MEO Kalorama 2026 | Deftones, A Religião Musical de Millenials, Zoomers e Alfas
(c) MEO Kalorama

MEO Kalorama 2026 | Deftones, A Religião Musical de Millenials, Zoomers e Alfas

31/08/2026

Review

Banda
9/10
Voz
8/10
Som
8/10
Ambiente
7/10
Overall
8.0/10
Be Quiet and Drive (Far Away)
Swerve City
Around the Fur
Cherry Waves
Feiticeira
Korea
Rosemary
my mind is a mountain
locked club
Entombed
Rocket Skates
Risk
Sextape
infinite source
My Own Summer (Shove It)
milk of the madonna
Change (In the House of Flies)
Lotion
7 Words

A fechar o festival, os Deftones transformaram o seu concerto numa comunhão sagrada multigeracional. Dos grandes êxitos às novidades de “Private Music”, a banda de Chino Moreno apresentou um concerto imersivo e intenso onde música, luz e projeções se fundiram numa explosão audiovisual.

[Não foi permitido à Arte Sonora fazer a habitual reportagem fotográfica]

«É entusiasmante ver que estamos literalmente maiores do que alguma vez estivemos nestes 30 anos de existência», estas são palavras do vocalista Chino Moreno para se referir ao fenómeno de popularidade que os Deftones têm vindo a atravessar desde a pandemia. Longe vão os tempos em que se descobria música na rádio ou nas lojas de discos com base no artwork das capas. Na era do imediatismo digital, a música circula a uma velocidade estonteante e um simples vídeo de meros segundos pode ser suficiente para gerar um fenómeno de viralidade. Foi precisamente isso que aconteceu com os Deftones a partir do momento em que a rede social TikTok passou a estar invadida por pequenos reels que continham a música da banda de Sacramento, Califórnia como banda sonora. A desempenhar o papel de protagonista nesses vídeos surgiam jovens adolescentes numa clara descoberta da sua identidade musical e visual na cultura alternativa.

Do outro lado da internet, Chino foi acompanhando o fenómeno com algum distanciamento. «Nunca tive uma conta de TikTok, portanto eu não vi nada disso a acontecer de forma física. Simplesmente contavam-me.» Independentemente da sua perceção os números não deixavam margem para engano: no Spotify o número de ouvintes mensais explodiu para mais de 9.8 milhões quando há poucos anos atrás rondava “apenas” os 2 milhões, no campo das vendas, álbuns antigos como “Around the Fur” (1997) tiveram um incremento de 26% com mais de 8000 unidades a serem vendidas em intervalos de tempo monitorizados, já o mais recente “Private Music” (2025) estreou no 5º lugar da Billboard 200 com 87 000 unidades vendidas. Por fim, no campo da música ao vivo, destaca-se o crescimento exponencial da procura por bilhetes para os seus concertos, com arenas de mais de 12 mil lugares a esgotar rapidamente a um preço médio de US$ 120 (103€) por bilhete, o que representa um aumento expressivo em comparação aos números das suas tours de há quatro anos atrás.

No MEO Kalorama, à semelhança do que já tinha sido testemunhado no Primavera Sound 2025, assistiu-se assim a uma confluência de gerações, com jovens e graúdos, alguns deles certamente ligados por laços de parentesco, a partilharem a mesma devoção por uma banda de charneira da cultura alternativa.

A entrada em cena com “Be Quiet and Drive (Far Away)” não poderia ter sido mais impactante. A moldura sonora vinda do palco agitou o anfiteatro natural da Bela Vista que, após um intenso concerto dos Turnstile, ainda tentava recuperar algum folgo. Por sua vez, em cima do Palco, Chino não parecia mostrar qualquer sinal de cansaço face ao concerto que tinha dado em Paris no dia anterior.

Seguiu-se uma potente “Swerve City” acompanhada de saltos sincronizados e coros que ecoaram por todo o recinto. Tirando pequenos focos de maior agitação, o público mostrou-se num espectro mais contemplativo ao longo de todo o concerto com temas como “Around the Fur”, “Cherry Waves” e “Feiticeira” a surgirem mais como momentos expansivos do que propriamente explosivos.

Naquele que também foi o primeiro vislumbre ao vivo perante o novo material de “Private Music” os Deftones mostraram a capacidade que “my mind is a mountain”, “infinite source” e “milk of the madonna” têm para figurar entre os clássicos e arrancar reações mais expressivas por parte dos fãs. Só “locked club” pareceu não estar à altura das restantes.

Apesar de algumas questões relacionadas com o som (é notória a falta de arrays a cobrir a parte de trás do recinto já a subir a colina para o Palco Sagres), a banda mostrou-se sempre coesa.

Apesar de algumas questões relacionadas com o som (é notória a falta de arrays a cobrir a parte de trás do recinto já a subir a colina para o Palco Sagres), a banda mostrou-se sempre coesa. Mais uma vez, Lance Jackman sobressaiu na guitarra com tamanha confiança e entrega aos riffs de Stephen Carpenter . Aliás, poucos devem ter notado a ausência do guitarrista co-fundador dos Deftones que em 2022 deixou de viajar para fora dos EUA com a banda devido a questões associadas com a ansiedade. No seu lugar, Jackman tem vindo a conseguir imprimir a identidade de Carpenter de forma a dar aos Deftones a chama instrumental que tão bem os caracteriza.   

Em “Rocket Skates” a intensidade foi devolvida ao set para mais à frente “Sextape” nos mergulhar numa transcendência profunda. Da contenção até à combustão de “My Own Summer (Shove It)” foi um ápice com a resposta do público a fazer-se sentir com o refrão berrado a plenos pulmões e na forma de pequenas rodas de mosh e de vários crowd surfers a retomarem o modus operandi do concerto dos Turnstile.

Pode ser uma imagem de multidão

Já com um sol ardente projetado na sua retaguarda, Chino Moreno surgiu para o encore de guitarra a tiracolo e posicionado na plataforma situada na parte de trás do palco. Após os primeiros acordes de “Change (In the House of Flies)”, a Bela Vista juntou-se ao vocalista numa entrega profunda aos versos «And I watched a change in you/It’s like you never had wings/Now you feel so alive/I’ve watched you change». Mas, Chino ainda estava a sentir falta de algo mais. Uma conexão e proximidade com o público que ainda não tinha sido experienciada no concerto. Após ter sido informado que teria tempo para mais duas músicas, o vocalista decidiu então descer até ao corredor que separa a plateia para partilhar, literalmente, o microfone com os fãs em “Lotion”. É certo que para Chino aquele momento é só mais “um dia no escritório”, mas para os fãs que estiveram cara a cara com o seu ídolo é uma memória que irá perdurar para sempre.

Já de volta ao palco a despedida surgiu com “7 Words”, para num último ímpeto coletivo, o MEO Kalorama entrar em alvoroço com um “Jumpdafuckup” ao seu estilo. Ainda que longe da intensidade de outros tempos, os Deftones acabaram por sair de cena com o selo de vitalidade. Para uns, mais jovens, certamente que foi o concerto da sua vida, para outros mais graúdos e há décadas nestas andanças foi talvez uma das atuações mais morna em Portugal, ainda assim repleta de simbolismo devido ao excelente momento que a banda continua a atravessar.