A banda de post-punk resguardou-se numa escuridão avermelhada para assinar um concerto sereno. Já a veterana jamaicana presenteou-nos com a sua irreverência e uma postura em palco carismática.
Interpol
Em dia de lançamento do novo álbum “This Mirror Weighs a Ton”, os Interpol apresentaram-se no MEO Kalorama com um concerto cerrado sobre si mesmos onde a música serviu como um ténue elo de ligação entre banda e público. Mergulhada numa negritude em tons de vermelho, a banda de Paul Banks entrou em palco com alguma contenção para dar início ao concerto com a faixa-titulo do novo trabalho de estúdio. Perante tamanha arrojada escolha, o público mostrou-se inicialmente numa dinâmica mais expectante e menos efusiva, tentando perceber o rumo que a atuação iria levar.
A calma acabou por dar origem a alguns picos de intensidade com a escolha de “All the Rage Back Home” para o tema seguinte, mas tudo muito controlado. A mesma dinâmica manteve-se em “C’mere” e “Evil” com uma sobriedade em cima do palco pouco compatível com recintos como o do Parque da Bela Vista. A falta de interação por parte de Banks, bem ao estilo de uns Pixies, acaba por gerar uma performance pouco dinâmica e monocórdica. É certo que todas as bandas têm a sua identidade performativa em cima do palco, mas em determinados contextos, como é o caso do MEO Kalorama, essa identidade poderia e deveria ser maleável de forma a tornar o concerto mais atrativo não só para os fãs, mas também para aqueles que estão a experienciar a banda pela primeira vez.
Visto de um ponto mais distante, a melancolia dos Interpol nunca se agigantou perante o palco MEO, e não foi por falta de qualidade artística, mas sim porque a sua sonoridade não parece estar moldada para grandes palcos como festivais.
Já na segunda metade da setlist, “Obstacle 1” e “Wings on Fire” ainda deram alguma chama ao concerto, mas num formato muito efémero. Visto de um ponto mais distante, a melancolia dos Interpol nunca se agigantou perante o palco MEO, e não foi por falta de qualidade artística, mas sim porque a sua sonoridade não parece estar moldada para grandes palcos como festivais. “PDA” a fechar ainda acalentou os fãs de longa data, mas não foi suficiente para agarrar aqueles que já só aguardavam para ver Robbie Williams.
Grace Jones
Aos 78 anos, Grace Jones já não se move como noutros tempos, mas quando sobe ao palco continua a dominar esse espaço com toda a sua persona e exuberância . Após um atraso de 15 minutos, a cantora-modelo jamaicana subiu ao Palco Sagres para mostrar que a sua profundidade artística continua intacta.
Das máscaras aos adereços, passando pelas suas intervenções sedutoras, Jones ainda consegue trazer para cima do palco um modelo de concerto provocador e arrojado, mas sem nunca comprometer a sua elegância. Com uma extensa carreira a percorrer os campos da disco, R&B, new wave e reggae, a artista cunhou uma setlist que passou por versões reimaginadas de músicas de outros artistas e originais.
A textura reggae meets new wave de “Nightclubbing”, um original de Iggy Pop, deu o mote para o concerto. Em cada uma das suas versões Jones imprime um cunho identitário, uma espécie de marca de água sonora, que faz com que temas que não são da sua autoria pareçam ser aos ouvidos do público menos familiarizado com o seu trabalho. Foi assim também com “Private Life” dos The Pretenders e “Demolition Man” dos The Police, curiosamente gravada primeiro por Jones após uma oferta de Sting.
Sem contas a prestar, Grace Jones saiu de cena deixando para trás uma prestação singular onde cruzou música, teatralidade e moda.
Após a referência a Piazzola com “Libertango”, a segunda metade do concerto percorreu uma maior diversidade de estilos com “Williams’ Blood” a empurrar-nos para um R&B com nuances de trip-hop e “Pull Up to the Bumper” para a disco. Uma interessante surpresa foi a interpretação do hino cristão “Amazing Grace” numa versão não muito desfasada da sua interpretação clássica. Já a fechar, “Slave to the Rhythm” fez jus ao seu título ao provocar uma febre dançante numa sexta-feira à noite já a pedir agasalho.
Sem contas a prestar, Grace Jones saiu de cena deixando para trás uma prestação singular onde cruzou música, teatralidade e moda. Quase a atingir as oito décadas de vida, a artista já não precisa de se reinventar pois aquilo que apresenta já é a sua imagem de marca registada.