Na sua estreia em Lisboa, os Militarie Gun foram recebidos com pouca pompa e circunstância. A afluência ao LAV numa noite chuvosa a meio da semana foi pouca, mas isso não demoveu a banda californiana de assinar uma prestação segura com vários momentos de vulnerabilidade e autenticidade.
Durante a pandemia muitas bandas cessaram atividade, mas muitas outras viram uma porta aberta para dar os primeiros passos. Foi esse o caso dos californianos Militarie Gun, que nasceram em 2020 como um projeto a solo do vocalista Ian Shelton, após a sua banda anterior, osRegional Justice de Seattle, ter iniciado um hiato devido aos vários confinamentos. Já antecipando uma transformação dentro do panorama do hardcore, os Militarie Gun surgiram como uma banda cuja fusão sonora os posiciona na fronteira, cada vez mais esbatida, entre o hardcore e o rock alternativo. Dos Fugazi aos Guided By Voices e dos Born Against aos Modest Mouse parecem não existir barreiras e é neste meio termo que os Militarie Gun se sentem mais confortáveis.
Longe de terem descoberto a pólvora, mas com muito mérito, os Militarie Gun viram-se rapidamente inseridos numa cena de bandas que, com maior ou menor impacto, têm atenuado a linha que separa o hardcore do rock alternativo. Bandas como os Turnstile de Baltimore, os High Vis de Londres, os Drug Church de Albany e os Secret World de Sydney têm levado o “hardcore alternativo” para outras fronteiras e patamares onde o público é mais heterogéneo e menos de nicho. Mas, existe um elemento que todos têm mantido, a postura DIY, que movimenta a cena mais underground do hardcore.
Mas, existe um elemento que todos têm mantido, a postura DIY, que movimenta a cena mais underground do hardcore.
Agora com dois álbuns editados, “Life Under the Gun”(2023) e “God Save the Gun” (2025), bem aclamados pela crítica e pelos fãs, os Militarie Gun partem à conquista do mundo, ainda em salas pequenas, mas com um potencial de crescimento muito interessante. Após uma breve passagem pelo Primavera Sound do Porto em 2024, a banda apresentou-se finalmente em nome próprio em Portugal, com passagem pela Casa da Música, no Porto, e no LAV – Lisboa Ao Vivo. A Arte Sonora esteve no concerto de Lisboa e relata aqui a prestação dos Militarie Gun e Spite House no LAV.
Spite House
Para qualquer fã de hardcore/post-hardcore que se preze, saber que os Spite House fazem parte do catálogo da Pure Noise Records já é um bom indicativo da qualidade da banda. Afinal de contas estamos a falar da editora que representa os The Amity Affliction, Knocked Loose e os The Story So Far, entre muitos outros nomes sonantes da cena alternativa.
Em formato power trio, uma configuração que parece estar a perder-se na cena punk hardcore, a banda é composta pelo vocalista e guitarrista Max Lajoie, o baterista Marc Tremblay e o baixista Nabil Ortega. Ao longo de onze músicas, o trio apresentou-nos uma performance visceral onde a dor expressa nas letras e a crueza do instrumental convergiram numa catarse. Aqui não se trata de apresentar uma performance musical imaculada, mas sim fazer com que a emoção e a entrega presentes em palco consigam arranjar um caminho até ao público esperando que muitos se revejam naquela descarga e encontrem algum conforto.
Apesar do som algo embrulhado, os Spite House conseguiram colocar em evidência a sua qualidade enquanto músicos. Composições curtas, mas com boas transições e várias quebras de ritmo elevaram a prestação da banda como se verificou nos temas “Ashen Grey”, “Desert” e “10 Days”. No que diz respeito ao material usado pela banda, os Spite House partilharam backline (bateria e amplificadores) com os Militarie Gun. A bateria que Marc Tremblay utilizou foi um modelo em acrílico, possivelmente uma Ludwig Vistalite, já Max Lajoie recorreu a uma Gibson Les Paul Standard ligada a um Fender Deluxe Reverb e Nabil Ortega a um Fender Precision ligado a um stack Ampeg SVT.
Militarie Gun
Quando entrevistámos Ian Shelton, antes do concerto da Casa da Música, [uma conversa que será publicada brevemente no nosso site], o músico esclareceu-nos que a ligação à cena hardcore ainda está muito presente nos seus concertos, particularmente na ausência de separação entre público e banda. Desta forma, quando questionámos o músico sobre a possibilidade de esta tour ter concertos sem barreiras, Ian não hesitou em responder que praticamente todos os concertos iriam ser sem barreiras. Umas horas depois, confirmámos essas declarações quando nos deparámos com alguns vídeos do concerto da Casa da Música. É certo que o entusiasmo começou a crescer, mas sabíamos de antemão que o LAV não costuma aprovar estes pedidos. Ainda assim, mantivemos uma réstia de esperança que viria a desaparecer quando chegámos à sala e vimos as barreiras.
O contexto já não era favorável, com o concerto a decorrer numa quinta-feira chuvosa e fria. Por sua vez, a fraca afluência que deve ter rondado as 200-300 pessoas também não ajudou. A retirada das barreiras pode parecer um capricho, mas teria, com toda a certeza, influenciado não só a entrega da banda, mas também a do público que se demonstrou praticamente imóvel durante todo o concerto, levando a que contabilizássemos um total de zero crowd surfers, algo impensável para um concerto desta natureza.
Na bagagem, os Militarie Gun trouxeram “Life Under the Gun”e “God Save the Gun”, mas também uma amostra do seu segundo EP “All Roads Lead to the Gun ” (2021). O distanciamento do público sentiu-se logo na entrada da banda em palco quando Ian teve que fazer um gesto para que os fãs se aproximassem. “B A D I D E A” arrancou e aí sim sentiu-se um maior calor humano com o público a soletrar o refrão com convicção. Um bom equilíbrio entre as guitarras e o baixo permitiram uma boa definição sonora, mas a voz pouco conseguiu furar.
Apesar da receção algo fria, a banda mostrou-se feliz pela sua estreia em Lisboa, com Ian a esboçar um sorriso de contentamento. “Fill Me With Paint” e “Very High” despontaram alguns saltos meio tímidos, mas foram os seus refrões que motivaram uma maior participação, particularmente a segunda que apresenta o orelhudo jogo de palavras «I’ve been feeling pretty down/ So I get very high». De seguida a melodia sintetizada de “God Owes Me Money” e a intensa e crua “Ain’t No Flowers” mostraram bem essa dança que os Militarie Gun fazem entre o universo do hardcore e do rock alternativo.
Se era esta a estreia em Lisboa que os Militarie Gun mereciam? Não, mas verdade seja dita também não foi dada aos fãs a experiência que este concerto merecia.
Como já fizemos referência em cima, o backline foi partilhado pelas duas bandas, o que significa que cada músico só teve que trazer o seu instrumento e a sua pedaleira. Dado o seu crescimento nos últimos anos, os Militarie Gun são hoje em dia endorsers da Fender. No canal de youtube da marca é possivel encontrar vídeos como o “Make A Scene with Militarie Gun” de promoção à série de modelos Player II e “Play & Tell ft. Militarie Gun” da rubrica Fender Next. Desta forma, não é de estranhar que os modelos utilizados em palco façam parte da gama que a banda promoveu para a Fender e que é composta por guitarras Stratocaster HSS e baixos Precision, tocados por Kevin Kiley e Waylon Trim respetivamente. Por sua vez, William Acuña preferiu antes uma Jazzmaster.
“Throw Me Away” e “Kick” recuperaram os singalong, antes de Ian pegar na guitarra acústica para dois momentos de maior emoção. Primeiro com “Day Dream”, dedicada ao seu avô que faleceu recentemente e depois com “Wake Up and Smile”. No primeiro tema, Kevin Kiley recorreu a um teclado Arturia KeyLab 49 para as partes sintetizadas.
Na parte final do concerto houve espaço para tudo. Da balada “Thought You Were Waving”, ao hino da banda “Do It Faster” culminando numa volta de 360º até “B A D I D E A”, desta vez a invocar algum agitação no público com direito a um pequeno mosh pit. Se era esta a estreia em Lisboa que os Militarie Gun mereciam? Não, mas verdade seja dita também não foi dada aos fãs a experiência que este concerto merecia. Esperemos que este evento tenha servido como um aviso para que no futuro, promotores e/ou salas de espetáculo, não sejam tão conservadores, pois uma decisão ao lado pode não só manchar a experiência dos consumidores, como também das próprias bandas.















































































