MEO Kalorama 2026 | Anna von Hausswolff e MARO, A Banda Sonora da Noite e do Dia
(c) Inês Barrau

MEO Kalorama 2026 | Anna von Hausswolff e MARO, A Banda Sonora da Noite e do Dia

Review

Anna von Hausswolff
8/10
MARO
8/10
Som
9/10
Ambiente
7/10
Overall
8.0/10

Da melancolia gótica à luz do dia de Anna von Hausswolff à doçura indie folk de MARO já com o sol posto, assistimos a dois concertos soberbos, mas em fases do dia contraditórias.

Anna von Hausswolff

Referência da música disruptiva e experimental com contornos góticos, Anna von Hausswolff é uma artista que transforma as suas atuações em ritos imersivos onde o espetador e ouvinte é levado para uma atmosfera musical densa e lúgubre. A sua voz etérea, um dos elementos chave dessa sua linguagem musical, vai buscar referências ao kulning, uma prática vocal nórdica centenária utilizada na pastorícia e no chamamento do gado. Já, na componente instrumental, Anna vai beber, e muito, à música secular do barroco, época de grande desenvolvimento da música para orgão. Nos seus álbuns, a artista faz questão de gravar as faixas de órgão in loco em igrejas. No seu mais recente trabalho de estúdio, intitulado “Iconoclasts” (2025) Von Hausswolff gravou nas igrejas de Annedal e Örgryte, em Gotemburgo e em Vinberg. 

É certo que os ambientes sonoros que Anna von Hausswolff cria podem soar desconfortáveis para grande parte do público, mas se assim for, é sinal que a artista está a fazer um bom trabalho.

Visto que não é possível trazer para cima do palco um órgão de igreja, Anna trouxe para o MEO Kalorama um Hammond XK-7D. Uma simples nota do seu teclado foi suficiente para invocar uma atmosfera melancólica, tensa e magnética que só não se aprofundou e seduziu a totalidade da plateia devido à fase do dia em que o concerto decorreu. Uma música que é sombria, pesada em densidade e contemplativa pede um céu mais escuro e uma luz lunar, neste caso uma luz de lua cheia como se verificou nesse dia. Mas, não foi isso que aconteceu. Com o pôr do sol a aproximar-se o ambiente vivido entre o público foi de alguma dispersão e desatenção para com a performance de Anna von Hausswolff, talvez fruto de uma certa incompreensão da linguagem musical da artista.

Não obstante, Anna conseguiu materializar uma viagem sonora que teve tanto de espiritual como de sensorial. A sua voz a alternar entre um registo mais grave reverberante e notas agudas penetrantes apoiadas por um saxofone misterioso e expansivo e por guitarras elétricas de corda friccionada foram suficientes para deixarem muitos corpos pregados ao chão num transe profundo.

É certo que os ambientes sonoros que Anna von Hausswolff cria podem soar desconfortáveis para grande parte do público, mas se assim for, é sinal que a artista está a fazer um bom trabalho.

 

MARO

Há muito que aguardávamos este momento com expectativa – a subida de MARO ao palco principal de um grande festival de Verão. Não só por representar uma conquista já merecida, mas também para perceber como é que o seu material de cariz intimista se traduz num palco e num recinto de tão grandes dimensões.

A resposta foi profundamente positiva com uma moldura humana de proporções avantajadas a receber a sua música como uma abraço caloroso numa noite já fresquinha. Entre o burburinho constante de uma falange do público que certamente já aguardava por Robbie Williams, MARO não se sentiu diminuída e conseguiu impor as suas composições descomplexadas, mas ricas em texturas e arranjos dignos de uma alumni da Berklee College of Music.

Fiel a si própria, a cantautoura portuguesa não procurou agigantar a sua atuação com projeções ou elementos decorativos, mas sim criar um intimidade que pudesse ressoar com a pessoa que estivesse mais distante, sentada no relvado, simplesmente a contemplar aquele momento.

Com um espetáculo de habitualmente duas horas condensado em uma, MARO alternou entre temas serenos como “kiss me”, “Lifeline” e “We’ve Been Loving in Silence” e momentos mais dançáveis representados em “We could be” e “FEELING SO NICE”, dois piscares de olhos aos seus amigos Parcels.

O sorriso rasgado no seu rosto ao longo de todo o concerto, assim como os múltiplos obrigados direcionados ao público foi bem revelador da satisfação da artista para com mais um feito alcançado na sua carreira. Certamente, que quando MARO começou a sussurrar ao microfone há uns bons anos atrás, nada lhe fazia prever que pudesse vir a pisar palcos com cerca de 100 metros de largura por 20 de altura. Mas, isso também certamente não lhe tirou noites de sono. Fiel a si própria, a cantautoura portuguesa não procurou agigantar a sua atuação com projeções ou elementos decorativos, mas sim criar um intimidade que pudesse ressoar com a pessoa que estivesse mais distante, sentada no relvado, simplesmente a contemplar aquele momento.