Abençoados mais uma vez pelo manto sagrado, os Turnstile protagonizaram o maior caos organizado já alguma vez visto no festival. Ao longo de 1 hora de concerto a banda de Baltimore converteu amor em mosh pits e comprovou que o seu hardcore nunca é demais.
Não é normal ver uma banda de renome internacional a visitar-nos três vezes num espaço de pouco mais de um ano. Aconteceu agora com os Turnstile, que após terem tocado no Primavera Sound do Porto em Junho de 2025, no LAV- Lisboa Ao Vivo em Novembro de 2025 vieram até ao MEO Kalorama para queimar os cartuchos finais da sua “Never Enough Tour”. Alguns puristas mais ressabiados com o sucesso da banda até podem ter recorrido à expressão “outra vez arroz”, mas percebe-se plenamente o porquê dos promotores portugueses quererem continuar a investir na sua vinda a Portugal.
A vitalidade da banda em palco, a energia que canalizam para o público e a tipologia de concerto que apresentam fazem dos Turnstile não só uma das melhores bandas da atualidade, como também uma das mais cobiçadas pelos promotores. Aliás, a sensação que dava ao caminharmos pelo recinto era de um concerto em regime co-headline e não de um festival, tal era a quantidade, bem equilibrada, de merchandise dos Turnstile e dos Deftones.
Como já é sabido pelas passagens anteriores, um concerto desta banda é sempre um evento durinho e propício a algumas mazelas físicas mais ou menos graves. Talvez, tenha sido por isso que em jeito de brincadeira tenham escolhido o tema “O Corpo É Que Paga” de António Variações para anteceder a sua entrada em palco com o crescendo explosivo de “BIRDS”.
Curiosamente, neste concerto a banda optou por “começar pelo fim” (geralmente “BIRDS” encerra os concertos com o público em cima do palco). Mas, isso nem sequer foi tema de discussão. Todos estavam ali para descarregar energia e levantar poeira em terras de Ivete Sangalo, seja qual fosse o alinhamento.
Com uma camisola do Benfica a cobrir o amplificador de baixo e a servir, mais uma vez, de amuleto, particularmente para o baixista Franz Lyons, a banda atirou-se sem tréguas a “Real Thing”. Visivelmente cansados, mas não vencidos, de uma série de três concertos seguidos no Reino Unido, França e Portugal, os Turnstile apresentaram-se em Portugal dispostos a servir o concerto que os consagrou para lá do nicho do hardcore.

Aliás, falar de hardcore é falar de união e proximidade, e o vocalista Brendan Yates representou bem essas raízes quando subiu às grades para cantar “ENDLESS” com os fãs que já voavam num crowd surf constante. Mas, engane-se quem acha que num concerto dos Turnstile só existe um protagonista. Em cada performance, a banda faz questão de dividir esse protagonismo com o público, com imagens captadas dentro do mosh pit por um cameraman que já é considerado por muitos fãs como o verdadeiro MVP da banda. Essas imagens acabam por ganhar vida quando são transmitidas ao vivo nos ecrãs do festival, mostrando assim o caos e a alegria que se vive nos seus concertos.
Encaixadas perfeitamente uma na outra “I CARE / DULL” trouxeram aquela dinâmica de calma e tempestade. A primeira, com reminiscências dos The Police invocou menos agressividade e uma dança mais gingona, já a segunda, surgiu como um momento de pura libertação de tensão com o baixista Franz Lyons a convocar a abertura de mosh pits.
No fim, nós é que temos que agradecer aos Turnstile por continuarem a proporcionar-nos um espaço onde podemos ser livres, sem julgamentos e unidos por um bem tão precioso como é a sua música.
Dos ritmos latinos a sobressaírem da bateria de Daniel Fang em “DON’T PLAY” ao sintetizador espacial de Brendan Yates em “SOLE” a palavra de ordem era para ninguém ficar parado um único segundo. Mesmo que o desejo fosse o contrário, tal é mesmo impossível, visto que este é daqueles concertos que se conseguires arranjar cinco segundos para respirar entre músicas já é muito.
Talvez, o início de “LOOK OUT FOR ME” tenha servido esse propósito. Da tensão à libertação do tema houve quem tivesse conseguido captar uma pequena brisa antes de voltar para o campo de batalha. O mesmo repetiu-se já no outro da música quando uma extensa secção eletrónica transformou, por breves instantes, o Parque da Bela Vista numa imensa pista de dança a céu aberto.
O segmento final composto pela sequência “HOLIDAY”, “BLACKOUT”, “NEVER ENOUGH” e “T.L.C. (TURNSTILE LOVE CONNECTION)” trouxe os refrõess mais audíveis da noite, assim como a catarse total nos derradeiros versos «I want to thank you for letting me see myself/I want to thank you for letting me be myself». No fim, nós é que temos que agradecer aos Turnstile por continuarem a proporcionar-nos um espaço onde podemos ser livres, sem julgamentos e unidos por um bem tão precioso como é a sua música.