A artista libertina regressou ao MEO Kalorama para agitar os dogmas de um mundo cada vez mais apodrecido. Explícita, despudorada e reivindicativa, Peaches demonstrou, mais uma vez, que a resignação não está nos seus planos.
Para aqueles que são apanhados de surpresa, como geralmente acontece neste contexto de festivais, um concerto de Peaches pode ser à partida uma experiência intensa e até confusa. A artista canadiana, que navega pelos caminhos musicais do electroclash e do electropunk, é tudo menos contida na sua performance teatral, roçando até o desconforto e o bizarro. Mas, tudo é feito em nome de uma causa maior. Peaches não se apresenta em palco apenas e só para chocar. A artista tem uma visão muito clara do seu papel enquanto mensageira de ideais políticos antifascistas, anti-sionistas e de suporte aos direitos LGBTQ+ e é nestes grandes palcos que consegue espalhar a sua mensagem perante um público mais vasto.

O concerto em si apresenta-se como uma performance enérgica e dançável envolvida em batidas eletrónicas. Porém, o espetáculo que a artista transporta para o palco está longe de se aproximar de um simples concerto de música eletrónica. Mais do que a música, é a atitude punk que guia a sua narrativa libertina.
Mais do que a música, é a atitude punk que guia a sua narrativa libertina.
De regresso aos álbuns passado mais de uma década, “No Lube So Rude” (2026) foi o grande motor do concerto do MEO Kalorama com temas como “Hanging Titties”, “Fuck Your Face”, “Not in Your Mouth None of Your Business” e “Take It” a suportarem as palavras de ordem “Gay for Palestine”, “Trans Rights Now” e “Queer the Rich” que ostentou nas suas camisolas, isto quando não estava com um traje a simular a sua nudez. Das encenações em palco a ação passou para o público, com a artista a deixar-se cantar enquanto rebolava e caminhava sobre cabeças. Aliás, se depois disto ainda existissem reservas em relação à atitude punk de Peaches, essas foram dissipadas quando surpreendeu tudo e todos ao chamar Brendan Yates dos Turnstile para cantar “Fuck the Pain Away”, num dueto que não estava certamente na nossa lista de bingo para 2026.
A fechar com “No Lube So Rude”, Peaches deixou a sua performance justificar a presença num palco dominado por sonoridades mais pesadas e menos teatrais. A irreverência do seu alinhamento, aliada a uma postura agitadora, demonstrou que o lugar da artista é em qualquer palco que tenha a ousadia de arriscar numa artista que, após 25 anos, continua a não ter medo de ser livre.