Após duas falsas partidas, os Moonspell dobraram o cabo das tormentas sonoras para assinar uma noite memorável sobre o feitiço da aura sintrense. Num concerto singular, música, luz, história e misticismo fundiram-se para escrever mais um capítulo na epopeia destes lobos que foram homens.
[Fotografias gentilmente cedidas por Joana M. Carriço]
Sintra é um lugar imerso numa vastidão de lendas. A mais fascinante, é talvez, aquela que relata a história e a etimologia do seu nome. Para tal, é preciso recuarmos ao tempo do paganismo celta e a uma devoção particular praticada para com a Lua. No seu panteão, o culto da lua era personificado pela figura de Cyntia/Cynthia, uma deusa adorada através de rituais praticados na Serra de Sintra. Diz-se que era neste monte que, em noites de lua cheia, a deusa dançava com fadas, mouras encantadas, príncipes, elfos, duendes e, quem sabe, faunos – uma outra figura mitológica profundamente ligada ao imaginário de Sintra.
Com a chegada dos romanos, o culto da lua manteve-se, porém o nome da serra deixou de estar associado ao nome da deusa celta para passar a ser ele próprio, o acidente geográfico, apelidado de Mons Lunae, o Monte da Lua. Durante este período, o culto astrolátrico estendeu-se da serra até ao mar com o santuário em honra do Sol Invicto, da Lua e do Deus Oceano, localizado na Praia das Maçãs, a materializar a devoção que os romanos tinham para com este culto.
Mas, uma coisa é certa, além dos rituais e das edificações, o culto da lua pode ser praticado em muitos outros formatos. Que o digam os Moonspell que, passados cerca de 2000 anos da ocupação romana em Sintra e quase 35 da sua carreira, completaram finalmente o ciclo lunar com a sua estreia no Monte da Lua.
Para tamanha celebração, a banda escolheu, naturalmente, um dos ex-líbris arquitetónicos e paisagísticos da região, mas não o mais óbvio. Fugindo à imponência de espaços como o Castelo dos Mouros ou o Palácio de Monserrate, a banda encontrou na Quinta da Ribafria o espaço ideal para concretizar este seu ritual. Falamos de uma quinta com um solar do séc. XVI, de arquitetura renascentista, que está envolto num jardim de buxo e num bosque denso e que foi meticulosamente pensada como parte integrante da cenografia do concerto.
À chegada à Quinta deparámo-nos imediatamente com um palco descoberto, de dimensões baixas e com um enquadramento deslumbrante. Ao invés de recorrerem a um palco convencional com cobertura, uma tela LED e repleto de estruturas truss, os Moonspell decidiram aproveitar todo o desenho paisagístico e arquitetónico da Quinta da Ribafria de forma a proporcionarem um espetáculo totalmente diferenciado. Para tal, utilizaram uma pequena escadaria de pedra de acesso ao jardim como palco e toda a fachada do solar como suporte cenográfico para um imponente jogo de luzes e lasers.
Porém, uma noite que se avizinhava histórica e que contou com a bênção de São Pedro de Sintra através de uma invulgar temperatura amena acabou por ter início com o pé esquerdo. Sensivelmente a meio do primeiro tema, “Cross Your Heart”, uma falha de energia fez disparar o PA. Visivelmente surpreendidos, visto que o soundcheck a meio tarde tinha decorrido sem percalços, os Moonspell e os seus técnicos entraram rapidamente numa azáfama para tentar perceber e resolver o problema. Sensivelmente 10 minutos depois, a banda regressou a palco para recapitular o concerto do seu ponto de partida.
Mas, uma nova falha de energia, desta vez ainda mais cedo que na primeira tentativa, elevou os níveis de tensão e apreensão na Quinta da Ribafria. Afinal de contas, em 2026 assinalam-se os 10 anos daquele fatídico concerto dos Korn no Rock in Rio Lisboa e que levou a banda a banda de Jonathan Davis a abandonar o palco após três falhas de som.
Ainda assim, apesar da extensa espera de cerca de 30 minutos, a paciência ditou o comportamento do público, até os Moonspell regressarem uma terceira vez a palco para agora sim, sem mais entraves sonoros, prosseguirem com o concerto. «Vamos tocar tudo!», disse Fernando Ribeiro após uma pequena jam instrumental que serviu de confirmação de que tudo estava mesmo resolvido e a funcionar bem.

À terceira, “Cross Your Heart” lá conseguiu sobressair em todo o seu esplendor para demonstrar o magnânimo jogo de luzes e lasers que a banda tinha preparado. Dos raios coloridos a cruzarem-se sobre as nossas cabeças às luzes strobe posicionadas estrategicamente nas janelas abertas do solar, o concerto revelou-se de imediato como uma das melhores produções audiovisuais que os Moonspell já alguma vez apresentaram. Por sua vez, no campo do som, as coisas ainda não estavam totalmente de feição. A voz de Fernando mostrou-se neste primeiro tema à procura do seu espaço na mistura, assim como as guitarras de Ricardo Amorim, que se revelaram algo encobertas pelos teclados de Pedro Paixão.
Da voz vampiresca de Fernando aos riffs atmosféricos de Amorim tudo se harmonizou numa relação simbiótica entre som e espaço.
Naquele que é um regresso da banda à estética sonora gótica “Far From God” trouxe essa negritude romântica para a envolvência sintrense. Da voz vampiresca de Fernando aos riffs atmosféricos de Amorim tudo se harmonizou numa relação simbiótica entre som e espaço. De seguida “Biblical” fez a ponte entre o primeiro segmento de “Irreligious” (1996). Previamente, a banda já tinha anunciado que este concerto não iria ser apenas uma celebração do seu mais recente produto de estúdio, mas também uma comemoração do 30º aniversário do álbum que transformou os Moonspell numa referência do metal gótico.

Antecipando a performance dos álbuns na integra sem interrupções, os Moonspell acabaram por trocar-nos as voltas ao alternarem blocos de temas de “Far From God” com outros blocos de “Irreligious”. Na prática, esta decisão acabou por revelar uma setlist muito mais dinâmica e menos previsível.
Sem deixar passar muito tempo, Fernando decidiu enfrentar o elefante na sala. Sempre assertivo e com um sentido de humor apurado, o frontman dirigiu-se aos fãs com uma mensagem de respeito e consideração: «Eu sempre disse que esta noite não vai ser perfeita, mas vai ser memorável. E tenho a certeza que o Dave Mustaine já se tinha ido embora!» Rapidamente o gelo quebrou, a tensão baixou e os risos sobrepuseram-se à apreensão para dar início ao segmento de “Irreligious” com a sequência “Opium”, “Awake!” e “For a Taste of Eternity”.
Como banda portuguesa de metal gótico, os Moonspell sempre estiveram impregnados de uma certa melancolia e de um ideal de saudade nas suas composições. “The Great Wolf in the Sky”, apresentada em Sintra com um mapeamento de lasers a reproduzir a silhueta de um lobo por cima do solar da Ribafria, foi ao encontro desse carga mais emotiva ao surgir como uma homenagem ao fã e amigo da banda Pedro Pires. A malha em si traduz-se melhor para o contexto ao vivo com o baixo pulsante de Aires Pereira e o groove de Hugo Ribeiro a sobressaírem entre os riffs de Amorim e as melodias espaciais de Paixão.


De seguida, surgiram as primeiras estreias da noite com “Your Promise of Light” e “For the Love of Mortals”. A primeira mostrou-se mais dinâmica, com Fernando a revelar um gutural potente entre variações com a sua voz melódica e sussurrada. Já “For the Love of Mortals”, menos expansiva vocalmente, teve no trabalho de guitarra de Amorim o seu grande trunfo. Quanto ao público, esse mostrou-se recetivo aos dois temas, mas ainda com algum distanciamento face à novidade que é o álbum “Far From God”.

De volta a “Irreligious”, “Ruin & Misery” veio invocar um passado não muito distante da Quinta da Ribafria, onde a passagem do tempo e a falta de acompanhamento por parte da tutela levou a uma considerável degradação do jardim e do solar.
Apesar da estética lúgubre conferida ao espaço e que até ia ao encontro de uma certa ideia de misticismo, esta não dignificava o espaço histórico e arquitetónico. Felizmente, a Fundação Cultursintra, promotora desde concerto, e agora responsável pela gestão da Quinta da Ribafria, conseguiu devolver a vitalidade a este espaço de forma a criar um lugar propício à difusão cultural.
Já de volta a “Far From God”, “Our Freedom to Fall” e “Reconquista” reivindicaram o reencontro dos Moonspell com as raízes e com uma chama criativa que continua a dar frutos.
Ainda no segmento de 1996, a soturnidade permaneceu em “A Poisoned Gift”. O tema, que já não era tocado ao vivo desde 2021, foi apresentado como uma espécie de sequela de “Vampiria” com os teclados sombrios de Paixão a ecoarem por cada recanto daquele cenário melancólico. A celebração do álbum charneira dos Moonspell viria depois a prosseguir com a presença de uma convidada especial. Para entrelaçar a voz de baixo-baritono de Fernando com uma voz feminina a banda convidou Mariangela Demurtas para “Raven Claws”. Apesar de algumas dificuldades sentidas ao nível da captação da voz da ex-vocalista dos Tristania, este foi um momento de profunda satisfação para os fãs que há muito já acolheram Mariangela na alcateia.

O ciclo de “Irreligious” acabaria por chegar ao fim com “Mephisto” e “Herr Spiegelmann”, duas invocações a duas figuras provenientes de obras literárias e que mais uma vez ajudaram a fazer a ponte com o imaginário literário de Sintra que inspirou nomes como Lord Byron e William Beckford. Já de volta a “Far From God”, “Our Freedom to Fall” e “Reconquista” reivindicaram o reencontro dos Moonspell com as raízes e com uma chama criativa que continua a dar frutos.
A saída para o encore já tinha sido previamente anunciada por Fernando Ribeiro, com a banda a deixar para o fim uma breve passagem pelo saudoso “Wolfheart” (1995) na forma de “Vampiria” e “Alma Mater”. Mantendo o jogo de luzes sumptuoso que pautou todo o concerto, o solar da Ribafria iluminou-se com as cores da bandeira de Portugal enquanto uma projeção a laser recriou o logo dos Moonspell no céu estrelado. A fechar, a emblemática “Full Moon Madness” nunca soou tão especial como naquele instante. A simbologia de tocar este tema no Monte da Lua é deveras uma experiência transcendental e tanto banda como fãs certamente o sentiram.

Longe de perfeita, a noite encerrou com a sensação de termos presenciado um evento histórico. A dedicação que os Moonspell têm para com os seus fãs através da organização de concertos únicos e diferenciados é notória e este concerto em Sintra foi mais uma prova dessa entrega. Para a banda portuguesa a experiência e o conceito vão muito para além da mera apresentação performativa, mostrando que é através de cenários como a Quinta da Ribafria que a sua música é elevada para uma experiência multi-sensorial. Claro que há sempre o risco de ocorrerem contratempos, como se sucedeu, mas já sabemos que no fim a sorte protege os audazes.