MEO Marés 2026 | Seal e James: Da classe ao delírio coletivo
(c) Daniel Meira @by.danielmeira

MEO Marés 2026 | Seal e James: Da classe ao delírio coletivo

20/07/2026

Review

Seal
10/10
James
9/10
Som
9/10
Ambiente
9/10
Overall
9.3/10

Ao segundo dia do MEO Marés subiram ao palco do festival Seal e James.

Embora a nova localização tenha sido recebida com algumas críticas por parte do público e as redes sociais do festival continuem repletas de comentários sobre a mudança, a transferência do MEO Marés Vivas para a Praia do Aterro, em Leça da Palmeira, trouxe pelo menos uma vantagem difícil de contestar: o cenário. Podem persistir dúvidas sobre os acessos, os hábitos deixados para trás e as saudades do formato e do local anteriores, mas é difícil não se deixar conquistar quando se acorda a poucos metros dali, rodeado por algumas das mais belas praias da região, e se caminha para um recinto praticamente à beira-mar.

Ainda assim, cenário não faz concerto. Ajuda a fotografia, melhora a disposição, mas não canta, não toca e não segura uma noite. Seal e James, dois dos nomes mais aguardados da edição de 2026, tinham de fazer o resto. E fizeram. De maneiras muito diferentes, mas fizeram.

Seal: a elegância de quem canta como se conduzisse uma família
Seal foi mesmo muito bom. E talvez a primeira coisa a dizer seja esta: parecia feliz em palco. Não aquela felicidade profissional de quem sabe sorrir no momento certo, mas uma alegria visível, constante, quase agradecida. Entrou com uma presença imponente, daquelas que não precisam de gestos excessivos para dominar um palco grande, e rapidamente deixou claro que a voz continua intacta. Rica, limpa, segura, com aquela mistura de soul, pop e melancolia que sempre fez dele uma figura difícil de arrumar numa só prateleira.

O concerto arrancou com “All I Know Is Now” e ganhou corpo logo com “Fly Like an Eagle”, versão do tema dos Steve Miller Band que serviu para abrir a noite para uma zona mais expansiva. “Future Love Paradise” e “Deep Water” confirmaram essa qualidade muito própria de Seal: música com espaço, groove e elegância, sem nunca parecer fria. Ao vivo, percebe-se ainda melhor como ele comanda tudo. Não apenas canta. Conduz. Entra, sai, chama, segura, olha para os músicos, dá sinais, deixa respirar. Por momentos, parecia menos “Seal e a sua banda” e mais uma banda chamada Seal, uma família musical organizada à volta daquela voz.

E que banda. Músicos impressionantes, todos muito coesos, participativos, atentos ao que estava a acontecer em palco e no público. Ninguém parecia ali apenas a cumprir função.

E que banda. Músicos impressionantes, todos muito coesos, participativos, atentos ao que estava a acontecer em palco e no público. Ninguém parecia ali apenas a cumprir função. Havia diálogo, respostas, pequenas trocas, aquele prazer de tocar junto que faz muita diferença num concerto deste tipo. Seal conduzia-os como um maestro, mas sem rigidez. Havia autoridade, sim, mas também cumplicidade. Isso notou-se muito em “Prayer for the Dying”, um dos momentos em que a atuação ganhou outra densidade emocional, e também em “Touch / Loneliest Star”, onde a noite pareceu baixar um pouco a voz para se aproximar mais.

A interação com o público foi permanente. Seal falava, sorria, agradecia, procurava rostos, parecia mesmo querer perceber quem tinha à frente. Depois de “Life’s What You Make It”, versão do tema dos Talk Talk que Seal apresentou com humor e leveza, “Killer” trouxe outra pulsação à noite. E “Bring It On” manteve esse lado mais físico sem perder elegância. Mas o momento inevitável foi “Kiss From a Rose”. Há canções que chegam carregadas de história antes de a primeira nota acabar de soar, e esta é uma delas. O público recebeu-a como se esperava: em coro, em memória, em reconhecimento imediato. Seal podia ter deixado a música fazer tudo sozinha. Não deixou. Cantou-a como se ainda tivesse alguma coisa nova para lhe retirar.

O encore fechou com “Crazy” e “Love’s Divine”, e a escolha fez sentido. “Crazy” trouxe a libertação mais óbvia, aquele refrão que parece continuar a pertencer a toda a gente, mesmo décadas depois. “Love’s Divine” deixou a nota mais espiritual e emocional, quase como despedida em forma de abraço. No fim, ficou a sensação de um concerto elegante, generoso e muito bem defendido. Seal não viveu apenas dos clássicos. Viveu da forma como ainda os habita. E isso é bastante diferente.


(c) Daniel Meira @by.danielmeira


James: Portugal canta antes de ser chamado

Com os James, a conversa começa sempre antes da primeira música. Em Portugal, eles não entram simplesmente num palco. Regressam. É chover no molhado falar da relação entre os James e o público português, mas há coisas que continuam a ser verdade mesmo depois de repetidas muitas vezes. A história da Estação de São Bento, em 2014, continua a pairar como prova documental dessa ligação. Saul Davies vive por cá há anos e já falou de Portugal como uma espécie de terra espiritual da banda. E, quando eles aparecem diante de um público português, percebe-se que isto não é marketing sentimental. É uma relação antiga, gasta de tanto uso e ainda assim inteira.

Chegaram com cerca de dez minutos de atraso, mas há atrasos que o público cobra e há atrasos que o público transforma em aquecimento. Com os James foi claramente a segunda hipótese. “Five-O” abriu o concerto sem procurar o caminho mais fácil, e isso também diz muito sobre a confiança da banda por cá. Não precisam de começar logo pela explosão mais óbvia. Sabem que o público vai atrás. “Waltzing Along” e “Ring the Bells” trataram de confirmar isso rapidamente, com aquela sensação de que, a partir de certo ponto, já não interessa muito onde acaba a banda e começa a plateia.

O concerto no MEO Marés teve muito dessa intimidade ruidosa que os James parecem provocar por cá. Havia bandeiras, e não apenas no público. Andy Diagram subiu ao palco com a camisola vermelha da seleção portuguesa de futebol. Chloë Alper tocou com uma bandeira de Portugal enrolada na pandeireta. Debbie Knox-Hewson mostrava uma bateria com uma bandeira nas costas. E Saul Davies disse em português: «Esta banda tem 46 anos de vida e estamos em casa, aqui também.» O público não fica à espera de ser conquistado. Já chega a meio caminho. A partir daí, cabe à banda não estragar a corrente. E isso eles sabem fazer como poucos.

Dança como quem está a receber instruções de uma força que só ele ouve, abre os braços, dobra o corpo, procura a plateia e transforma o concerto numa espécie de conversa física.

Tim Booth continua a ser o centro instável e magnético daquilo tudo. Dança como quem está a receber instruções de uma força que só ele ouve, abre os braços, dobra o corpo, procura a plateia e transforma o concerto numa espécie de conversa física. Há vocalistas que cantam para o público. Booth parece cantar dentro do público, mesmo quando ainda está em palco. E, quando desce à frente da plateia, segura mãos, sobe às grades e fica ali a observar milhares de pessoas a devolverem-lhe as canções, percebe-se por que razão os James continuam a funcionar tão bem em Portugal. Não é só carisma. É entrega repetida, aceite e devolvida.

“Getting Away With It (All Messed Up)” continua a ser uma das mais bonitas feridas luminosas do repertório da banda. “Born of Frustration”, “Come Home”, “Sometimes”, “Sit Down” e “Laid” têm aquela qualidade rara de fazer uma multidão parecer uma só garganta.

Mas os James não são apenas Tim Booth. Andy Diagram, o trompetista, num daqueles momentos que a memória guarda sem avisar, abandonou o palco, subiu a um camarote lateral e tocou de lá, suspenso sobre o recinto, como se quisesse alcançar o público por outra via. Inusitado, improvável e muito James. O resto da banda segurou tudo com a naturalidade de quem já sabe que, num concerto deles, a música tanto pode estar no palco como fora dele. A certa altura, Tim Booth disse que mudam o alinhamento todas as noites e, às vezes, até a meio do concerto. A frase ajuda a explicar muito: por mais familiar que isto pareça, há sempre margem para a noite se desviar um pouco.

E depois há as canções. “Getting Away With It (All Messed Up)” continua a ser uma das mais bonitas feridas luminosas do repertório da banda. “Born of Frustration”, “Come Home”, “Sometimes”, “Sit Down” e “Laid” têm aquela qualidade rara de fazer uma multidão parecer uma só garganta. “Sit Down”, em especial, tornou-se quase uma imagem perfeita da noite: a banda sentada, o público de pé, a canção já sem precisar de instrumentos para continuar. Não é apenas nostalgia. É pertença. Há músicas que o público canta porque sente que lhe pertencem. Com os James, muitas são assim, e é muito bonito ver isso.

O mais interessante é que, mesmo com esse peso emocional dos clássicos, a banda não soa fechada no passado. Há vitalidade, há vontade, há movimento. Os James continuam a tocar como quem acredita que a noite pode fugir do guião, e isso torna cada concerto menos previsível do que a lista de sucessos poderia sugerir. Mesmo quando sabemos que certos temas vão chegar, a forma como chegam depende muito daquela troca específica com o público. E em Portugal essa troca costuma vir carregada.

No fim, Seal e James fizeram sentido juntos precisamente por serem tão diferentes. Seal deu classe à noite. James deram-lhe febre. Um conduziu o público pela voz, os outros puxaram-no pelo corpo. Entre um e outro, a Praia do Aterro deixou de ser apenas cenário e passou a fazer parte da memória.


(c) Daniel Meira @by.danielmeira