Com um ligeiro atraso a saber a pontualidade, a diva do hip-hop apresentou-se no MEO Kalorama para celebrar o legado dos Fugees. Acompanhada dos seus rebentos e de Wyclef Jean, Ms. Hill proporcionou um concerto carismático, mas disperso em extensivas atuações dos seus convidados.
Vinte minutos de atraso no relógio de Ms. Lauryn Hill é praticamente sinónimo de pontualidade. A artista, que ao longo dos anos adquiriu um estatuto de incumpridora de horários e de falta de assiduidade, chegou à Bela Vista a tempo de evitar a ira de um público que já teve que esperar até bem para lá da 00:00 para ver a diva do hip-hop. Ainda assim, o contexto em que este concerto esteve inserido acabou por compensar qualquer minuto de atraso. Não só Lauryn Hill escolheu Portugal para fazer parte de uma exclusiva perna de datas europeias, que incluiu apenas mais duas datas no Reino Unido e em França, como também aproveitou o alinhamento do calendário gregoriano para celebrar uma efeméride – os 30 anos do icónico álbum “The Score” dos Fugees. Como se isso não bastasse, ainda transformou este muito aguardado regresso a Lisboa num convívio familiar em palco com as participações, verdade seja dita algo excessivas e algo descartáveis, dos seus filhos Zion Marley e YG Marley e de Wyclef Jean que, apesar de ter toda a legitimidade para estar nesta celebração acabou por perder-se em temas de Santana e Shakira. Mas já lá vamos…

A subida de Lauryn Hill ao palco deu-se após um pequeno aquecimento que poderá ter servido para colmatar o ligeiro atraso da artista. Com as honras de apresentação feitas pelo seu MC, Ms. Hill entrou em palco plena de atitude, carisma e com um porte elegantíssimo para se atirar ferozmente a “Vocab”. O primeiro quartel do concerto ficou reservado, naturalmente, para o mote da noite – a celebração dos Fugees. Entre temas como “How Many Mics”, “Zealots” e “The Score”, Ms. Hill mostrou que a sua mestria na arte de debitar barras de hip-hop continua intacta. O seu flow característico e a intenção que coloca em cada palavra continuam lá como nos bons velhos tempos, apanhando de surpresa aqueles que achavam que a sua prestação iria ser totalmente amparada por backing rappers.
O seu flow característico e a intenção que coloca em cada palavra continuam lá como nos bons velhos tempos, apanhando de surpresa aqueles que achavam que a sua prestação iria ser totalmente amparada por backing rappers.
A passagem pela carreira a solo, e pelo único álbum de estúdio editado, “The Miseducation of Lauryn Hill” (1998), foi fugaz com passagem por temas como “Everything Is Everything”, “Lost Ones” e “Ex-Factor” a saberem a uma amostra das suas versões gravadas em estúdio. Ainda assim, foram temas que arrancaram uma boa reação por parte de um público que se revê mais no registo nu-soul e R&B de Lauryn Hill do que propriamente na sua abordagem ao hip-hop mais cru.

Daqui para a frente o concerto tomou um desvio desmesurado com a prolongada sessão de reggae levada a cabo pelos filhos da anfitriã: Zion e YG Marley. Totalmente fora do contexto do concerto, os dois irmãos subiram ao palco, cada um na sua vez, para apresentarem homenagens extensivas ao seu avô Bob Marley. Ora, sendo esta uma noite de celebração do legado musical da sua mãe, este momento, que ocupou sensivelmente todo o segundo terço do concerto, pareceu-nos algo despropositado, e particularmente excessivo. Aliás, tudo se tornou mais caricato quando damos por nós a olhar para o palco durante largas dezenas de minutos e não vislumbramos a figura de Lauryn Hill. Isto até pode parecer uma crítica depreciativa à homenagem a Bob Marley, mas não é essa ideia que queremos passar. No nosso entender, a invocação do nome maior do reggae é totalmente legítima por parte dos seu netos, apenas achamos que deveria ter sido mais contida e alternada, por exemplo, com interpretações do repertório de Ms. Hill em formato dueto.
Mais à frente, quando Lauryn Hill regressou a palco, expectavelmente já para ficar após cantar “Doo Wop (That Thing)”, eis que surgiu o anúncio do terceiro convidado: o ex-colega dos Fugees, Wyclef Jean. Mais uma vez, aqui o formato poderia ter sido outro se a artista tivesse permanecido em palco para interpretar repertório do grupo que os uniu. Ao invés, Wyclef atirou-se a versões banais de “No Woman No Cry” do rei do reggae, “Maria Maria” de Carlos Santana, “Hips Don’t Lie” de Shakira e ainda a um desastroso solo de guitarra onde, à la Jimi Hendrix, tentou tocar com a guitarra atrás da cabeça e com os dentes a fazer de palheta.
O tempo foi assim passando e já a olhar para o relógio surgiram “Killing Me Softly With His Song”, “Ready or Not” e “Fu-Gee-La” para trazer alguma redenção à reta final do concerto. Por breves instantes, as vozes e os telefones ao alto fizeram esquecer a prolongada evasão de Lauryn Hill do seu próprio concerto. À saída, alguns fãs expressavam contentamento, outros alguma desilusão pela forma como o concerto foi conduzido pela sua anfitriã, mas em comum partilhava-se a satisfação de ter sido possível testemunhar a aura de uma lenda viva da música.