No segundo dia do festival pregou-se a positividade ao som das exortações de Joshua Idehen.
Herdeiro da tradição retórica de Gil Scott-Heron, Joshua Idehen subiu ao Palco Sagres para celebrar uma autêntica homilia musical. Aqui, a voz cantada deu lugar à voz falada e as letras transformaram poesia em sermões direcionados à atualidade política, social e à saúde mental. No instrumental surgiram beats e camadas eletrónicas criadas pelo produtor sueco Ludvig Parment, a outra metade do projeto. Aliás, Joshua fez questão de entoar várias vezes o lema: «Eu escrevo a letra, ele compõe a música», para explicar ao público que o projeto consistia numa dupla e não num trabalho a solo.
Enquanto performance é difícil descrever a tipologia de espetáculo apresentada por Joshua Idehen. É inegável que este parte de uma espiritualidade profunda, mas se tivéssemos que sintetizar a nossa experiência, é como se estivéssemos a assistir a uma missa evangélica dentro de uma discoteca. Ao longo do concerto, Joshua aproveita para brincar com este paradoxo ao implementar algum nível de comicidade. Sem descorar o poder e a importância das suas palavras, o músico consegue fazê-lo de uma forma descontraída e jocosa, que não só motiva gargalhadas como também o pensamento crítico.
No fim, foram certamente poucos os que não sairam mais leves desta sessão de poesia musicada fruto do poder magnético das palavras de Joshua Idehen.
As mensagens à base de metáforas lidam na sua maioria com temáticas como a saúde mental, o amor próprio e a capacidade de usar o ritmo e a dança como resposta para todos os problemas. «É tudo sobre o amor e o ritmo», «A depressão não consegue atingir um corpo em movimento» ou «Escolhe-te a ti próprio» foram algumas das mensagens que Joshua passou para o público. Aproveitando-se da componente dançável do seu repertório, o músico também procurou incluir o público em momentos chave do espetáculo através de instantes de partilha e boa disposição. Do incentivo ao cumprimento entre estranhos com a mensagem «És uma boa pessoa!» à demonstração de uma onda nigeriana (que ao contrário da mexicana vai da frente para trás), passando ainda por uma coreografia digna de uma aula de aeróbica, Joshua conseguiu promover uma sessão terapêutica de grupo bem disfarçada.
No fim, foram certamente poucos os que não sairam mais leves desta sessão de poesia musicada fruto do poder magnético das palavras de Joshua Idehen. Aliás, numa altura em que entramos no mês da prevenção do suicídio podemos dizer que o concerto deste artista nigeriano foi uma boa ação de sensibilização. A mensagem que fica é simples e clara: todos somos importantes e todos temos um papel relevante na nossa sociedade.