Ao segundo dia do MEO Marés Vivas, assistimos a um dia onde a música portuguesa foi celebrada com Nena e Joana Almeirante e Os Quatro e Meia com Miguel Araújo.
[Nota: Os Thirty Seconds do Mars não deram acesso à imprensa para fazer a habitual galeria.]
O dia 19 de Julho trouxe para o MEO Marés Vivas um dia de clima indeciso, que acabaria por revelar as suas faces mais chuvosas no final da noite. Foi assim, no antigo parque de campismo da Praia da Madalena, que o segundo dia do MEO Marés Vivas viveu mais um dos seus êxitos enquanto festival.
No cartaz, o grande destaque era a atuação dos irmãos Leto, da banda norte-americana Thirty Seconds to Mars. Mas antes disso, o palco pertenceu à música portuguesa e foi uma verdadeira odisseia nacional.
A tradição alentejana ganhou destaque com a atuação de Luís Trigacheiro e Buba Espinho. Os dois artistas, que partilham uma longa amizade e raízes comuns em Beja, levaram o cante alentejano ao palco principal, provando que a música tradicional também tem espaço nos grandes festivais. Com uma presença descontraída e cumplicidade evidente em palco, Trigacheiro e Espinho mostraram que o cante pode ser moderno, autêntico e acessível a todos os públicos. Mais do que cantar, quiseram partilhar a identidade de um povo levando para o norte a alma do sul.
O projeto “Dois Pares de Botas“, de Nena e Joana Almeirante trouxe consigo o charme das grandes planícies americanas, traduzido num country-pop feito à medida da língua portuguesa. Tal como na noite anterior, o público assistiu ao concerto sentado, mas atento e envolvido. Canções como “É o que é”, “Os Croquetes acabam“ e uma vibrante versão de “Jolene” pintaram o início da noite. Seguiram-se temas como “Dois Corações” e “Por Meu Pé”, numa atuação marcada pela cumplicidade entre ambas e pelo entusiasmo do público, que não hesitou em cantar em conjunto algumas das músicas. Ainda houve tempo para uma bonita cover de “Please, Please, Please”, de Sabrina Carpenter, uma escolha certeira que se encaixou perfeitamente no espírito do concerto.


Gratas e visivelmente emocionadas por estarem naquele palco, Nena e Joana Almeirante mostraram que a leveza também pode ser poderosa. No alinhamento ainda brilharam “Diz-se Aí” e “Portas do Sol”, encerrando o espetáculo de forma doce e luminosa, como um pôr do sol antes da chuva.

Logo a seguir, foi a vez de Miguel Araújo e Os Quatro e Meia subirem ao palco para um daqueles concertos que ficam na memória e confundem até o festivaleiro sobre quem é, afinal, o verdadeiro headliner da noite. A lindíssima “Se eu não mato a saudade” abriu caminho para duas horas onde só houve “espaço para boa música”, como o próprio Araújo prometeu. A plateia, rendida desde o primeiro acorde, devolveu todo o carinho com vozes em coro, palmas ritmadas e sorrisos. A química entre os músicos em palco e o público era palpável, criando um ambiente de proximidade rara num festival desta dimensão.
Temas como “Bom Rapaz”, “Dia da Procissão” e “Tiques de Rico” fundiram-se num alinhamento onde a língua portuguesa foi a grande protagonista. “Balada Astral”, “Laurinha”, “Terraplanismo” (que letra linda!), e tantos outros temas ecoaram por todo o recinto. A comunhão foi total em canções como “Olá Solidão” e “Meu Amor, Dorme Bem”, culminando num fecho apoteótico com “Na Escola”, “Anda Comigo Ver os Aviões”, “Sentir o Sol” e “Talvez se eu Dançasse”. A noite transformou-se numa celebração da música em português e das emoções que ela desperta. Para alguns este foi o clímax da noite. Mas ainda havia os convidados internacionais.
Com a chegada dos Thirty Seconds to Mars, o ambiente ganhou contornos épicos. Jared e Shannon Leto trouxeram o espetáculo visual e sonoro que os caracteriza, com uma atuação vibrante desde o primeiro minuto, após uma curta abertura de bateria com Shannon, seguida da já clássica “Kings and Queens”. “Up in the Air” e “Rescue Me” continuaram as hostilidades, com direito a fãs convidados em palco e um Jared hiperativo a dominar todos os cantos da plateia.
Intercalando êxitos da fase mais roqueira e da fase mais pop/eletrónica, “Hail to the Victor” e “A Beautiful Lie” mantiveram o ritmo, numa performance onde nem a chuva conseguiu arrefecer os ânimos. Pelo contrário, cada gota, e não eram poucas, parecia amplificar ainda mais a ligação entre banda e público.
Com 20 anos de estrada desde “A Beautiful Lie”, a banda norte-americana mostrou que continua a reinventar-se, e que Portugal tem um lugar especial no seu coração. Jared Leto fez questão de o recordar, mencionando que foi aqui que teve, pela primeira vez, uma arena lotada. No palco, foi, como sempre, um verdadeiro mestre de cerimónias: imprevisível, carismático e sempre próximo da multidão.
Paralelamente, no Palco Moche, a nova geração da música portuguesa também teve espaço para brilhar. Gonçalo Malafaya e Beatriz Rosário conquistaram o público com actuações intensas e cheias de personalidade. E vale a pena ressaltar uma atração muito interessante no palco Coca-Cola, que serviu de banda sonora aos famintos da praça de alimentação: os Stage One, que desfilaram clássicos da música mundial (em especial o rock), de forma muito competente.
E se o céu indeciso ameaçava chuva, o que caiu sobre o público foi música, talento e emoção em estado puro.






























