MEO Kalorama 2026 | Panic Shack, Travo e High Vis, Os Underdogs do Terceiro Dia

Review

Panic Shack
8/10
Travo
8/10
High Vis
9/10
Som
8/10
Ambiente
8/10
Overall
8.2/10

O último dia do festival ficou marcado pelo punk feminista das Panic Shack, as guitarras psicadélicas dos Travo e o post-punk hardcore dos High Vis.

Panic Shack

Oriundas de Cardiff, no País de Gales, as Panic Shack formaram-se em 2018 na mesma escola punk de projetos como Amyl and The Sniffers e Lambrini Girls. Com Sarah Harvey (voz), Meg Fretwell (guitarra e coros), Romi Lawrence (guitarra e coros), Em Smith (baixo e coros) e Nick Williams (bateria), este último o único elemento masculino do coletivo, o grupo surgiu com o intuito de agitar uma cena musical dominada por bandas masculinas e ultra-performativas.

Em jeito de passa a palavra a banda foi ganhando tração no circuito underground britânico, através de concertos enérgicos, provocadores e com um sentido de humor afiado. O EP “Baby Shack” (2022) abriu caminho para essa linguagem, mas foi já com o seu álbum de estreia homónimo, editado em 2025, que o público internacional tomou conhecimento da fibra destas raparigas galesas, particularmente com a sua apresentação no Live on KEXP.

A sua estreia em Portugal deu-se por volta das 16:00 de um dia particularmente tórrido, mas isso não demoveu os mais curiosos de chegarem mais cedo para levantar as primeiras poeiras do dia. Temas como “Jiu Jits You”, “Girl Band Starter Pack”, “Mannequin Man” e “Tit School”, desconstruiram aspetos como a submissão feminina, a masculinidade tóxica e a disparidade de género, convertendo-os em malhas imediatas e sem grandes artifícios ou complexidades. Tal foi mais que suficiente para cativar o público e empurrá-lo, na segunda metade do concerto, para uma agitação constante que se prolongou até ao último segundo do concerto.

Peaches ainda viria a trazer a sua irreverência para o último dia do festival, mas as Panic Shack foram as primeiras a pôr o dedo na ferida das questões de género.

Pode ser uma imagem de multidão e texto

Travo        

Para aqueles que têm estado mais adormecidos perante o panorama underground do rock em Portugal, certamente que a presença dos bracarenses Travo no Palco MEO foi uma bela surpresa. Porém, a banda não caiu de para-quedas naquele palco. Com quase uma década de carreira, os Travo aliam a qualidade do seu repertório a um trabalho minucioso de promoção dentro e fora de portas. Por detrás desta máquina bem oleada está a gig.ROCKS!, uma das mais fascinantes agências de Portugal, com um catálogo repleto de nomes sonantes desse circuito subterrâneo como é o caso dos Them Flying Monkeys ou dos MAQUINA e Hetta, as mais recentes contratações. Como agentes, a gig.ROCKS! tem feito um trabalho irrepreensível ao levar a banda de Bracara Augusta para novos palcos, muitos deles no estrangeiro, como o festival Trans Musicales, que consequentemente levou ao seu Live on KEXP, o Resurection Fest, o PALP Festival ou o Jardin Bizarree.

Agora, Gonçalo Carneiro (guitarra e voz), Gonçalo Ferreira (guitarra), David Ferreira (baixo) e Nuno Gonçalves (bateria) aceitaram o desafio de pisar o maior palco da sua carreira, não só cá dentro, como também lá fora, para darem a conhecer o seu space rock psicadélico carregado de peso e de algumas nuances punk. Em palco, os Travo são uma banda explosiva e profundamente expressiva. As suas composições ganham vida e alargam-se por deambulações frenéticas repletas de acidez, fazendo até lembrar essa viagem cósmica que é o álbum “Space Ritual” (1973) dos Hawkwind. Com uma agressividade que não encontramos em qualquer banda psicadélica, o grupo acaba por colher assim uma excelente resposta por parte do público. No MEO Kalorama não foi exceção, e até os mais indiferentes às sonoridades espaciais se envolveram numa pequena roda de mosh ao som de malhas dos álbuns “Sinking Creation” (2022), “Astropomorph God” (2023) e dos singles do aguardado “WASTELAND”.

 

High Vis

Os londrinos High Vis vieram ao MEO Kalorama fazer a dobradinha de concertos em Lisboa a abrir para os Turnstile. Após a passagem pelo LAV-Lisboa Ao Vivo em 2025, desta vez a banda foi recebida com muito maior pompa e circunstância. Com honras de palco principal, o grupo encontrou à sua frente um público dedicado, inclusivamente com vários britânicos que conheciam bastante bem o repertório desta banda que cruza o punk hardcore com o post-punk, o indie rock e o britpop. 

Quer queiramos quer não, os High Vis apresentam-se como uma excelente porta de entrada para o universo do hardcore. A banda inglesa traz para cima do palco um concerto que articula chavões deste género, como o vocal semi-berrado ou o padrão rítmico da bateria a incentivar à prática do two step, com riffs e melodias que invocam diversos géneros da música popular britânica. Esta fusão acaba assim por fazer dos seus concertos algo muito mais acessível para quem quer ter aquele primeiro contacto com o hardcore e com o seu estilo de dança, mas sem toda aquela selvajaria que encontramos nos subgéneros mais agressivos.

Ao longo do concerto temas que representam bem a identidade da banda como “Drop Me Out”, “Altitude” e “Choose to Lose” proporcionaram bons momentos de agitação no mosh pit, também com os primeiros crowd surfers do dia a mostrarem-se dispostos a dar algum trabalho à equipa de segurança que cobria a frente de palco. Já em palco, o vocalista Graham Sayle não se mostrou indiferente perante tamanha receção e expressou todo o seu contentamento de forma emocionada ao mostrar-se incrédulo para com o feito que banda alcançara.

De fora é curioso ver que há uns anos atrás o hardcore, e seus derivados, não tinham espaço, nem expressão, nos grandes palcos dos festivais mainstream. Mas, hoje em dia, inevitavelmente graças aos Turnstile, o paradigma está a mudar, com bandas de fusão como os Knocked Loose, os High Vis, e os Militaire Gun a ocuparem esse espaço, mas também nomes profundamente ligados às raízes como é o caso dos Speed. Afinal, parece que há mesmo espaço para todos.