Os Miss Lava, nome mais representativo do stoner rock em Portugal, estão de regresso aos álbuns com “Under a Black Sun”. Com a apresentação dos Miss Lava agendada para dia 26 de Abril, no LAV – Lisboa Ao Vivo, como banda de suporte dos suecos Graveyard, este foi o mote para uma conversa sobre o processo criativo, o gear usado em estúdio e ao vivo, a projeção da banda além fronteiras e muito mais.
Com um peso emocional mais sombrio e intenso do que seus lançamentos anteriores, o quinto álbum da banda é o primeiro registo com o baterista Pedro Gonçalves e, celebrando seu 20º aniversário, marca a longevidade da banda.
Com a inclusão de Hugo Jacinto (Dollar Llama) nas guitarras, a banda é agora um quinteto e vai apresentar-se ao vivo pela Europa fora. O kick-off será na primeira parte dos suecos Graveyard no LAV – Lisboa, um concerto Prime Artists.
Estivemos à conversa com o guitarrista Rafael Ripper.
Após um intervalo de quatro anos, estão de volta aos álbuns com “Under a Black Sun”. A faixa-título e “Dark Tomb Nebula” foram os primeiros singles. Falem-nos do processo de composição destes dois temas.
As nossas músicas aparecem sempre nos ensaios, seja numa jam, nalgum riff ou batida que alguém esteja a tocar para aquecer, por exemplo. A partir daí, vamos experimentando, alterando partes ao longo do tempo até chegarmos àquele ponto em que parece que a música fala contigo e diz “já está”. Curiosamente, acho que a “Under a Black Sun” foi a última música a ser feita e “Dark Tomb Nebula” foi a primeira. A melodia inicial da “Dark Tomb Nebula” apareceu durante as jams em que estávamos a experimentar novos bateristas. Usávamos sempre essa cena para ver como corriam as jams.
Quando o Pedro colocou aquele groove, a coisa voou. Depois, há um dia em que o Ricardo inventa o riff do refrão e começamos a tocar aquilo com aquela sensação de “ya, é mesmo isto”. Noutro dia, comecei a brincar com aqueles acordes e isso levou-nos até ao fim da música, algo bem diferente do que tínhamos feito até agora. Para a “Under a Black Sun”, foi tudo super espontâneo. Um dia baixámos para drop A# e começámos a brincar com aquela strumming do início. De repente, tínhamos a música. Adoramos aquela parte em que temos cenas em uníssono com o octaver e depois abre naquela cena super melódica quando o João está a cantar o título da música.
Ao longo de todo o processo, o João vai sempre orientando a criação instrumental, dizendo o que sente que a música pede, trocando as nossas voltas e partilhando ideias de vozes e letras. A entrada do Pedro também melhorou esta nossa dinâmica, porque ele também toca baixo e guitarra para além de bateria e preocupa-se bastante com as linhas e dinâmicas vocais.
Neste disco, o processo de composição foi sempre muito intenso, porque era “on e off”. O João passa metade do ano em Angola. Quando ele está cá, é para tocar ao vivo, compor e gravar. Depois, volta para lá e o diálogo criativo continua à distância, como “distant moons, spitting fire”. Desta vez, chegámos a gravar três maquetes das músicas todas, o que nos permitiu debater muito, mudar as estruturas completamente e experimentarmos novas abordagens ao que supostamente já estava estabelecido. Isso deu-nos muito à vontade para a gravação em estúdio, com disponibilidade e abertura para experimentar muitas coisas na hora.
E em termos de gear? Vimos no vosso Instagram que usaram em estúdio um Fender Jazz Bass e a já tradicional Les Paul Custom… Heritage? Houve mais guitarras/baixos envolvidos nas gravações? E o que é que usaram em termos de amplificadores, pedais ou efeitos? Algum segredo?
Ui. Usámos imenso material neste disco, até porque tínhamos três afinações diferentes para as músicas. O Ricardo usou um Fender Jazz Bass dos anos 90 que o baixista dos Kraken (a outra banda do Pedro) lhe emprestou e um JMS de fabrico artesanal e português. Sempre ligado a um Ibanez Tube Screamer para dar aquele calorzinho que a gente gosta. Ele usou o seu Ashdown Mag 300, que sustenta a inspiração no saudoso John Entwistle, ligado a uma coluna Laney RB410.
Eu usei maioritariamente a minha Gibson Les Paul Custom (acho que não é heritage) dos anos 90 e uma Fender COMA Michael Landau Strat, para dar aquele brilho mesmo à Pink Floyd – adorei esta guitarra, que tem uma combinação de pickups diferente do que é standard numa strat. Estas guitarras estavam afinadas em C Standard e depois afinei em drop A# para a faixa “Under a Black Sun”. Usei ainda a minha Les Paul Studio dos anos 90 para esta mesma faixa. Tem um corpo fantástico e está comigo desde o início da banda. Mudei os pickups para os Seymour Duncan Jeff Beck.

Depois, usei uma Reverend Sensei e uma SG Special (com aqueles pickups Seymour Duncan do Jeff Beck) para duas músicas com uma afinação fora do baralho – é como se fosse Open C mas em A#. Bem gravalhão. Experimentámos esta afinação quando gravámos uma cover de Soundgarden para uma compilação e acabámos por escrever a “Chaos Strain” e a “The Bends” com esta afinação.
Cena importante foi que, nos setups, tomámos a decisão de usar jogos de 7 cordas Ernie Ball Skinny Top Heavy Bottom, deixando de fora as cordas 0.10. Aguentou melhor a afinação mais grave sem dúvida.
Usei tantos pedais que já não me lembro bem. Não vivo sem o meu pedal de volume da Ernie Ball, comecei a usar um Wah Vox que estou a curtir, o MXR Phase 90 está sempre presente, o Maxon Tube Screamer, o DD20 Giga Delay, o meu Big Muff russo, o Talons da Earthquaker Devices, o Boss Super Octaver, um Chorus da Boss e um pedal meio freak que o Vegeta tem lá no estúdio, o Pigtronix MOTHERSHIP 2… sei lá, usámos muita coisa que experimentámos na hora e ficou. Era tipo “bora experimentar isto” e, se soasse bem, ficava. Isso foi muito fixe.
Para mim, o principal segredo foi uma grande ideia que o Vegeta teve: gravar com dois amps diferentes, um com muito volume para mais ganho (o Plexi Marshall) ligado a uma Orange 4×12 e outro com menos ganho (um JCM900) ligado a uma Engl 4×12. Também usámos o meu JCM800 para algumas partes. O objetivo era sentirmos mais “corda”, termos claridade e evitarmos o muddyness que normalmente acontece quando tens afinações graves. Acho que conseguimos isso!
Falem-nos da experiência de gravar nos Generator Music Studios, em Sintra.
Esta foi a nossa 3ª gravação lá. O “Doom Machine” e a cover de Soundgarden para a Magnetic Eye Records foram gravadas num regime live, com a secção instrumental da banda a gravar na sala ao mesmo tempo. Para este disco, assumimos que queríamos voltar a gravar separadamente, para experimentarmos um novo processo com o Vegeta e também por questões de agenda entre todos. Adoramos trabalhar com o Vegeta, que tem uma sensibilidade musical muito diferenciada e um nível de exigência que puxa por nós a todos os níveis. Criativamente, é muito estimulante trabalhar com alguém que questiona e olha para as músicas como um todo e está sempre disposto a experimentar algo novo no momento, sem receios. Para além disso, o estúdio tem uma localização fantástica para nós, numa aldeia a cerca de 20/30 minutos de onde moramos. Tens aquela sensação que estás num sítio remoto, o que te permite limpar a cabeça de tudo e focar apenas na criação do disco. Sem teres que virar a tua vida toda do avesso, porque ao fim do dia vais jantar e descansar a casa. Tem funcionado muito bem connosco!
Tens aquela sensação que estás num sítio remoto, o que te permite limpar a cabeça de tudo e focar apenas na criação do disco. Sem teres que virar a tua vida toda do avesso, porque ao fim do dia vais jantar e descansar a casa.
Vão agora abrir para os Graveyard, uma das bandas de referência do blues rock/rock psicadélico do séc. XXI. Como é que estão a preparar esse concerto? Vão apresentar um set em formato best-of ou vão focar-se mais na apresentação do novo álbum?
Vamos aproveitar a oportunidade para fazer uma grande “festa” de lançamento. O disco sai a 25 de abril (sempre!) e o concerto é logo no dia a seguir. Por isso, vamos focar-nos mais na apresentação do novo álbum, sem deixar de piscar o olho a outros trabalhos mais recentes. Deram-nos 45 minutos, pelo que vamos aproveitar ao máximo. Estamos a ensaiar um set com poucas interrupções para ser ainda mais intenso!
Também têm uma tour europeia de verão agendada…que irá levar-vos a países como Espanha, Bélgica e Alemanha. Como é que tem sido a receção aos Miss Lava lá fora ao longo destes 20 anos de carreira? Algum(s) episódio(s) interessante(s)?
Divertimo-nos imenso cada vez que vamos para fora. Recebem-nos sempre muito bem onde quer que a gente vá. Vamos fazendo bons amigos que nos abrem novas portas e que nos convidam para voltar. Há muitos episódios interessantes, alguns demasiado interessantes para os podermos contar aqui… hehehehe. Cada viagem ou concerto tem a sua história, mas lembro-me de um recente que foi sem dúvida único. Tocámos no Tabernas Desert Rock Fest em Almería, um festival organizado por um alemão nos estúdios de cinema onde foram filmados muitos dos clássicos filmes western italianos e americanos. Parece mesmo que estás a tocar ali no meio de um filme. O backstage é num banco, com aqueles balcões e cofres mesmo à antiga, o bar é mesmo um saloon à séria e etc. Brutal. E depois há o facto daquilo ser no meio do nada, o que faz com que toda a comunidade que se desloca para ali esteja a viver e a partilhar uma experiência comum. Já apanhei no YouTube um vídeo connosco a tocarmos lá e acho que dá para sentir a cena.
Em termos de gear, o que têm usado ao vivo?
O Pedro usa a sua Tama Rockstar com pratos Istanbul Agop e tripés Mapex. O Ricardo usa um Epiphone Embassy com o Ibanez Tube Screamer ligado ao Ashdown Mag 300 com a coluna Laney. O Hugo usa duas Gibson Les Pauls Traditional com uma cabeça Orange Rockerverb 100 ligada a uma coluna Orange. Em termos de pedaleira, o standard que quase sempre usou – pedal volume Boss, POG octaver, Boss delay DD-5, Electro-Harmonix Small Clone Chorus, Dunlop Wah 535Q, MXR Phase 90. A novidade é o Marshall Tremolo, tudo isto com o afinador Polytune e o Noise Suppressor da Decimator. Para afinação A#, ele usa uma PRS Custom 24. Eu uso as Les Pauls (Custom e Studio), o JCM800 e uma coluna Orange. Em princípio, vou usar menos pedais – volume Ernie Ball, Vox Wah, Boss Super Octaver, Boss Bass Chorus, MXR Phase 90 e o Boss DD-7. Não devo usar o Muff nesta tour. Para a afinação Open C em A#, levo a Reverend Sensei. O João usa uma pedaleira TC Helicon Live 2, que ele trouxe dos EUA quando estivemos lá por causa do segundo disco. O primeiro concerto dessa pedaleira foi no Whisky a Go-Go!
Se fossemos cuscar a tua plataforma de streaming qual é o(s) álbum(s) que tens ouvido mais ultimamente?
Isto não é uma resposta da banda, pois cada um ouve cenas diferentes. Eu estou sempre a ouvir cenas novas que partilhem comigo e, claro, volto aos meus clássicos. Acho que o álbum que ouvi mais vezes nos últimos tempos foi o “Covenant” dos Morbid Angel ou o “Romance” dos Fontaines D.C. Neste momento, estou a ouvir o novo dos Blood Abscission pela segunda vez (um amigo passou-me há pouco e estou a adorar).
Por último, como é que vêem a cena stoner em Portugal?
Acho que está com um novo fôlego, com muitas bandas novas a darem cartas e a viajarem por esse mundo fora. No geral, sinto que a cena mais psychy é o que está a ganhar mais expressão. Os Travo tiveram agora aquela sessão na KEXP que está simplesmente fenomenal, os Desert Smoke lançaram um excelente disco e vão passar o verão a tocar pela Europa, os Earth Drive têm uma qualidade que não deixa ninguém indiferente, e tens bandas novas como os El Saguaro, que estão a aparecer com muitas ganas. Isto para não falar nos Máquina., que para mim têm uma costela muito Sabbathiana. Enfim, acho que a cena vai crescer muito nos próximos tempos.
