O fenómeno do math rock microtonal convocou um culto para o Parque da Bela Vista.
Na era das bandas mascaradas, perante os olhares menos atentos, os canadianos Angine de Poitrine podem parecer simplesmente mais uns a navegar essa maré vitoriosa de projetos musicais misteriosos. Porém, ao contrário das restantes, a sua sonoridade está longe de ser a mais acessível aos ouvidos menos treinados. Pelo menos, isso era o que seria expectável quando estamos perante música com padrões rítmicos complexos e linhas melódicas dissonantes fruto do recurso a microtons. É certo que em contextos de nicho estas linguagens musicais estão mais do que assimiladas com referências como Frank Zappa e os King Gizzard & the Lizard Wizard, mas agora podemos afirmar que estamos perante um autêntico fenómeno de culto que, apesar de não resvalar para o mainstream, atinge números deveras impressionantes.
A génese da banda remonta a 2019, contudo, o burburinho à volta da mesma só começou quando em 2025 os Angine de Poitrine foram convidados para se apresentarem na famosa série de performances gravadas da KEXP aquando da sua passagem pelo festival Trans Musicales. Após a publicação da gravação no canal de youtube da estação de rádio norte-americana a explosão foi quase imediata. Em poucos meses somaram mais de 10 milhões de visualizações. Mas, não era só a música que soava a algo de outra galáxia, era também a apresentação enigmática da banda com máscaras espalhafatosas em papier machê, uma estética ao nível dos figurinos assente num padrão de bolinhas pretas e brancas e uma linguagem apenas entendida entre os dois elementos Khn (guitarrista/baixista) e Klek (baterista), digna de um dialeto não muito distante daquele que reconhecemos em R2-D2 da saga Guerra das Estrelas. Como se isto não bastasse, ainda se junta à equação um cordofone intergaláctico que Khn enverga em palco e que apresenta um braço de guitarra elétrica com uma combinação de escala cromática com uma escala microtonal com um outro braço de um baixo convencional. O design deste “Frankenstein” com cordas é da autoria de Raphaël Le Breton, um luthier proveniente de Saguenay, a cidade natal da dupla.


Agora, após uma semi despercebida passagem pelo festival Tremor, nos Açores, em Março de 2026, os Angine de Poitrine aterraram finalmente em Lisboa para fazer as delicias do seu culto polka dot e para deixar de olhos esbugalhados, ouvidos arregalados e boca bem aberta todos aqueles que tiveram a felicidade de se cruzar com a banda pela primeira vez no MEO Kalorama 2026.
Posicionados de frente um para o outro, Khn e Klek, mostram-se em palco profundamente focados nas suas funções. A comunicação e articulação entre os dois é mais do que verbal e visual, é telepática sem que esta deixe espaço para qualquer sensação de deslize ou falha. Afinal, fora de brincadeiras, estamos perante dois músicos com um domínio técnico do seu instrumento bastante apurado. Aliás, de outra forma não seria possível, pois caso a estética se sobrepusesse à qualidade dos músicos certamente não estaríamos hoje aqui a falar sobre eles.
Afinal, fora de brincadeiras, estamos perante dois músicos com um domínio técnico do seu instrumento bastante apurado. Aliás, de outra forma não seria possível, pois caso a estética se sobrepusesse à qualidade dos músicos certamente não estaríamos hoje aqui a falar sobre eles.
Do lado do público a entrega também foi total, com os fãs a corresponderem aos pedidos da banda seja em momentos jocosos, como se deu com a série de agachamentos ao sabor de uma progressão rítmica intrincada ou no ato de união do culto com centenas de mãos a fazerem em conjunto o símbolo da pirâmide que caracteriza a banda. Já para os mais destemidos a roda de mosh que se alargou ao longo de toda o concerto foi o verdadeiro sinal de apreço para com a performance dos Angine de Poitrine. Para nós, fãs de headbang, o verdadeiro desafio foi tentar acertar as cabeçadas na atmosfera com os tempos fortes dos compassos.
Por agora, ainda é cedo para perceber se os Angine de Poitrine têm margem de crescimento e de desenvolvimento. Até onde é que a sua experimentação pode ir? Como é que podem vir a reinventarem-se após o “Vol. II”? São algumas das perguntas que colocamos para um futuro não muito distante. Até lá vamos continuar a acompanhar o seu percurso e a elogiar a capacidade que este grupo tem de levar música complexa e dissonante até às massas de uma forma totalmente disruptiva. Bravo Angine de Poitrine!