Deserve This?” em dueto. É certo que o concerto encaminhava-se para o fim, mas ainda faltava escutar uma linha de keyboard icónica. Falamos, de “It’s a Sin”, êxito maior que puxou mais uma vez por uma plateia que se revelou profundamente murcha ao longo de toda a performance. O que nos leva a questionar se passaram pela Bela Vista fãs acérrimos dos Pet Shop Boys ou se o público era apenas e só composto por uma falange sedenta por ouvir aquela meia dúzia de clássicos.
Sem conseguir aferir o resultado, eis que chegou o encore. “West End Girls” e “Being Boring” encerraram o concerto com chave de ouro. É certo que foram pouco celebradas, mas a banda também não pareceu importar-se com tamanha apatia. Satisfeitos com a sua performance ausentaram-se do palco sem prometer um regresso. Se assim acontecer? Pelo menos que seja numa sala, em nome próprio e com os seus verdadeiros fãs, pois só assim se fará a reverência que estes reis do synth pop tanto merecem.

























